terça-feira, 15 de agosto de 2017

"Game of Thrones" - Ganhe com o espetáculo ou morra com as falhas


Seja você fã ou não, é impossível não reconhecer a importância de Game of Thrones para a cultura pop atual: um fenômeno mundial, a série se tornou um grande evento que mobiliza milhões de pessoas ao redor do mundo e as coloca na frente da televisão às 22h (ou seja lá qual o horário de transmissão nos demais países do mundo). Cada episódio virou um espetáculo, oferecendo os melhores efeitos especiais que o mundo televisivo já viu, equilibrando uma complicada trama política com criativos elementos fantásticos, e sendo sedutora para um amplo público, seja aquele seu primo adolescente chato, seu amigo nerd hardcore ou a sua mãe (ou até mesmo a sua avó).

Mas há algo de errado com ela.

Desde o início, o programa se destacava por seu primoroso roteiro, a riqueza nos detalhes e a construção de seus personagens. Muito de seu sucesso se deve a isso: sem a brilhante trama, os diálogos arrebatadores e todas as reviravoltas que só este complicado jogo dos tronos foi capaz de nos oferecer, jamais teria sido possível angariar tamanha audiência, por melhor que fosse a computação gráfica ou por mais carismáticos que fossem os personagens. A adaptação dos livros para a TV funcionou muito bem e, mesmo após ultrapassar o ponto em que George R. R. Martin parou sua escrita, o show continuou seguindo o caminho do sucesso, tendo elevado seu próprio nível com a excelente 6ª temporada. Alguns leves deslizes aconteceram, como o treinamento de Arya Stark com os Homens Sem Rosto ou alguns episódios do início da 5ª temporada, especialmente no que diz respeito a Dorne e as Serpentes de Areia. Nada, porém, que comprometesse a qualidade geral.

A atual temporada, 7ª, vem vivendo de uma constante bipolaridade, porém. Ela nos ofereceu até agora alguns momentos memoráveis, é verdade, mas também vem mostrando algumas inconsistências, uma falta de substância e até mesmo diálogos abaixo da média. Para cada monólogo de Olenna Tyrell, há uma incoerente conversa entre Daenerys e Jon Snow sobre os Outros serem um mito ou não (sendo que ela sobrevive ao fogo e tem três dragões, que até pouco tempo eram considerados extintos). Para cada ataque à tropas Lannister como em The Spoils of War, há um Euron Greyjoy saindo ileso após ser ferido por uma das Serpentes de Areia, conhecidas por usarem veneno na lâminas de suas armas. E para cada vez que personagens se teleportam para os pontos mais extremos do mapa de Westeros, há uma Arya demorando cerca de três episódios para percorrer um caminho entre lugares bem mais próximos entre si.

Erros de principiante vem sendo cometidos com as amarras cronológicas ou espaciais. Nem mesmo os grandes momentos escapam ilesos: Como Cersei pediu apenas 15 dias para arrumar a casa para o banqueiro de Westeros? Só de tempo de viagem até os locais já se passaria boa parte disso. Por que Daenerys queimou todos os suprimentos do exército Lannister, sendo que Jon Snow disse pouco tempo antes que todo o estoque de comida seria necessário durante a guerra contra os Outros (e, nesse caso, seria muito mais inteligente da parte dela tomá-los para si)? E Olenna disse que os soldados Tyrell nunca foram grandes lutadores, mas não foram eles quem salvaram a pele de Tyrion e Joffrey nos eventos de Blackwater? Fora a insistência de Daenerys em solicitar que Jon Snow se ajoelhasse a ela, algo irritante e que até mesmo vai contra ao crescimento que a personagem teve nas temporadas anteriores.

Não me entenda mal: eu adoro a série, assisto-a desde a primeira temporada e vi um dos melhores programas da história da televisão sendo construído. Mas é por isso mesmo que acho a crítica válida: não dá para ignorar os pontos mais fortes de tudo o que foi feito durante mais de 6 anos e deixar a qualidade cair justo na reta final. Talvez seja a falta dos livros de George R. R. Martin como base (muito embora ele seja consultor dos roteiristas) ou a necessidade de encerrar o show até o episódio 6 da 8ª temporada (decisão tomada pela própria HBO e que vem se mostrando cada vez menos acertada), mas o fato é que as coisas estão tornando-se mais aceleradas, menos desenvolvidas e se alinhando para um fim pela pura necessidade de ele acontecer. Temos que ser honestos e encarar o que está diante de nossos olhos: Game of Thrones não é mais a mesma.

O espetáculo continua lá, porém, e nisso a série continua incomparável: efeitos especiais cada vez melhores e mais realistas, batalhas de proporções épicas, situações de urgência envolvendo os personagens favoritos do público, a aguardada confirmação de teorias dos fãs e todo seu retrospecto ainda fazem de Game of Thrones um dos melhores e mais divertidos entretenimentos de toda a TV na atualidade. Mas será que só isso é o suficiente? Essa é uma questão que apenas o espectador pode achar a resposta para si.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

A Mulher-Maravilha do "Universo DC: Renascimento" é o ponto de partida perfeito para qualquer leitor

A arte matadora de Nicola Scott e Romulo Fajardo Jr. em "Mulher-Maravilha" #12.

"Algo está ocorrendo... Em minha memória... A história se altera constantemente". São com essas exatas palavras que se inicia o one-shot Mulher-Maravilha: Renascimento, que serviu como base para todas as histórias da mais recente fase da principal super-heroína dos quadrinhos. Como é possível observar, a Princesa de Themyscira está confusa, um reflexo das inúmeras reformulações que a personagem sofreu nos últimos anos. Diana não sabe mais exatamente quem é, não consegue mais se comunicar com os deuses e também não encontra o caminho para seu lar. Ela, mais do que nunca, precisa de ajuda.

E houve quem estivesse disposto a ajudá-la: o premiado escritor Greg Rucka, auxiliado pelos artistas Liam Sharp, Nicola Scott e Bilquis Evely, com as cores de Laura Martin e Romulo Fajardo Jr., assumiu a missão de resgatar a Amazona, relembrando o mundo de suas raízes e redefinindo a personagem de uma maneira moderna, trazendo de volta seus principais conceitos em uma roupagem adequada e condizente com o mundo em que vivemos. Tudo isso envolvido em uma inteligente e complexa trama, e acompanhado de estonteantes traços. O resultado final, como não poderia deixar de ser, é uma obra-prima de narrativa e arte, consolidando esta como uma das melhores e mais consistentes fases da história da personagem.

Parte da iniciativa Universo DC: Renascimento, Rucka se aproveitou do formato quinzenal do relançamento do título para intercalar seus roteiros, com as edições de numeração ímpar fazendo parte de arcos se passando no presente, enquanto as de número par integram arcos que exploram o passado da heroína, indo desde sua repaginada origem até acontecimentos que antecedem por pouco o que vem ocorrendo na história irmã. Essa diferença também permitiu a variação das equipes artísticas: enquanto Liam Sharp e Laura Martin cuidaram das revistas ímpares, Nicola Scott e posteriormente Bilquis Evely, sempre acompanhadas de Romulo Fajardo Jr., ficaram encarregadas dos desenhos e das cores das pares.

Essa passagem, que se encerrou no último 28/06, ao todo contou com quatro desses arcos: As Mentiras, Ano Um, A Verdade e Godwatch. Pequenos fragmentos de uma trama que, no fim, conectou todos os seus eventos e mostrou-se algo muito maior. Muito de seu êxito se deve pela escrita inteligente do roteirista, que soube fazer uso de suas histórias intercaladas e desenvolveu seus mistérios de forma coerente, aproximando passado do futuro e abusando do conceito de ação e reação, demonstrando que nenhum dos eventos que vinham se desenvolvendo eram a toa. Isso permite com que a narrativa funcione das mais variadas formas possíveis, seja na ordem de lançamento das edições, na numeração dos encadernados ou até mesmo na sequência cronológica estabelecida para os acontecimentos.

A capa de "Mulher-Maravilha" #16, que iniciou "Godwatch", por Bilquis Evely e Romulo Fajardo Jr.

Vivendo essas aventuras estão alguns dos mais famosos personagens que compõem a mitologia da Princesa Amazona. Além da personagem-título, retornam Steve Trevor, Etta Candy, Barbara Ann Minerva/Mulher-Leopardo, e também outros antagonistas como Ares, Phobos e Deimos, Doutora Veneno e Doutora Cyber. Rucka também aproveita para resgatar algumas de suas criações para a DC, como Ferdinand, Veronica Cale (que surgiram em sua primeira passagem pela revista, entre 2003 e 2006) e Sasha Bourdeaux (que teve origem em seu tempo escrevendo Detective Comics). Todos eles receberam novas roupagens, mais adequadas para a atualidade e que servem aos propósitos da história. Nenhum deles é mero coadjuvante, porém, de modo que possuem suas próprias personalidades, múltiplas facetas e bem desenvolvidas motivações para seus papéis, sendo tão protagonistas de toda essa história quanto a própria Diana.

Isso não significa, porém, que ela tenha sido jogada para escanteio. Não, a Mulher-Maravilha ainda é a grande estrela de sua própria HQ, em uma de suas representações mais humanas, bondosas e inspiradoras. A personagem retornou às suas origens de uma forma revitalizada e condizente com a modernidade, sendo a embaixadora da paz e do amor no mundo dos homens, mas atualizando alguns de seus principais temas (ela agora é bissexual, por exemplo, e a revista trata sua vida amorosa de forma bem natural). A filha de Hippolyta também recebe diferentes tratamentos conforme o tempo da história: em Ano Um e Godwatch, ela é mostrada de forma muito ingênua e jovial, ainda pouco conhecendo das mazelas de nossa sociedade, enquanto em As Mentiras e A Verdade a vemos vem mais confiante e endurecida pelos anos, mas sem perder seu inerente brilho.

Apesar de grande parte do mérito do quadrinho estar em sua escrita, é injusto deixar de citar a arte como uma das grandes razões de seu sucesso. As equipes artísticas que aqui trabalharam são provavelmente as melhores e mais talentosas de todo o Universo DC: Renascimento, com traços fora de série que criaram algumas das mais belas páginas e capas da história da Princesa Amazona. E cada um dos desenhistas possui suas particularidades: Nicola Scott soube criar desenhos vibrantes e repletos de movimento e vida, justamente o que a origem de Diana precisava; Liam Sharp fez alguns dos painéis mais criativos e detalhados do título, sendo incomparável ao trabalhar com ambientes; e a brasileira Bilquis Evely trouxe uma bem vinda serenidade para a história, com uma pegada suave e bela, ao mesmo tempo que muito distinta, e que caiu como uma luva para a narrativa de Godwatch.

A união de todos esses esforços culminou na edição #25, Perfeito, que amarrou todos os quatro arcos da publicação e concluiu a trama de forma honesta, bonita e que deixou o terreno preparado para quem viesse a seguir. A sutileza de Rucka ao finalizar sua passagem é exemplar, não deixando pontas soltas e dando um desfecho digno para os personagens, especialmente para Diana e Steve Trevor, após tudo o que eles passaram nas 24 edições anteriores. Vale a pena também conferir a edição anual, que conta, entre outras, a história do primeiro encontro entre a Trindade da DC, com alguns momentos impagáveis do Batman (por mais incrível que isso pareça).

Quem cuida atualmente da HQ é Shea Fontana com arte de Mirka Andolfo, e em breve os consagrados James Robinson e Carlo Pagulayan assumirão o título. Mas independente do que vier pela frente, essas 25 edições iniciais são indispensáveis para qualquer um que pretenda ler Mulher-Maravilha, sejam leitores veteranos ou iniciantes que querem conhecer mais sobre a personagem. A passagem de Greg Rucka e seu time artístico rendeu não apenas uma das melhores histórias de todo o Universo DC: Renascimento, mas um verdadeiro clássico moderno, que servirá de referência para todos os futuros envolvidos com o quadrinho, tal qual foi a fase de George Pérez. E dado que sua qualidade e a admiração dos fãs perduram até hoje, maior elogio não pode existir.

A capa de "Mulher-Maravilha" #1, por Liam Sharp e Laura Martin.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

[RESENHA] "Planeta dos Macacos - A Guerra" (2017)


Em uma era em que reboots, remakes, blockbusters genéricos e filmes de super-heróis dominam as produções de Hollywood, temos o caso de Planeta dos Macacos, franquia quase quinquagenária que já se mostrava desgastada, mas que ganhou um novo sopro de vida quando resolveram abordar aquela mitologia por uma ótica, mostrando o início de tudo com Planeta dos Macacos - A Origem em 2011. Três anos depois, o diretor Matt Reeves elevou a saga de César e sua civilização de macacos a um novo patamar em Planeta dos Macacos - O Confronto, abordando temas como discursos de ódio e medo em meio de cenas de ação catárticas, com direito a primatas em cima de cavalos e portando metralhadoras, abrindo portas para um desfecho no mínimo memorável para a trilogia.

Com essa responsabilidade, chegou aos cinemas Planeta dos Macacos - A Guerra, novamente comandado por Reeves, fechando a jornada de César e pavimentando o caminho até o clássico de 1968. Mas, embora tenha A Guerra em seu título, o filme vai muito além do conflito entre macacos e humanos, sendo uma história de vingança, intolerância, sobrevivência, a perda da bondade e o sacrifício por algo maior. Isso tudo, claro, sem deixar de lado símios com armas de fogo, explosões e visuais embasbacantes, em uma execução primorosa que balanceia o artístico com o comercial como pouco visto antes.

O trajeto do personagem principal nesse capítulo final é tortuoso, sofrido e repleto de difíceis escolhas, especialmente quando se deixa consumir por ódio tamanho que o faz ser atormentado em boa parte do tempo pelo fantasma de Koba, macaco que se mostrou ser a personificação do mal no longa anterior. Mesmo acompanhado e aconselhado por seus amigos Maurice, Luca e Rocket, que acabam encontrando o divertido Bad Ape e uma garota humana pelo caminho, suas decisões, motivadas por seus sentimentos e que beiram o egoísmo, acabam colocando o grupo de primatas sob sua proteção em perigo, por mais que, em teoria, tenham sido tomadas para protegê-los. Torna ainda mais dura essa caminhada a trilha sonora de Michael Giacchino, densa, pesada, como cada consequência das atitudes do líder.

A bem construída trama tem seu ápice nos diálogos, por mais inusitado que isso pareça. Mas são nesses momentos que humanos e macacos brilham, mostrando que, apesar das claras diferenças, eles são muito mais parecidos do que podem imaginar. Andy Serkis e Woody Harrelson são um destaque a parte, com ambos sendo a força motriz do filme, transmitindo raiva e loucura a cada vez que entram em tela, especialmente quando contracenam juntos, gerando algumas das mais memoráveis cenas de toda a trilogia. Seus personagens interagem através de uma interessante dinâmica, que mistura ódio e respeito mútuo, fazendo do confronto algo além da mera sobrevivência e tornando-o pessoal, por mais que o Coronel insista em dizer o contrário.

Apesar do foco voltado para os macacos, no fim o longa diz muito sobre nós como espécie, por nossa insistência em conflitos, nossa intolerância e nossa falta de união mesmo nos momentos mais difíceis: se continuarmos assim, vamos (e talvez até mereçamos) ser todos extintos. E é isso, junto a outras questões tão humanas, mesmo se tratando de animais, que faz com que Planeta dos Macacos - A Guerra seja tão especial, um encerramento em alto nível de uma das melhores trilogias que agraciou o cinema nos últimos anos.

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terça-feira, 1 de agosto de 2017

BALANÇO MUSICAL - Julho de 2017


Olá! Seja bem-vindo ao meu projeto Balanço Musical, uma coluna mensal na qual falo sobre música, o que escutei no mês que se passou, o porquê das escolhas, o que me influenciou nesses dias, e publico uma playlist com uma faixa referente a cada dia do período. O objetivo não é nada além de escrever um pouco mais sobre música no blog, apresentar algumas coisas diferentes e dar às pessoas a oportunidade de conhecer novos artistas e canções. As postagens são publicadas sempre no primeiro dia útil de cada mês, o que pode ou não coincidir com o dia 1º.

Se há uma palavra para definir julho quando o assunto é música, essa sem dúvida é "desequilibrado". Por um lado, nesse mês, segundo o last.fm, eu bati meu recorde de faixas ouvidas em um dia (94 em 02/07). Por outro, no entanto, não foram poucos os dias em que não escutei quase nada, com quatro deles sem uma canção executada sequer. É engraçado (e cruel) como a vida pode te ocupar ao ponto de simplesmente te impedir de fazer uma das coisas que mais gosta, com as obrigações cotidianas tomando seu tempo por completo com uma série de tarefas com as quais você não tem o menor apreço, ou simplesmente não se importa.

Essa inconsistência não me impediu de fazer interessantes descobertas, porém. Alguns bons álbuns lançados nesse ano chegaram aos meus ouvidos, como o excelente Hydrograd do Stone Sour, o alternativo In Spades do Afghan Wighs (que apareceu no primeiro Balanço Musical com um de seus mais clássicos registros), os dançantes Everything Now do Arcade Fire e After Laughter do Paramore, e o sempre certeiro Mr. Big fechando o mês com seu novo disco Defying Gravity. Vale o destaque também para o ótimo Metal Resistance do Babymetal, o mais recente das garotas japonesas que abalaram as estruturas do Metal tradicional, e McCartney II, um dos CDs mais mal-compreendidos do lendário Paul McCartney, repleto de experimentações para a época e recheado de pérolas como Coming Up e Temporary Secretary.

Mas não há muito mais a se acrescentar. O resto do mês foi pautado pela audição de algumas marcantes trilhas sonoras, como a do excelente Em Ritmo de Fuga e a de Homem-Aranha: De Volta ao Lar, assim como a dos dois Trainspotting, que tive a coragem de finalmente assistir. Também foi o momento em que ouvi diversas playlists, seja algumas das minhas antigas ou outras feitas por usuários do Spotify, em sua maioria dedicadas a músicas da década de 1980 (e também uma exclusivamente sobre Depeche Mode). Então, embora este não tenha sido meu período mais dedicado, não dá para negar que houve uma boa variedade.

Confira a playlist de julho de 2017:

segunda-feira, 31 de julho de 2017

[RESENHA] "Dunkirk" (2017)


Hollywood tem cruel tendência de glamourizar a guerra, tratando o tema de forma heroica e patriótica sempre que possível. Poucos foram os diretores que ousaram apresentar os conflitos de outra ótica, demonstrando os lados sujos ou políticos que os envolvem. Christopher Nolan, contudo, traz uma nova perspectiva em Dunkirk, apresentando um confronto bélico como uma experiência de emergencialismo e sobrevivência, fazendo o espectador sentir na pele todos os horrores e aflições da Operação Dínamo.

Em um cenário tão explorado e até batido como a Segunda Guerra Mundial, retratado em inúmeros filmes, jogos, séries, documentários e livros, Nolan consegue trazer um ar de frescor ao explorar um momento tão crucial, porém muitas vezes esquecido, como a Evacuação de Dunquerque, em que as forças do Eixo pareciam imparáveis e a vitória vinha se mostrando cada vez mais distante para os Aliados. A escolha por si só já foge do clichê, retratando uma das horas de maior fragilidade das forças que viriam a sair vitoriosas do enfrentamento ao invés de uma investida mais prestigiada como o Dia D, por exemplo, substituindo a glória e o heroísmo por retratos de desespero e a necessidade de manter-se vivo a qualquer custo.

Diferencia-se de outros longas de guerra também por evitar retratos do conflito direto. Em Dunkirk, quase não há cenas em que vemos soldados portando metralhadoras, atrás de barreiras ou trocando tiros com seus opositores. O escopo, na maior parte do tempo, é o escape, a evacuação de quase 400 mil homens da costa francesa e seu retorno às terras britânicas, bem como todos os percalços enfrentados neste árduo trajeto. Em uma metáfora da mais cruel ironia em sua literalidade, é como se cada um daqueles combatentes estivesse com a vida em suas próprias mãos.

O foco do filme se divide em três momentos distintos da Operação, cada qual protagonizado por agentes de diferentes funções, mas igual importância: os soldados na baía de Dunquerque, os civis ingleses convocados para auxiliarem no resgate e os pilotos da Força Aérea Britânica que sobrevoavam a área para evitar ataques de aviões alemães. Cada um destes protagonistas vivencia os diversos horrores que a guerra pode oferecer à sua maneira, seja pela incerteza da sobrevivência, pelos desafios que os céus oferecem ou pelo enfrentamento do desconhecido ao deixar sua zona de conforto.

A atmosfera criada por Nolan com seu diretor de fotografia, Hoyte Van Hoytema, é essencial para a transmissão certeira de sensações ao público, seja através da câmera fechada e claustrofóbica em locais fechados, das belas e solitárias cenas de conflito aéreo ou nas tensas tomadas no barco de civis, que fazem questão de retratar toda a vastidão e o vazio de um verdadeiro mar de incertezas. Potencializando cada sentimento está a trilha sonora de Hans Zimmer, lendário compositor e recorrente colaborador do diretor, uma escolha sempre acertada para tratar da música e que aqui capturou com perfeição toda a urgência requisitada pelo longa, com faixas que muitas vezes chegam a lembrar o que foi criado por John Williams para Tubarão, outra obra cinematográfica que até hoje é um exemplo de suspense e tensão.

De um certo modo, é possível traçar um paralelo com Gravidade, de 2013: ambos tratam de sobrevivência e são um espetáculo visual. Dunkirk dispensa o uso do 3D, porém, e se distingue por sua temática e uso inteligente de sua narrativa, transformando-se não apenas em uma experiência única quando se trata de guerra, mas também em uma das definitivas do cinema nos últimos 10 anos, no mínimo. Um filme que merece ser visto na maior tela possível e vivido ao máximo de sua imersão, pois não há nada igual a ele no momento.

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sexta-feira, 28 de julho de 2017

"Em Ritmo de Fuga" ("Baby Driver") é um triunfo da narrativa audiovisual


Como medir a importância da trilha sonora para um filme? Simples: pense em suas apenas com o som ambiente. Se elas funcionarem exatamente da mesma forma, então ela não faz tanta diferença assim. Mas se ficar um vazio perceptível ao fundo, o que deve ocorrer em 99% dos casos, então ela cumpre um papel fundamental em sua construção. A música é um elemento essencial na maior parte das produções cinematográficas, sendo um catalisador para o que se vê em tela e criando no espectador a sensação necessária para o momento. E quem presta atenção no som enquanto assiste a um longa sabe a diferença que faz uma trilha bem escolhida ou bem executada.

Alguns diretores vão além do convencional, porém, e usam o recurso musical como um complemento à trama, trazem a música para o primeiro plano e fazem com que a cena reflita suas sensações, ou escolhem uma canção de tom contrastante com o apresentado, criando uma espécie de "humor sonoro". Mas nenhum deles atingiu o que Edgar Wright conseguiu em seu mais novo lançamento, Em Ritmo de Fuga (Baby Driver no original), um filme que é sua trilha sonora e que tem uma trilha sonora que é o filme.

De forma orgânica e fluida, Wright encaixa música e movimento ao longo dos 112 minutos da película, com o primeiro ditando o ritmo do segundo. Não cabem coincidências aqui: cada ação, corte, fala e até mesmo o nome dos protagonistas foi pensado de acordo com a faixa que estaria em cena naquele momento. A edição de som também não brinca em serviço, tratando de refletir de forma fiel a maneira como o personagem principal ouve a trilha, seja com os dois fones de ouvido, um só ou direto em potentes caixas. Os esforços do diretor culminam em um resultado ímpar, maximizando os conceitos pré-estabelecidos de narrativa audiovisual e presentando a audiência com um entretimento honesto, porém rico e exemplar em termos visuais e sonoros.

A dinamicidade com que o filme é conduzido chega a ser sedutora para o espectador, que se encanta e identifica com momentos que não poderiam ser melhor traduzidos do que com música. Quem nunca ficou abobado de amor após conhecer uma garota e passou dias ouvindo canções românticas? É o que Baby faz conforme vai se aproximando de Debbie. Ou então quem não se utiliza de faixas agitadas em momentos de alta adrenalina ou nervosismo? É o que o protagonista faz durante suas corridas de fuga. Mesmo o grande sonho do casal principal é relacionável para qualquer um, especialmente em um mundo repleto de estresse e cobranças como o que vivemos.

Há quem reclame sobre a simplicidade da trama, mas, como bem dito uma vez pelo roteirista Mark Waid no Twitter (enquanto falava sobre Logan), não há problema nenhum nisso, desde que as cenas apresentadas sejam fortes o suficiente em seus demais aspectos para criar o impacto almejado. E este é exatamente o caso do longa, que tem em sua proposta contar uma história com enfoque na apresentação da ação, do romance e do humor aliados ao embalo de suas músicas, o que rende momentos memoráveis como a alucinada perseguição ao som de Hocus Pocus, o tiroteio com Tequila em reprodução ou o confronto final que tem Brighton Rock como trilha, apenas para citar alguns. Mas também não é como se o roteiro fosse estático ou mal elaborado: é importante reconhecer o seu cuidado com as viradas, quebrando a expectativa e dando destinos inesperados para alguns de seus personagens.

Se você ficou impressionado com o uso da trilha sonora nos dois Guardiões da Galáxia, vai passar a achar aquilo tudo simples se comparado com Em Ritmo de Fuga. A meticulosidade com que Edgar Wright trabalhou a integração das músicas com os demais elementos do filme faz com que um não exista sem o outro, tornando tudo um único produto de forma natural. Não há nada como esta obra atualmente, que quebra paradigmas de montagem e narrativa, sendo um longa harmônico, dinâmico e apaixonante. Uma vitória que ficará para a história do cinema.

E nada melhor para exemplificar tudo isso do que os próprios 6 minutos iniciais de Baby Driver:

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Resenha de UM parágrafo sobre "HOMEM-ARANHA: DE VOLTA AO LAR"!


Depois de cinco filmes, parte de duas franquias diferentes, muita gente se pergunta por que deveria ver um novo Homem-Aranha nos cinemas. Mas De Volta ao Lar oferece uma visão diferente que dá um frescor ao personagem, sendo basicamente uma comédia no Universo Marvel, com toques de adolescência inspirados em clássicos como Clube dos Cinco, Curtindo a Vida Adoidado e Gatinhas e Gatões, todos dirigidos por John Hughes. O clima despretensioso só colabora com o Aracnídeo, conhecido nos quadrinhos por seu humor irreverente e que aqui finalmente atinge seu potencial, muito graças ao carisma de Tom Holland. Somado a isso, temos uma interessante e plausível reimaginação do vilão Abutre, um elenco de apoio que em muito acrescenta à dinâmica do longa (em especial Jacob Batalon, impagável como Ned Leeds), uma comedida participação de Robert Downey Jr. como Tony Stark que não ofusca o protagonista, e uma ótima trilha sonora (tanto a composta por Michael Giacchino quanto as canções de outros artistas). Não é uma adaptação perfeita do Aranha, pois o arco dramático poderia ter sido melhor desenvolvido, e acredito que o tom ideal esteja em algum lugar entre este e o Homem-Aranha 2 de Sam Raimi. Mas, se comparado aos seus antecessores, Homem-Aranha: De Volta ao Lar certamente é o mais divertido.

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segunda-feira, 3 de julho de 2017

BALANÇO MUSICAL - Junho de 2017


Olá! Seja bem-vindo ao meu projeto Balanço Musical, uma coluna mensal na qual falo sobre música, o que escutei no mês que se passou, o porquê das escolhas, o que me influenciou nesses dias, e publico uma playlist com uma faixa referente a cada dia do período. O objetivo não é nada além de escrever um pouco mais sobre música no blog, apresentar algumas coisas diferentes e dar às pessoas a oportunidade de conhecer novos artistas e canções. As postagens são publicadas sempre no primeiro dia útil de cada mês, o que pode ou não coincidir com o dia 1º.

Algo engraçado aconteceu nesse mês: uma avalanche de novos e interessantes lançamentos. Se no resto do ano eu estive mergulhado em bandas e álbuns mais antigos, seja descobrindo ou redescobrindo-os, em junho ouvi uma boa quantidade de músicas e discos que recém chegaram ao público. Destaque para registros como Is This The Life We Really Want? de Roger Waters, How Did We Get So Dark? do Royal Blood, Melodrama da Lorde, Incorruptible do Iced Earth, The Optimist do Anathema e Wolves do Rise Against, assim como as canções Run do Foo Fighters, Everybody Needs a Little Trouble do Mr. Big, Everything Now do Arcade Fire e o cover de Malagueña Salerosa pelo Avenged Sevenfold. Mas não irei me aprofundar muito, pois ainda pretendo fazer uma postagem com o que tivemos de melhor nesse primeiro semestre.

Claro que não abandonei por completo os clássicos em junho, algo que não conseguiria nem se quisesse. O mês foi aberto já com o aniversário de 50 anos do lendário Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band dos Beatles, que mudou para sempre a música pop e foi relançado em uma edição especial uma semana antes (e se tornou a trilha sonora da minha vida nos dias subsequentes). O Simple Minds também marcou presença novamente com seu viciante Once Upon a Time, especialmente a música All The Things She Said, provavelmente a mais ouvida do período. O clássico OK Computer do Radiohead também aniversariou recentemente, tendo completado 20 anos, o que motivou o grupo a lançar a versão de luxo OKNOTOK. São dignas de nota, ainda, algumas coisas que ouvi em playlists ou simplesmente fiquei com vontade de escutar, como Dio, Oingo Boingo, Pink Floyd, Michael Jackson, AC/DC, Pixies e The Knack (por algum motivo, fiquei ouvindo algumas seleções de músicas New Wave e My Sharona estava entre elas).

Não dá para deixar de lado também a influência do filme da Mulher-Maravilha em todo esse mês que se passou, chegando até mesmo na parte musical por conta de seu memorável tema e toda a boa trilha sonora do longa, composta por Rupert Gregson-Williams. E, para finalizar: BabyMetal. Tomei coragem e vergonha na cara e finalmente o debut do grupo, de 2014. Devo dizer que foi uma surpresa divertida, repleto de ideias diferentes e que esbanja qualidade. Uma ou outra coisa me incomodou, mas o saldo é muito positivo.

Confira minha playlist para junho de 2017:

domingo, 2 de julho de 2017

"Eu não sou um doutor... Eu sou O Doutor!" - A resenha do episódio "The Doctor Falls" de Doctor Who (S10E12, 2017)


Então, aconteceu. A décima temporada de Doctor Who chegou ao fim. Após 12 semanas, o show concluiu um de seus anos mais consistentes, marcado por tratar de temas sociais e políticos de extrema relevância, somado a atuações memoráveis e histórias inteligentes, tendo elevado seu próprio nível com o brilhante World Enough and Time. E se o 11º episódio deu início ao encerramento de forma apoteótica, The Doctor Falls fecha este arco com chave de ouro, de modo (literalmente) explosivo.

O confronto definitivo entre o Doutor e os Cybermen das mais variadas épocas do programa foi pautado pelo drama, tanto da situação quanto do que se passa com seus próprios personagens, e dá uma satisfatória conclusão às tramas de seus protagonistas, além de amarrar as pontas da regeneração Mestre-Missy. O encerramento da história da Bill, em especial, foi feito de modo emocional e metafórico, sendo mais do que digno para essa companion que só cresceu em nossos corações ao longo desses quase três meses.

Referências e fanservices também estiveram presentes. De jellybabies às falas do Doutor ao final do episódio, muitos foram os momentos com o potencial de colocar um sorriso no rosto dos fãs (ou fazê-los derramar um mar de lágrimas). E, falando nos últimos minutos de The Doctor Falls, que surpresa mais que agradável foi aquela, não? É com um gancho desses que se leva os espectadores à loucura e faz todos aguardarem ansiosamente pelo episódio especial de Natal.

Ainda resta mais uma história do 12º Doutor para ser contada, que fechará em definitivo este ano de Doctor Who. Mesmo assim, essa décima temporada, em seus 12 episódios regulares, fez o suficiente para ficar marcada na história da série como uma das melhores já feitas, um feito e tanto devido à produção e aos fantásticos atores envolvidos. E que venha o derradeiro capítulo do showrunner Steven Moffat e do genial Peter Capaldi, embora eu não tenha certeza se estou preparado para esse fim.

E CONFIRA, POR SUA CONTA E RISCO A PRIMEIRA IMAGEM DO EPISÓDIO ESPECIAL DE NATAL:

O Doutor e O Doutor! O quão bom isso vai ser?! Só vem, especial de Natal!

quinta-feira, 29 de junho de 2017

"Mulher-Maravilha" e o futuro das heroínas no cinema

As mulheres da DC em arte feita pelo sempre sensacional Adam Hughes. Da esquerda para a direita: Mulher-Gato, Barbara Gordon, Zatanna, Canário Negro, Poderosa, Mulher-Maravilha, Supergirl, Batwoman, Vixen, Hera-Venenosa e Arlequina.

O filme da Mulher-Maravilha já é um marco na história das adaptações de quadrinhos para o cinema. Um sucesso de crítica e bilheteria que vem quebrando recordes de arrecadação, teve a menor proporção de queda na arrecadação entre a primeira e a segunda semana de exibição desde o primeiro Homem-Aranha, de 2002, e um percentual de 92% de aprovação no agregador Rotten Tomatoes. Mais do que isso, porém, é uma conquista para o público feminino envolvido com o meio: o primeiro longa de super-heroína protagonizado por uma mulher, dirigido por uma mulher, o maior orçamento aprovado para uma diretora e, até o momento, a maior estreia com uma mulher na direção, tendo feito $100 milhões nos EUA e $225 milhões no total em seu primeiro fim de semana.

Todo esse triunfo vem como um tapa na cara de estúdios e produtores que, ao longo dos anos, tenderam por evitar o lançamento de filmes de ação e aventura com protagonistas femininas, se usando do argumento de que "não atrairia público". A situação era ainda pior quando o assunto era super-heróis e adaptações de quadrinhos, já que essa mídia foi, por muito tempo, tida como algo exclusivo do público masculino branco de classe média, jogando para longe qualquer ideia que pudesse ser estrelada por uma mulher. Como dito pelo astro das HQs Mark Millar no Twitter, acharam que seria melhor um guaxinim protagonizar um longa antes de dar o papel principal a alguém do sexo feminino.

Mas, conhecendo como Hollywood funciona, o sucesso de Mulher-Maravilha também é o indicativo de que, em breve, novos filmes de super-heroínas devem ser confirmados pela Warner, Marvel, Fox e Sony. As personagens também devem ganhar papéis maiores em longas de grupos como Os Vingadores, X-Men e Liga da Justiça, e até mesmo as coadjuvantes como Lois Lane devem receber mais destaque em um futuro próximo. Como um comparativo, basta ver o efeito que Deadpool teve na indústria: após o sucesso que a adaptação do Mercenário Tagarela obteve, a Fox anunciou a sequência da película e até mesmo planos para a X-Force, Logan foi confirmado e lançado com classificação etária para maiores de 18 anos, a Sony divulgou que fará um filme do vilão Venom voltado para esse público, e até mesmo Kevin Feige vem falando de um universo adulto na Marvel Studios. É a regra: se foi elogiado e rendeu boa bilheteria, deve ser repetido até a exaustão.

Essa tendência é vista com bons olhos, claro, afinal dará às mulheres seu justo lugar no protagonismo de longas que não sejam dramas ou comédias românticas. Entretanto, tudo isso seria em vão se os estúdios optassem por uma abordagem apelativa, com heroínas em trajes ínfimos e sexualizados, algo que infelizmente já foi tendência nas HQs e que tristemente ainda persiste nas mentes de alguns deslocados no tempo. Mas, com o movimento feminista crescendo cada vez mais entre as atrizes e envolvidas nas produções hollywoodianas, a chance para que um cenário como este ocorra é pequena e, mesmo que venha a acontecer, haverá grande resistência e críticas incessantes.

Projetos são o que não faltam: antes mesmo do lançamento de Mulher-Maravilha, a Marvel Studios já tinha programado em seu calendário um filme solo da Capitã Marvel ("curiosamente" anunciado dias depois da confirmação da adaptação da Amazona para as telas), estrelado por Brie Larson e com o casal Anna Boden e Ryan Fleck na direção. A DC Entertainment/Warner também já havia feito alguns anúncios antes da estreia da aventura de sua principal heroína, como o longa da Batgirl, a ser dirigido pelo excelente Joss Whedon, e o das Sereias de Gotham, grupo formado pelas vilãs/anti-heroínas Mulher-Gato, Hera-Venenosa e Arlequina, que contará com o retorno de Margot Robbie ao papel, assim como do diretor David Ayer. A Sony, por sua vez, já anunciou uma película própria dedicada à dupla Gata Negra & Sabre de Prata, coadjuvantes do Homem-Aranha, enquanto a Fox não divulgado nada dedicado às personagens sob seu domínio, mas sabemos que seus próximos produtos, X-Men: Fênix Negra e Novos Mutantes, devem se focar em suas protagonistas femininas, além de haver o desejo de que Laura Kinney, a X-23, seja a sucessora do Wolverine no universo cinematográfico dos mutantes.

O que mais pode estar por vir, porém? Rumores recentes dizem que a Supergirl pode vir a fazer sua estreia no Universo Expandido DC em uma eventual sequência de O Homem de Aço, que já está em desenvolvimento desde o final do último ano. Alguns boatos mais antigos consideram quase certa uma aparição das demais Aves de Rapina (Canário Negro e Caçadora) no longa solo da Batgirl. E, quem sabe, talvez agora o tão pedido filme individual da Viúva Negra finalmente ganhe o aval para ser feito, dando o protagonismo que a personagem interpretada por Scarlett Johansson merece no Universo Marvel. Também deve ser questão de tempo até a Sony, nessa sua loucura de fazer derivados do universo do Homem-Aranha, anunciar uma aventura própria para Mulher-Aranha (embora ninguém tenha certeza se os direitos da personagem estão com eles ou com a Marvel).

Outras boas pedidas estariam entre as jovens das duas concorrentes: na Editora das Lendas, personagens como Donna Troy, Estelar ou Cassie Sandsmark, de grupos como os Novos Titãs e a Justiça Jovem, ganhariam espaço e conquistariam a audiência, enquanto outras como a Batwoman, a Salteadora e Cassandra Cain (a segunda Batgirl que hoje atende por Órfã) seriam excelentes pedidas caso a Batfamília venha a aparecer em sua formação completa. Já na Casa das Ideias, heroínas adolescentes como a Ms. Marvel Kamala Khan e integrantes dos Jovens Vingadores, como a Gaviã-Arqueira Kate Bishop, a Miss America Chavez e Cassie Lang (a filha do Homem-Formiga, que inclusive já apareceu no filme do personagem), seriam as escolhas mais acertadas para se comunicar com as garotas da atualidade. Também vale a menção à Mulher-Hulk, que poderia render um filme no mínimo interessante.

Muitas devem ser as mudanças a respeito da postura dos estúdios de cinema quanto às suas super-heroínas nos próximos anos. O pioneirismo de Mulher-Maravilha abriu as portas para um nova era de protagonismo feminino nas telas, que deve ser aproveitada pela indústria ao máximo, e quem mais sai ganhando são os fãs, especialmente as mulheres. Se tudo for feito com o devido respeito, sem exposição ou sexualização sem necessidade, pode sair muita coisa bacana e criativa daí. E que venham os filmes da Batgirl, Capitã Marvel, Sereias de Gotham e todos os demais que forem confirmados!

Algumas das mulheres da Marvel em arte assinada por "R. Martinez". Da esquerda para a direita: Jean Grey, Gata Negra, Mulher-Invisível (Sue Storm-Richards), Mulher-Aranha (Jessica Drew), Mística, Feiticeira Escarlate, Tempestade, Emma Frost, Psylocke, Cristal, Tigresa, Ms. Marvel (Carol Danvers), Mulher-Hulk, Vampira, Kitty Pride, Mulher-Aranha (May Parker de uma Terra Paralela) e Flama/Estrela de Fogo.

terça-feira, 27 de junho de 2017

[RESENHA] The Wild Storm #5 - "Chapter Five" (2017)


Fica mais difícil resenhar The Wild Storm a cada mês que se passa. Além de começar a faltar adjetivos, também não há muito mais a ser dito que já não tenha sido nas últimas quatro vezes. Ou seja, a consistência na qualidade dessa publicação é a maior aliada de seus leitores, mas também a maior inimiga dos críticos ou daqueles que gostam de analisá-la. Mas também vale dizer que a história vem caminhando num ritmo mais lento que o esperado, com Warren Ellis muito focado em estabelecer todo aquele universo antes de pular de cabeça na ação que o consagrou em StormWatch e The Authority.

Nesta quinta edição, mais voltada a desenvolver os personagens e suas interações, a trama se desenrolou de forma interessante, com algumas viradas e mudanças de lado pouco previsíveis. Zealot encontrou com um Daemon, a nova versão dos Daemonites de WildC.A.T.s, e Adrianna Tereshkova, a Void, falou um pouco mais sobre seu passado, em uma conversa pouco ortodoxa com Angela Spica, a Engenheira. O grande destaque, porém, vai para Michael Cray, que tomou algumas decisões controversas  e que certamente influenciarão seu futuro, ainda mais com sua revista solo vindo aí.

Não dá para ter tanta certeza quanto à direção que The Wild Storm está tomando, mas novos indícios vem indicando cada vez mais que há algo muito maior por trás desse quadrinho do que uma mera disputa entre a IO, a SkyWatch e os WildC.A.T.s. E, com a próxima edição sendo publicada apenas em agosto, vai ser difícil segurar a curiosidade.

Confira cinco páginas desse número #5 de The Wild Storm:





segunda-feira, 26 de junho de 2017

"Espere por mim" - A resenha do episódio "World Enough and Time" de Doctor Who (S10E11, 2017)


Ao longo desses mais de dois meses de exibição da décima temporada de Doctor Who eu venho dizendo que, por este ser o ano final do showrunner Steven Moffat e do ator Peter Capaldi, o seu encerramento não seria nada além de épico e apoteótico. A chegada de World Enough and Time, seu décimo primeiro episódio, veio para confirmar essa teoria, dando início a um final repleto de emoções e nos presenteando com um dos pontos mais altos dessa fase e, por que não, de toda a série.

Aqui, tivemos participações mais do que especiais do Mestre de John Simm e dos Cybermen Mondasianos, como prometido por todo o material de divulgação. Nada, porém, foi feito de modo gratuito, como mero fanservice: a trama do capítulo amarra cada ponta, justifica cada escolha, dá uma reação para cada ação. O roteiro foi construído de forma meticulosa, usando-se magistralmente de conceitos complexos de física quântica sobre espaço, tempo e buracos negros da forma mais didática possível, entregando uma das histórias mais tensas e tristes que o programa já viu.

Muito disso só é possível graças à equipe técnica e aos atores, contudo. Toda a fotografia do episódio, coordenada pela já veterana diretora Rachel Talalay, é essencial para criar seu clima de suspense e claustrofobia, algo que o espectador sente na pele, ao ponto de chegar ao fim sem fôlego. Pearl Mackie também merece todos os elogios possíveis, sendo a figura central do capítulo e apresentando uma de suas melhores atuações na temporada, tendo transmitido cada emoção com muita intensidade. Não dá para deixar de citar, ainda, John Simm, que foi essencial ao episódio, especialmente nos momentos finais, deixando um dos melhores ganchos já vistos em toda a série (com direito até a referência a um dos mais clássicos arcos do 4º Doutor).

Nos últimos anos, Doctor Who tem criado uma tendência muito semelhante a de Game of Thrones, em que o penúltimo episódio é sempre o melhor da temporada: na oitava, tivemos o excelente Dark Water; na nona, fomos presenteados com Heaven Sent; e na décima, seguindo o padrão, World Enough and Time nos surpreendeu com sua inteligente construção e brilhante execução. Faltando apenas mais uma semana, só nos resta aguardar por um season finale que promete ser imprevisível e marcante.

CONFIRA A PRÉVIA DO EPISÓDIO FINAL DA TEMPORADA, THE DOCTOR FALLS:

quarta-feira, 21 de junho de 2017

O filme do Han Solo só tem a perder com a saída de Phil Lord e Chris Miller


O mundo do entretenimento foi pego de assalto na noite de ontem com o anúncio do desligamento dos diretores Phil Lord e Chris Miller do comando do filme (ainda sem nome oficial) do Han Solo, vindouro spin-off da saga Star Wars, nos mesmos moldes do elogiado Rogue One, que contará as origens do contrabandista mais querido da galáxia. A surpresa foi ainda maior pelo fato do longa já estar em fases avançadas de filmagens, que tiveram início em 20 de fevereiro deste ano (ou seja, a dupla dedicou exatos 4 meses de trabalho direto à produção), e ter data de lançamento mundial prevista para 25 de maio de 2018.

Mas independente de qual foi o motivo que culminou nessa saída, seja o acordo mútuo por diferenças criativas da versão oficial, a demissão por pura implicância de Kathleen Kennedy e Lawrence Kasdan divulgada extraoficialmente ou qualquer outra louca história de bastidores que venha a aparecer, o filme só perde com o não-envolvimento de Lord e Miller. Mais conhecidos por dirigirem Uma Aventura LEGO e os dois Anjos da Lei, os caras também já figuraram como roteiristas e produtores de diversas aclamadas séries de comédia, incluindo Brooklyn Nine-Nine, The Last Man on Earth e até mesmo How I Met Your Mother, durante sua excelente primeira temporada.

A dupla é conhecida por seu senso de humor diferenciado, como fica bem claro pelos projetos que já participaram. Esse estilo casaria perfeitamente em um longa protagonizado por um personagem como Han Solo, conhecido por suas tiradas ácidas, sarcasmo e malandragem em meio às enrascadas que se envolve em suas aventuras. E, como ficou claro em Anjos da Lei, eles também sabem trabalhar a amizade (ou, sendo mais específico, o bromance), algo que seria vital para o relacionamento do protagonista com o também icônico Lando Calrissian, já confirmado na trama.

Um dos motivos que mais me empolgavam para esse filme era justamente o fato de ser comandado por Phil Lord e Chris Miller, diretores em ascensão em Hollywood que vinham provando sua qualidade com o lançamento de longa-metragens divertidos e despretensiosos, mas com substância e alguma mensagem (por mais distorcida que ela seja), algo que cairia como uma luva para o futuro derivado de Star Wars. E, por mais que eu confie em Kathleen Kennedy e Lawrence Kasdan na maior parte do tempo, acredito que eles tenham errado feio dessa vez. No fim, não são Lord e Miller quem perdem a direção de Han Solo, mas Han Solo que perdeu a direção de Lord e Miller.

E, com o retorno dos rumores de que eles serão responsáveis pela adaptação do super-herói Flash para o cinema, talvez a grande vencedora nisso tudo seja a Warner e a DC Entertainment.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

"É hora de crescer" - A resenha do episódio "The Eaters of Light" de Doctor Who (S10E10, 2017)


A décima temporada de Doctor Who chega a sua reta final com uma consistência invejável aos seus outros anos. Uma sequência incrível de bons episódios, com aventuras divertidas e subtextos com temas interessantes e pertinentes faz com que a série desconheça adjetivos como "fraco" e "ruim" em 2017 até o momento, já que The Eaters of Light é mais uma bem vinda adição a essa coleção de êxitos, com uma trama interessante e bela fotografia.

Em uma história com premissa até semelhante à de Thin Ice, este capítulo se passou todo na Escócia, durante os tempos do fim da expansão do Império Romano, e trouxe uma interessante perspectiva sobre o conflito travado entre os conquistadores de Roma e os povos tidos como bárbaros, culminando na reflexão de como grande parte dos confrontos existentes pode ser resolvido na base do diálogo e explorando um dos recursos mais clássicos da TARDIS como nunca antes. Vale também o destaque para toda a conversa entre Bill e os centuriões sobre sexualidade, uma vez que os romanos são historicamente conhecidos por sua liberdade quanto ao assunto. Curiosa a abordagem do tema no mesmo final de semana em que ocorreu a Parada Gay em São Paulo (coincidência? Provavelmente sim).

Com apenas mais dois episódios (e um especial de Natal), já vai ficando a saudade no coração dos fãs de Doctor Who, seja deste ano da série ou de Peter Capaldi encarnando o Doutor. E, se World Enough and Time e The Doctor Falls cumprirem o que prometem como desfecho, esta décima temporada certamente figurará entre as melhores desta encarnação moderna da série e, por que não, do programa como um todo.

CONFIRA A (EXPLOSIVA) PRÉVIA DO PRÓXIMO EPISÓDIO, WORLD ENOUGH AND TIME:

terça-feira, 13 de junho de 2017

[RESENHA] The Wild Storm #4 - "Chapter Four" (2017)


Quando Warren Ellis comentou que havia se baseado em Game of Thrones para desenvolver o novo Universo Wildstorm, ele não estava de brincadeira: cada novo capítulo é um equilíbrio saudável entre acontecimentos desenfreados e desenvolvimento de trama, personagens e mundo, tal qual na consagrada série da HBO. Não é de se espantar, portanto, que o mais recente número de The Wild Storm tenha seguido essa mesma estrutura.

Esta edição se inicia exatamente no mesmo ponto em que a anterior se encerrou, com o frenético conflito entre IO e WildC.A.T.s. É interessante como Ellis e seus colaboradores tem o dom de representar a violência extrema de uma forma não apelativa e ao mesmo tempo divertida, sendo o inglês uma espécie de Tarantino dos quadrinhos. Davis-Hunt é peça chave para isso, claro, com um trabalho que consegue ser mais conquistador a cada novo mês.

Concluída a ação, a sequência é recheada de desenvolvimento de universo. Entre dos diálogos envolvendo os WildC.A.T.s, Michael Cray e Miles Craven, porém, temos um novo vislumbre da terceira parte desse conflito entre agências, pouco explorado até então: a SkyWatch. Dessa vez, temos algumas páginas exclusivamente reservadas para mostrar o envolvimento de Henry Bendix com seus subordinados, em especial com Lauren Pennington, a heroína Fahrenheit da StormWatch original. Bendix é retratado de forma horrível, com aparência decrépita, demonstrando-se também racista e sem respeito algum por seus funcionários, lidando com todos na base do medo. Ou seja, aqui não restam dúvidas que o Homem do Tempo é uma figura mal intencionada, ao contrário da HQ clássica. E finalizando essa passagem, somos apresentados à base de operações da equipe no espaço, mostrada de modo tão megalomaníaco e belo quanto o Olho do Céu original.

The Wild Storm segue sendo uma leitura interessante, uma das melhores do mercado, mas que vem se apresentando de modo mais lento que o esperado. A necessidade do roteirista de reapresentar tantos personagens e conceitos de forma repaginada para toda uma gama de novos leitores é a principal causa disso, mas tudo bem sendo feito com a qualidade que já é marca registrada de Warren Ellis. Assim que essa necessária etapa se encerrar, entretanto, e os outros 3 títulos da nova franquia forem lançados, tenha certeza: este será um dos gibis mais surpreendentes de se ler.

Confira abaixo as 4 páginas iniciais da edição #4 de The Wild Storm:




segunda-feira, 12 de junho de 2017

"God Save The Queen!" - A resenha do episódio "Empress of Mars" de Doctor Who (S10E09, 2017)


Muitas foram as pessoas que já escreveram um roteiro para Doctor Who. Desde convidados ilustres como Neil Gaiman, Douglas Adams e Paul Cornell a ilustres desconhecidos que deixaram ou não uma marca, o seriado sempre contou com uma seleta lista de escritores para desenvolver suas tramas. Na era atual (desde o retorno em 2005), um dos nomes mais creditados é o de Mark Gatiss, roteirista que é mais conhecido como o Mycroft Holmes de Sherlock e que já cuidou da história de 9 episódios do programa. E quem é fã sabe que seu trabalho deixa a desejar, geralmente figurando entre o mediano e o ruim, sendo que seu mais recente script, em Sleep No More da 9ª temporada, é um dos mais criticados de sua trajetória.

Pois bem, o episódio dessa semana, Empress of Mars, é mais uma tentativa de Gatiss como roteirista. Diferente da maioria de seus argumentos anteriores, porém, ele consegue entregar um bom resultado. Embora não tenha gostado de alguns desenvolvimentos, eles mais tem a ver com o maxi-arco da temporada, de modo que a história fechada do capítulo é bem resolvida e interessante, mostrando o poder da diplomacia, do diálogo e da honra na hora de um grande conflito. A escolha de inimigos clássicos como os Guerreiros de Gelo se mostrou bem adequada e conseguiu gerar uma trama repleta de tensão para ambos os lados do confronto.

Embora não tenha havido nenhum grande destaque na atuação, sempre é bom elogiar o trio formado pelo Doutor, Bill e Nardole, que vem demonstrando uma incrível química durante toda a temporada. A cena final, entretanto, é um show a parte graças a Peter Capaldi e Michelle Gomez, e deve ter uma grande repercussão para os três episódios restantes. Veremos o que nos aguarda no desfecho desse 10º ano de Doctor Who, que até o momento vem se consolidando como um dos melhores e mais consistentes.

CONFIRA A PRÉVIA DO PRÓXIMO EPISÓDIO, THE EATERS OF LIGHT:

sexta-feira, 9 de junho de 2017

DUPLO DOCTOR WHO (de novo)! As resenhas de "Pyramid at the End of The World" e "The Lie of the Land" (S10E07 e S10E08, 2017)


Manter a frequência dessas resenhas sobre Doctor Who tem se tornado cada vez mais difícil. E dessa vez eu nem tenho como dar a desculpa que usei da última vez, porque assisti os dois últimos episódios no dia de suas transmissões aqui no Brasil pelo Syfy. Foi o cansaço/preguiça que me impediu de escrever no tempo adequado, fora o trabalho que os dois textos sobre Mulher-Maravilha me deram nos últimos dias (e não me arrependo de nada!).

De qualquer modo, vamos aos comentários sobre dois últimos episódios da série individualmente:

THE PYRAMID AT THE END OF THE WORLD:

Não há muito a ser dito sobre esse episódio, só tenho a elogiar toda a atmosfera de tensão desenvolvida ao longo de sua duração e, mais uma vez, as atuações de Peter Capaldi e Pearl Mackie. Foi interessante ver a humanidade acuada e se aliando em prol de uma causa maior (embora não tenha dado nada certo). Também pudemos ouvir uma das frases mais interessantes da temporada até agora: "Você pede por amor. Amor é consentimento" (sentiu a crítica social aí?). Entretanto, as ações altruístas de Bill acabaram tendo repercussões negativas na semana seguinte.

THE LIE OF THE LAND:

Fechando o arco de três episódios sobre os Monges, temos esse fantástico episódio que trata de temas bem atuais: notícias falsas, lavagem cerebral, governos autoritários e a força do povo. A conclusão sobre a humanidade não aprender com os próprios erros é genial, embora triste, mais ainda assim condizente com a atualidade. A resolução final da trama é bem executada e sua ideia é muito bonita e criativa. Não dá para deixar de dizer, porém, que tivemos aqui uma das melhores cenas entre o Doutor e Bill, com Pearl Mackie brilhando em cada segundo e nos presenteando com sua melhor atuação na série até agora.

Com apenas quatro episódios para seu final, não é difícil notar o quão boa essa 10ª temporada tem sido. Muitos episódios desenvolvidos acerca de temas sociais ou familiares deram ainda mais força a Doctor Who, mostrando que uma série sobre um alienígena quase milenar consegue ser mais humana do que muitos outros produtos por aí. Cabe a nós apreciar cada momento que ainda nos resta.

CONFIRA A PRÉVIA DO PRÓXIMO EPISÓDIO, EMPRESS OF MARS:

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Gostou de "Mulher-Maravilha"? Então conheça algumas ótimas histórias da personagem!


O sucesso do primeiro filme solo da Mulher-Maravilha já é uma realidade palpável, tendo o índice de aprovação mais alto para um longa de super-herói no agregador de críticas Rotten Tomatoes desde o lançamento de Batman: O Cavaleiro das Trevas e do primeiro Homem de Ferro em 2008, e dominando a bilheteria mundial desde sua estreia, já havendo arrecadado mais de $225 milhões ao redor do globo. Toda essa recepção tende a aumentar ainda mais a exposição da Princesa das Amazonas ao público geral, que naturalmente pode querer conhecer mais da personagem, mas sem saber muito bem por onde começar.

Com isso em mente, preparei uma breve lista com algumas HQs que servem como um ótimo ponto de partida para quem quer se aprofundar mais nas aventuras da heroína, se familiarizar com seus aliados, descobrir mais sobre seus inimigos. Porém, não elencarei aqui as "melhores histórias de todos os tempos", e sim algumas excelentes publicações lançadas recentemente em solo brasileiro e que ainda são fáceis de serem encontradas. Ou seja, nada de raridades ou importados. Felizmente, as editoras resolveram dar uma atenção especial à Diana de Themyscira nos últimos tempos, muito graças ao filme que estava para chegar e aos 75 anos completados pela personagem em 2016. 

Confira, então, as recomendações na sequência:

MULHER-MARAVILHA - UNIVERSO DC RENASCIMENTO


A mais recente das presentes na lista, a atual fase da Mulher-Maravilha começou a sair nos EUA há exatamente 1 ano, e já é tida como uma das maiores obras-primas protagonizadas pela personagem. Escrita pelo genial Greg Rucka, contou com a participação dos igualmente geniais artistas Liam Sharp, Nicola Scott e Bilquis Evely na realização de seus 4 arcos: As Mentiras, Ano Um, A Verdade e Godwatch (que deve ser traduzido como Patrulha Divina ou algo do tipo), que contam histórias intercaladas entre o presente, com a Amazona tentando descobrir quem realmente é, e o passado, mostrando a origem e os primeiros anos de atuação de Diana em nosso mundo. Rucka e seus colaboradores infelizmente deixarão a série ao final deste mês, na edição #25, dando espaço para Shea Fontana assumir os roteiros. No Brasil, o quadrinho é o primeiro título solo da heroína a ser publicado mensalmente, tendo início no fim de abril e atualmente estando em seu volume #2, sendo ainda facilmente encontrado em bancas ao redor do país. Sem dúvida uma HQ que vale a pena ser acompanhada.

MULHER-MARAVILHA - OS NOVOS 52!


Exatamente anterior à fase de Rucka (e uma das causas para ela existir), temos a série da personagem no reboot Os Novos 52!, escrita pelo renomado Brian Azzarello e com arte de Cliff Chiang. Magistralmente escrita, este título é um tanto quanto controverso entre os fãs por ter se afastado de muitos elementos clássicos da Mulher-Maravilha, que é representada de forma mais violenta, assim como seu elenco de apoio, com as Amazonas sendo mostradas de forma polêmica. Tenha em mente que a heroína representa mais do que é mostrado aqui e aproveite esta excelente história com fantásticos desenhos, publicada aqui no Brasil pela Panini nas revistas mix Universo DC e posteriormente nos encadernados em capa dura Sangue e Direito de Nascença, sendo que ainda é possível encontrar o primeiro por aí. O terceiro volume deve ser lançado ainda nos próximos meses.

LENDAS DO UNIVERSO DC: MULHER-MARAVILHA, POR GEORGE PÉREZ


A mais clássica e referenciada fase da personagem, o lendário George Pérez assumiu os roteiros e a arte da HQ logo após a Crise nas Infinitas Terras, que reiniciou todo o Universo DC em 1986. Aqui, vemos a origem da Mulher-Maravilha sendo recontada em aventuras que redefiniram a personagem a heroína nos 25 anos seguintes e até hoje é referência para muitos criadores, seja pela cativante história, a protagonista amável e o estupendo trabalho de Pérez com a parte visual. A mais recente publicação da série no país foi com o título Lendas do Universo DC, tendo sido lançados 3 volumes até agora e com um quarto, que encerra o título, para sair em breve.

MULHER-MARAVILHA - TERRA UM


A linha Terra Um da DC serve para que criadores contem suas versões de personagens clássicos em histórias que se passam fora da cronologia oficial da editora. Com isso em mente, o escritor Grant Morrison e o desenhista Yanick Paquette desenvolveram uma interpretação própria para a origem da Mulher-Maravilha, que dividiu opiniões e causou polêmicas por conta da inclusão de elementos fetichistas no cerne da trama, algo idealizado pelo próprio criador da heroína, William Moulton Marston, na época de sua criação, em 1941, e potencializado ao máximo pelo roteirista escocês. Embora ache a graphic novel bem escrita e com uma arte fantástica, reconheço que ela é a menos indicada da lista para se conhecer a Princesa das Amazonas. Ainda assim, caso alguém se interesse, é possível achar a HQ facilmente em bancas, livrarias ou lojas online.

MULHER-MARAVILHA NA COLEÇÃO DE GRAPHIC NOVELS DA DC COMICS, PELA EAGLEMOSS


Apesar de ter muito mais títulos do Batman e do Superman (e dos dois juntos, por que não?), é possível encontrar algumas histórias da Mulher-Maravilha na Coleção de Graphic Novels da DC Comics, publicada de forma quinzenal pela Eaglemoss. Entre elas, podemos citar as ótimas O Círculo, da fase da escritora Gail Simone, Paraíso Perdido, escrita por George Pérez e com os belos desenhos de Phil Jimenez, e Deuses e Mortais, a primeira história da fase de Pérez citada anteriormente. Ainda será lançada também a excelente Petrificada, da primeira passagem de Greg Rucka pela série. Apesar de caros, vale a pena adquirir esses quadrinhos por conta da alta qualidade dos mesmos, além de pouco terem saído por aqui.

DC SUPERHERO GIRLS: PROVAS FINAIS


Apesar de não ser um título exclusivo da Mulher-Maravilha, muito espaço é dado a ela, ao lado de outras personagens femininas do Universo DC, com alguns arcos se passando em Themyscira ou envolvendo alguns de seus elementos principais. Claramente voltada para o público infantil, essa HQ é escrita pela futura roteirista da série principal da heroína nos EUA, Shea Fontana, e é uma ótima alternativa para apresentar a personagem a uma filha, sobrinha, neta, filha de amigos e afins. É possível ser adquirida em lojas online e em breve deve ganhar novas edições.

Gostou da lista? Achou que faltou alguma HQ? Deixe um comentário logo abaixo!

segunda-feira, 5 de junho de 2017

[RESENHA] "Mulher-Maravilha" (2017)


Todo mundo sabe da situação em que o Universo DC estava no cinema. Já falei sobre isso aqui e aqui. A atmosfera de incertezas que pairava sobre os longas compartilhados dos personagens da editora das lendas após um lançamento divisor de opiniões e dois fracassos retumbantes de crítica, ainda que tenham feito uma bilheteria considerável, colocaram a Warner Bros. em uma posição delicada, precisando de uma reposta que reconquistasse os especialistas e eliminasse as dúvidas dos fãs.

Então, em um movimento quase que idêntico ao que a DC fez nos quadrinhos há um ano, com a iniciativa Universo DC Renascimento, veio Mulher-Maravilha, um filme que, em termos de roteiro, decidiu por jogar seguro, não arriscar muito e evitar pretensões baratas de "desconstrução" de personagens nas telas, apresentando o básico, o essencial e o necessário, ao mesmo tempo que consegue se conectar ao que foi apresentado anteriormente. E, em tonalidade, afasta-se de todo o sombrio e realista visto até então, dando uma guinada ao otimismo necessário para fazer esse Universo Estendido funcionar como deve.

O que é apresentado na tela é uma história de origem que bebe diretamente da fonte das mais aclamadas HQs: tem um pouco da liberdade sexual da versão original de William Moulton Marston, muitos elementos das clássicas histórias de George Pérez, a Diana guerreira de Brian Azzarello, e até mesmo a embaixadora da paz e símbolo de amor e mudanças escrito por Greg Rucka na recente Ano Um. Todos esses elementos misturados e colocados na hostilidade e sujeira da Primeira Guerra Mundial resultam em uma trama única que condiz com a personagem apresentada em Batman vs Superman: A Origem da Justiça.


É notável também o quão acertada é a caracterização dos personagens. Antes um dos principais problemas do Universo Estendido DC, aqui chega a ser venerável a retratação de cada um dos participantes da trama: a Mulher-Maravilha é decidida, com suas próprias noções de liberdade e igualdade, não hesita na hora de defender o que acha correto e inspira todos ao seu redor, por sua graciosidade, coragem e senso de justiça. Steve Trevor, por outro lado, é o homem fruto de seu tempo, ainda que progressista só pelo fato de ter o mínimo de fé em Diana, e o espião ardiloso, o estrategista da guerra já acostumado com aquele ambiente. O contraste entre os dois dá sustância ao filme, algo que só é possível graças ao carisma de Chris Pine e, principalmente, Gal Gadot, que mais uma vez é uma presença de destaque sempre que está em cena.

Vale também a menção ao elenco de apoio, muito diversificado em questões étnicas, sejam as Amazonas ou os aliados de Trevor, e que trazem à tona questões importantes de forma pontual. Sejam através de cenas cômicas como aquelas em que Etta Candy aparece ou quando Sameer diz a Diana por que ele está na guerra, sempre há uma crítica sendo feita sobre a desigualdade de gênero e o racismo, de modo natural e não panfletário. E é de se vibrar na poltrona do cinema em todas as cenas de batalha das residentes de Themyscira, especialmente as protagonizadas pela Antíope de Robin Wright.

Tratando-se da trama, o modo em que o arco de desenvolvimento da protagonista se dá é algo único. Acompanhar a saída da Mulher-Maravilha da Ilha Paraíso e sua chegada ao mundo dos homens faz do espectador um cúmplice de sua jornada, sentindo na pele as injustiças da humanidade e os horrores que a guerra proporciona, desde a visão dos doentes, famintos e mutilados à perda daqueles que nos eram mais próximos. A forma como Patty Jenkins retratou tudo isso é impactante, dolorido e condizente com a realidade, escancarando, tanto para a personagem principal quanto para o público, que não há beleza em conflitos dessa proporção.

Falando da diretora, muito do que se destaca no longa é devido a ela. Enquanto o roteiro apostou no básico, os aspectos visuais foram na direção oposta, ousando com belas cenas de fotografia aberta, contraste de cores entre o que se passa em Themyscira e no mundo dos homens, e ação sendo mostrada de forma ampla e realista. O trabalho de Jenkins com o elenco também foi exemplar, tendo extraído o melhor de cada um dos atores para que suas representações e as relações entre seus personagens fossem o mais natural e empático possível.



Apesar de tudo dito até agora, Mulher-Maravilha não é perfeito. Pessoalmente, achei que poderiam ter arriscado um pouco mais nas críticas sociais, mas talvez seja o filme que idealizei em minha cabeça falando mais alto. O fato é que o longa apresenta algumas leves inconsistências em seu ritmo, derrapadas que o fariam desandar se durassem um pouco mais. Nada no nível de Batman vs Superman ou Esquadrão Suicida, porém, sendo uma aula de coesão se comparado a esses dois. E, embora tenha gostado dos vilões (especialmente em uma cena de risada maléfica que beirou a série do Batman de tão caricata), a Dra. Poison poderia ter sido melhor desenvolvida e aproveitada, ainda que seu impacto na história seja grande.

Mas mesmo com tantos destaques, o maior deles vai para o desfecho do filme. Diana se consolida como tudo o que a Mulher-Maravilha representa através da mensagem de esperança transmitida ao público, que chuta para longe qualquer receio de que o longa pudesse terminar de modo depressivo após o mostrado em BvS. Esse encerramento em tom otimista, além de inspirador para o espectador, era mais que necessário para se afastar do resto do Universo Estendido DC e cravar a mudança de rumo tão necessária para o que vem pela frente. E também é digno citar que, apesar das referências necessárias para demonstrar a integração nesse universo, o filme se encerra sem ganchos ou cenas pós-créditos preparadoras de terreno, podendo ser visto de forma independente, o que é ótimo.

Respondendo à indagação que fiz no texto sobre a importância e a responsabilidade de Mulher-Maravilha: sim, eu estava certo. O longa cumpriu seu papel e colocou a DC de volta nos trilhos, sendo uma jornada divertida e densa ao mesmo tempo, repleta de ação, belos visuais e muito carisma por parte de seus protagonistas. Mais do que isso, porém, ele fez com que mulheres se sentissem representadas, abriu em grande estilo as portas para que mais filmes de heroínas sejam feitos em um futuro próximo (Capitã Marvel e Batgirl estão logo aí) e honrou todo o legado da Princesa das Amazonas. Isso, por si só, já é uma vitória.

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