sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

A resenha sobre "Star Wars: Os Últimos Jedi" não saíra tão cedo


Já virou costume: sempre que eu assisto a um filme nos cinemas, dou um jeito de escrever sobre ele aqui no Ground Zero. Resenha de um parágrafo, resenha completa, análise com spoiler ou, como foi o caso de Bingo: O Rei das Manhãs, um texto reconhecendo minha incapacidade de acrescentar qualquer coisa que não havia sido dita pelos escritores de sites especializados (muito mais competentes do que eu, diga-se de passagem). De qualquer modo, sempre é uma atividade criativa e opinativa, e os esforços para tomar uma posição de modo tão rápido e frequente me fizeram refinar meu olhar sobre os longas com o passar do tempo.

E eu planejava fazer o mesmo com Star Wars: Os Últimos Jedi. Mas não vai acontecer tão cedo.

Assisti ao segundo episódio da nova trilogia da franquia na última noite, e eu mantenho meus sentimentos desde o segundo em que foram exibidos os créditos finais. Até agora eu não sei o que falar sobre o filme, ou pensar, e muito menos sintetizar um texto em minha mente e postá-lo aqui. Essa foi a experiência mais diferente e inesperada que tive com a saga ao longo de quase uma vida como fã, e o impacto foi tão grande que acredito que demorará dias (talvez até semanas) para que eu consiga digerir por completo o que testemunhei na tela do cinema nesse último dia 14/12.

Então não, não acredito que a resenha sobre Episódio VIII venha a sair tão em breve. Por isso, meu melhor conselho no momento é: vão ao cinema, vivam esse longa em suas 2:30h de duração e tirem suas próprias conclusões. Independentemente de qual ela for.

Mas não desistam da resenha. Ela sairá, apenas demorará um pouco mais que o habitual. E quando sair, cara... Vai ser linda. Então aguardem.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

5 álbuns do segundo semestre de 2017 que você deveria ter ouvido


Antes de mais nada, gostaria de dizer que a postagem que abriu essa temporada de melhores do ano aqui no Ground Zero alcançou mais pessoas do que eu esperava. Aparentemente, posts sobre música fazem bastante sucesso por aqui (algo que eu já deveria ter notado com o Balanço Musical no decorrer do ano), então fiquem atentos, pois pretendo dar ainda mais espaço para o assunto no blog em 2018.

E depois de conferir 5 álbuns do primeiro semestre de 2017 que você deveria ter ouvido, agora é hora de ver outras 5 novidades que a segunda metade do ano nos trouxe. Se você ainda não viu o texto, leia-o e entenda exatamente o que está acontecendo aqui. E se você já leu, melhor ainda, assim podemos pular todas as introduções e ir direto para as escolhas! Confesso que tive menos opções para montar esta postagem, mas não pelos últimos seis meses terem sido mais fracos que os anteriores, e sim porque a maior parte dos lançamentos que ouvi no período acabaram indo parar no Top do ano. Pois é.

Confira, então, quais são esses 5 álbuns do segundo semestre de 2017 que você deveria ter ouvido:

BECK - "COLORS"


Um dos principais nomes do Rock Alternativo dos anos 1990 e 2000 resolveu mudar um pouco de ares neste ano. Colors é um trabalho completamente diferente de tudo o que Beck já havia feito, abraçando o pop dançante de uma forma muito competente e criativa que resulta em um registro prazeroso, divertido e repleto de potenciais hits, algo que já é uma realidade para a faixa Dreams, lançada em 2015 e que veio a se tornar parte da trilha sonora de FIFA 16.

FOO FIGHTERS - "CONCRETE AND GOLD"


A expectativa sempre é alta quando se trata do Foo Fighters, uma das principais bandas da atualidade, e Concrete and Gold consegue corresponder aos anseios dos fãs. Embora tenha alguns momentos melhores do que outros, é um disco honesto, direto e repleto de energia, tendo uma boa quantia de músicas agradáveis de se ouvir, desde mais agressivas como Run a outras cadenciadas como Sunday Rain (que conta com a participação de Paul McCartney na bateria). Não é o melhor trabalho do grupo (Wasting Light segue incomparável), mas tem qualidade o suficiente para merecer destaque.

HONEYMOON DISEASE - "PART HUMAN, MOSTLY BEAST"


Praticamente desconhecida, essa banda sueca é mais uma das que segue o movimento de ressurreição do Hard Rock setentista. Part Human, Mostly Beast é apenas seu segundo trabalho, mas o grupo se diferencia pela qualidade de seu som, tendo identidade e muita qualidade por parte de seus membros. Um CD divertido e bom de se ouvir, recomendado para quem procura por novos talentos que tenham uma sonoridade mais voltada para os clássicos do estilo.

 THE KILLERS - "WONDERFUL WONDERFUL"


Após 5 anos desde o lançamento de Battleborn, o grupo encabeçado por Brandon Flowers retorna com um álbum diferente de seus quatro antecessores, apostando em um som mais oitentista em detrimento do Indie Rock que fez sua fama. Mas Wonderful Wonderful é muito gostoso de se ouvir, tendo até seus momentos mais intimistas mesclados com outros mais dançantes e resultando em mais um sólido registro do Killers.

VANDENBERG'S MOONKINGS - "MK II"


Já tendo aparecido na postagem que fiz em 2014, o Vandenberg's Moonkings retorna à lista prévia ao Top do ano com mais um competente disco. MK II segue a linha da estreia da banda mais uma vez oferece um Hard Rock de qualidade, algo já esperado de qualquer coisa vinda do guitarrista Adrian Vandenberg, ex-Whitesnake e cabeça o projeito, estando ainda mais afiado e oferecendo diversas faixas envolventes.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

A Liga da Justiça merecia mais.


Há três semanas, estava saindo empolgado da sessão da pré-estreia de Liga da Justiça e prestes a postar aquela que veio a ser a primeira resenha mundial do longa (acho que nunca vou parar de me gabar sobre isso). A emoção de ver os principais medalhões da DC em tela era grande, e o recente sucesso de Mulher-Maravilha no meio deste ano me fez crer ainda mais que as adaptações da editora vinham trilhando o caminho certo.

Após todos esses dias e tendo-o visto novamente na segunda-feira seguinte a seu lançamento, minha opinião pouco mudou: ainda o considero um bom filme, muito graças às representações de seus heróis e suas interações em tela, mas também por mostrar um Superman como todos gostaríamos de ter visto desde O Homem de Aço, por apresentar uma história simples e direta, sem inserções desnecessárias que só serviriam para inchá-la, pelo visual bacana dos Parademônios e pelas breves aparições de personagens como o Comissário Gordon, Mera, as Amazonas e um Lanterna Verde ainda não identificado. Por outro lado, também reconheço suas falhas (muitas das quais já havia notado em minha primeira ida ao cinema): tudo relacionado ao vilão Lobo das Estepes, seja seu visual ou suas motivações, a desastrosa remoção digital do bigode de Henry Cavill, os fraquíssimos efeitos de computação gráfica do terceiro ato do longa, a extrema simplificação do roteiro ao ponto de deixá-lo raso, além de seus furos ou conexões mal estabelecidas, e a trilha sonora abaixo do esperado, mesmo com o resgate de temas clássicos.

Mas independente de considerações e opiniões sobre o resultado final, o fato é que Liga da Justiça hoje deixa um gosto amargo na boca dos fãs. O principal supergrupo da DC merecia mais. Mais do que esse filme apresentou. Mais do que apenas 41% de aprovação no Rotten Tomatoes, nota 7,2 do público (que pode vir a cair a qualquer momento) e média 5,3 da crítica. Mais do que a provável menor arrecadação entre todos os filmes da franquia. E mais do que cortes, alterações de última hora e um mar de conflitos internos, conforme foi revelado recentemente.

OK, o longa é bom. Só que os maiores heróis de todos os tempos são dignos de algo muito além de apenas "bom". A adaptação da equipe para os cinemas deveria deixar todos embasbacados, em êxtase, provar-se um grande ponto de virada para o gênero, mudar a forma como filmes de super-heróis são vistos e feitos. Algo que, no mínimo, batesse de frente com o primeiro Vingadores (que infelizmente ainda segue sendo o filme definitivo de supergrupo) e mostrasse que o Universo Estendido da DC ajustou seus rumos e veio para ficar. Não aconteceu, Liga vem cada vez mais se mostrando um fracasso retumbante de crítica e público, colocando em risco ainda boa parte dos planos que o estúdio possui para esses personagens. E a sina de Batman vs Superman e Esquadrão Suicida se repete mais uma vez.

O mais frustrante, porém, é tomar conhecimento de todos os vazamentos sobre os bastidores da produção (os quais foram relatados com maestria pelo Terra Zero aqui, aqui e aqui). Cortes de momentos essenciais, alterações drásticas em cenas, brigas com Zack Snyder (que foi retirado a força) e Joss Whedon, interferências dos executivos do estúdio e decisões mesquinhas da diretoria afetaram muito do que vimos em tela, e o resultado poderia ter sido bem mais memorável se muitos pontos do plano original tivessem sido mantidos. Ver esse tipo de notícia só faz perceber quanto do potencial de Liga da Justiça foi jogado fora devido ao péssimo gerenciamento da Warner, que aparenta estar cada vez mais perdida em relação a suas propriedades intelectuais.

O fato é que meu texto Às vezes tenho vontade de desistir dos filmes da DC segue atual, mesmo após quase um ano. Apesar do sucesso de Mulher-Maravilha, todo o resto parece persistir. Geoff Johns aparentemente não conseguiu impor sua voz dentro do estúdio (apesar de algumas mudanças de tonalidade que claramente são resultado de sua visão) e os longas seguem à mercê da alta cúpula da companhia, ao ponto de cometerem a canalhice de usar a tragédia familiar de Zack Snyder como desculpa de afastá-lo em definitivo do projeto. A interferência também foi suficiente para irritar Joss Whedon, que mal chegou e já tem uma péssima relação com seus superiores. A situação é tão terrível que seria difícil até mesmo para o Superman, símbolo máximo de otimismo e esperança, enxergar alguma luz no fim do túnel para esse Universo, com todas essas confusões e resultados medíocres.

Enquanto isso, a concorrência está lá, faturando mais com Thor: Ragnarok, terceiro filme de um de seus heróis menos populares, já havendo emplacado outros dois sucessos em 2017 e se preparando para emplacar outros três no próximo ano, tendo inclusive lançado o avassalador trailer de um deles nos últimos dias, mostrando a tão esperada reunião de praticamente todos os seus personagens contra a ameaça definitiva de seu Universo. A gente tem mais é que aplaudir a Marvel mesmo e reconhecer sua superioridade nos cinemas, muito graças a seu impecável planejamento.

Seja qual for sua opinião sobre Liga da Justiça, o fato é que ele deveria não apenas ter sido melhor, como também ter tido bastidores melhores, uma receptividade melhor, uma arrecadação melhor. A Liga da Justiça merece mais. Bem mais. O jeito agora é olhar para o futuro, torcer para que Mulher-Maravilha não tenha sido apenas um ponto fora da curva e esperar que o filme do Aquaman atenda nossas expectativas e mostre que nem tudo está perdido para o Universo Estendido DC, especialmente em termos de rumo e identidade.

Mas, p*** que pariu, quando a gente depende do filme do AQUAMAN para qualquer coisa é porque f**eu mesmo...

AJUDE-NOS, AQUAMOMOA, VOCÊ É NOSSA ÚNICA ESPERANÇA!!!

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

5 álbuns do primeiro semestre de 2017 que você deveria ter ouvido


O fim de 2017 chegou, e com ele inicia-se a temporada de listas de melhores do ano entre sites especializados, especialmente os de música. Boa parte dos principais veículos musicais do mundo já soltou suas escolhas, alternando entre grandes hits e álbuns que se destacaram por sua qualidade, mas não comercialmente. É, na humilde opinião deste que vos escreve, uma das melhores épocas para se ouvir música, dar chance para registros que acabaram passando despercebidos e conhecer novos artistas que podem vir a se tornarem as próximas sensações internacionais em um futuro próximo.

Postagens de melhores do ano já são tradicionais aqui no Ground Zero, e a lista definitiva deve sair em 18/12 (então marque em sua agenda). Em 2017, porém, eu ouvi bem mais material do que nas vezes anteriores, o suficiente para deixar de fora da seleção final e não torná-la muito extensa. Pensando nisso, resgatando uma ideia que tive lá em 2014 e cumprindo uma promessa que fiz no Balanço Musical de junho, decidi pegar 10 desses álbuns, dividi-los entre os lançamentos do primeiro e do segundo semestre e fazer listas em ordem alfabética de artistas, sem critérios de classificação.

Antes de mais nada, peço para que leiam minha postagem sobre o mais recente disco do Mastodon, Emperor of Sand, que iria entrar entre os escolhidos aqui, mas achei melhor tirá-lo e dar espaço para outro álbum do qual ainda não falei no blog, ao invés de me repetir sobre um que já tem uma resenha própria (a única de 2017, infelizmente, algo que pretendo melhorar para o vindouro ano). E quanto às escolhas, o primeiro semestre do ano foi bem prolífico e variado, algo que se comprovou na hora de selecionar os registros, devendo agradar bastante gente.

Confira, então, quais são os 5 álbuns da primeira metade de 2017 que você deveria ter ouvido:

GORILLAZ - "HUMANZ"


O aguardado retorno do Gorillaz se deu em 2017, em um álbum repleto de colaborações com artistas como De La Soul, Peven Everett, Grace Jones, Kali Uchis, do ator Ben Mendelsohn e até do antigo desafeto de Damon Albarn, Noel Gallagher. Com hits certeiros mesclados a músicas menos acessíveis, Humanz soa como uma grande festa, sendo uma audição divertida e pouco convencional, como basicamente todos os trabalhos do projeto.

LORDE - "MELODRAMA"


Há algo de fascinante nos trabalhos da cantora neozelandesa Lorde que captura e envolve o ouvinte, ao ponto de ter até cativado o saudoso David Bowie. Talvez uma espécie de beleza mórbida, ou um registro intimista, trabalhados em um formato acessível de música pop. Seja o que for, está potencializado ao máximo em Melodrama, um dos mais agradáveis registros do ano que veio para cravar a artistas como uma das melhores da atualidade.

PARAMORE - "AFTER LAUGHTER"


O som do Paramore já vem mostrando uma transformação há algum tempo, deixando de lado aquela rebeldia adolescente que lançou o grupo e trilhando caminhos mais maduros, aliados a um ritmo mais dançante. Essa metamorfose se completou com o lançamento de After Laughter, álbum que segue uma tendência observada em certos artistas nos últimos anos e resgata a sonoridade do pop oitentista e das bandas de New Wave, sendo muito divertido na maior parte do tempo, belo quando necessário e uma certeza de sucesso tanto para hoje ou para o caso de ter sido lançado 30 anos atrás.

RISE AGAINST - "WOLVES"


O quarteto estadunidense ganhou destaque nos últimos anos devido a seu Punk Rock recheado de críticas sociais,  momento em que seu país passou por uma grave crise e esteve diretamente envolvido nas guerras do Afeganistão e do Iraque. E embora Wolves não seja o mais forte dos trabalhos do grupo, ele é relevante o suficiente se considerarmos a situação em que o mundo se encontra hoje. E, como bônus, ainda mostra o Rise Against tentando algumas coisas diferentes e flertando com o Ska e o Rock Melódico.

ROYAL BLOOD - "HOW DID WE GET SO DARK?"


Um dos maiores fenômenos dos últimos cinco anos, a dupla inglesa surpreendeu o mundo com o lançamento de sua estreia em 2014, seja por sua inegável qualidade ou por sua combinação agressiva e pouco usual de baixo e bateria. Seu segundo disco, How Did We Get So Dark?, mostra o Royal Blood mais a vontade, com uma sonoridade mais acessível mas que ainda esbanja qualidade, deixando claro ser um dos nomes a se observar no futuro.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

BALANÇO MUSICAL - Novembro de 2017


Olá! Seja bem-vindo ao meu projeto Balanço Musical, uma coluna mensal na qual falo sobre música, o que escutei no mês que se passou, o porquê das escolhas, o que me influenciou nesses dias, e publico uma playlist com uma faixa referente a cada dia do período. O objetivo não é nada além de escrever um pouco mais sobre música no blog, apresentar algumas coisas diferentes e dar às pessoas a oportunidade de conhecer novos artistas e canções. As postagens são publicadas sempre no primeiro dia útil de cada mês, o que pode ou não coincidir com o dia 1º.

Novembro foi repleto de altos e baixos, algo que teve reflexo na parte musical da minha vida, como é possível observar pelas escolhas que fiz para a playlist do mês. A variação entre álbuns de sonoridade mais leve com outros repletos de peso e agressividade foi uma constante no período (para ser sincero, é uma alternância que costumo fazer normalmente, mas não nessa frequência), que também foi marcado por uma leve inconstância em minha habitualidade de ouvir música (nada no mesmo nível de julho, porém). Ainda assim, foram 735 scrobbles em meu last.fm, um número considerável que conseguiu (por pouco) ultrapassar setembro.

Três álbuns presentes na lista merecem um enorme destaque: Who Built The Moon? do Noel Gallagher's High Flying Birds, Psychotic Symphony do supergrupo Sons of Apollo, e Carry Fire do lendário Robert Plant. Cada um deles possui suas peculiaridades, com o primeiro sendo o trabalho mais distinto da carreira do frontman do grupo, o segundo esbanjando toda a técnica e qualidade dos músicos envolvidos no projeto, e o terceiro por ser uma ótima mescla das principais influências do vocalista ao longo de sua carreira, tendo todos sido lançados nos últimos dois meses e já figurando como certezas para minha lista de melhores de 2017 (breve...). Outras boas novidades do ano que ganharam lugar na playlist são os hards MK II, do Vandenberg's Moonkings, e Part Human, Mostly Beast, do Honeymoon's Disease, além do mais recente trabalho do Beck, um dos principais nomes do Rock alternativo que resolveu apostar em uma vertente mais dançante em Colors.

Outra importante influência foram as faixas presentes na trilha sonora de Liga da Justiça. Não as orquestradas, compostas por Danny Elfman (que, sinceramente, deixaram a desejar), mas as que marcaram passagens importantes do longa, como a versão de Everybody Knows pela Sigrid, Icky Thump do White Stripes e o cover da clássica Come Together por Gary Clark Jr., em parceria com Junkie XL (o único resquício da participação do compositor nas músicas do filme). E os demais dispensam comentários, seja por já serem figuras carimbadas por aqui, ou porque nomes como INXS, Jeff Beck, Placebo, The Clash, Frank Sinatra e The Smashing Pumpkins não necessitam introduções. Merece ressalva, porém, a presença de For Those About To Rock (We Salute You) do AC/DC na lista, como uma singela homenagem a Malcolm Young, que veio a falecer no último dia 18.

Confira abaixo a playlist de novembro de 2017:

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

O trailer de "Vingadores: Guerra Infinita" é o início do fim de uma era


Pode não parecer, mas 2018 marcará 10 anos desde o lançamento de Homem de Ferro, longa que surpreendeu a todos por cumprir tão bem o papel de dar vida a um personagem relativamente desconhecido nas telas e por resgatar a carreira de Robert Downey Jr. Consequentemente, fará 10 anos do início do Universo Cinematográfico Marvel, que deu seu primeiro passo com aquela cena pós-créditos do Nick Fury de Samuel L. Jackson falando para Tony Stark sobre a Iniciativa Vingadores, mostrando que os planos da empresa eram muito mais ousados do que o esperado.

De lá para cá, as coisas nunca mais foram as mesmas. Até o momento, já foram lançados 17 filmes dentro da franquia, com mais três agendados para o próximo ano e outros três confirmados para 2019. Entre divisores de águas (como Os Vingadores e o citado Homem de Ferro), obras mais fracas (O Incrível Hulk e os dois primeiros Thor), gratas surpresas (os dois Guardiões da Galáxia, Capitão América: O Soldado Invernal e Thor: Ragnarok) e tristes decepções (Homem de Ferro 3 e Capitão América: Guerra Civil), esse universo foi abraçado por crítica e público, graças a sua acessibilidade e seu famoso senso de humor (os principais ingredientes do que veio a ser conhecido por "fórmula Marvel"), e hoje soma quase 13,5 bilhões de dólares em bilheteria ao redor do mundo.

Tudo chega a um fim, porém. Com atores envelhecendo e cobrando cada vez mais caro por suas participações, a Marvel Studios se prepara para substituir seus principais rostos por novos personagens, encerrando a primeira etapa de seu longo planejamento com Vingadores 4, a ser lançado em 2019. E o aguardado trailer de Vingadores: Guerra Infinita, divulgado na última quarta-feira (29/11), já começou a ditar essa despedida, tendo um tom de conclusão (especialmente pela fala de Tony Stark logo ao início) e passando uma sensação de perigo e urgência para seus protagonistas pouco vista até então.

O terceiro instalamento do supergrupo aparenta de fato ser a culminação de todos os esforços da produtora, finalmente mostrando Thanos cumprindo seu objetivo de juntar todas as Joias do Infinito em sua Manopla para dominar o universo, enquanto todos os heróis que nos foram apresentados nos longas anteriores se reúnem para combater esta ameaça definitiva. Mas ver isso se concretizando põe todo o admirável trabalho da Marvel nos cinemas sob uma nova perspectiva, seja sobre os filmes e seus resultados, sobre a história que foi construída ou sobre os personagens que acompanhamos de perto ao longo desses quase 10 anos nas telas, e que agora estão prestes a passar a tocha para uma nova geração. Em um sentimento semelhante ao encerramento da saga Harry Potter, este é o fim de uma era, e o lançamento desse trailer de Vingadores: Guerra Infinita marca o início deste desfecho.

O Universo Cinematográfico Marvel como conhecemos está prestes a acabar. Você está preparado para isso?

O primeiro poster de "Vingadores: Guerra Infinita", apostando no básico.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Resenha de UM parágrafo sobre "LIGA DA JUSTIÇA"!


A DC dá um novo passo em torno da consolidação de seu Universo Expandido com Liga da Justiça, um filme leve e aventuresco que faz jus às principais histórias grandiosas e épicas do supergrupo. Apesar de um vilão esquecível e efeitos especiais que nem sempre estão em seu melhor, a equipe demonstra ter muita química em tela, com seus intérpretes muito a vontade em cena. Simples e divertido, tem suas leves escorregadas, mas entretém o suficiente e mostra que a Editora das Lendas está cada vez mais encontrando o tom certo para seus personagens no cinema.

TRAILER:

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

"Captain America" #695, por Mark Waid e Chris Samnee - O herói que merecemos e precisamos


"O mais forte protege o mais fraco." Essas palavras são repetidas algumas vezes no decorrer de Captain America #695, escrita por Mark Waid e coescrita/desenhada por Chris Samnee, a primeira edição da iniciativa Marvel Legacy, que visa resgatar o tom clássico das aventuras protagonizadas pelos personagens da editora. Esse também é o princípio básico dos super-heróis desde a criação do gênero em 1938, com o lançamento de Action Comics #1 e a chegada de Superman, "o campeão dos oprimidos". Um valor simples, porém poderoso e importante, parece ter sido esquecido por muitos, tanto no mundo real quanto nos quadrinhos. E isso inclui o próprio Steve Rogers, que havia se revelado um membro da Hydra no período pós-Guerras Secretas (2015), uma mudança gritante nos valores do personagem que revoltou muitos fãs, mas que perdurou até os eventos da recente saga Império Secreto, na qual o grupo de vilões nazistas tomou o mundo com a ajuda do personagem, até que, no fim, o "verdadeiro" Capitão América retornou, derrotou essas forças do mal e salvou o mundo, que voltou a seu status quo anterior.

A missão da equipe criativa, portanto, não era nada fácil. Mas essa primeira edição (de número #695, respeitando a numeração original desde 1941) deixou clara o quão acertada foi sua escolha para o título. O premiado time formado por Waid e Samnee, após o sucesso absoluto em suas passagens pelo Demolidor e a Viúva Negra, inicia sua nova empreitada de uma forma poderosa, emocionante e que transmite uma mensagem mais atual do que nunca, condizente com o posicionamento político da dupla e que ressalta a importância do personagem (sempre tido como um "homem fora de seu tempo") para os dias de hoje, especialmente à luz de eventos recentes como a infeliz passeata neo-nazista em Charlottesville, cidade da Virginia, EUA.

A trama da revista é simples: dez anos atrás, o Capitão América salvou uma cidadezinha do ataque de um grupo de supremacistas que se autointitula Rampart (algo como muralha ou parede) e agora, após ter se libertado da armadilha que o manteve longe de nossa realidade, ele retorna até o local a paisana para um festival em sua homenagem. Dinâmica e repleta de ação, graças ao sempre belo traço de Chris Samnee, a história também tem espaço para o diálogo, onde reside sua maior força. Passagens inspiradoras nos fazem lembrar da relevância do herói e tudo o que ele significa, assim como do porquê ele fez tanta falta nesses últimos anos em que esteve mal-utilizado.

O que faz o Capitão América ser tão admirável, na voz dos próprios cidadãos.

Desde suas primeiras páginas, com o Capitão realizando o heroico ato de defender as crianças ao mesmo tempo que as ensina seus princípios, é possível sentir a presença e a força deste ícone, seja através de suas palavras ou de suas atitudes altruístas. O momento em que os próprios participantes do festival vão ao palco e dizem o que os faz admirar o herói também é emblemático, exemplificando seu impacto na vida do cidadão médio e como ele pode ser uma inspiração (tanto dentro quanto fora do Universo Marvel). E quanto as páginas finais... Todo o discurso de Steve sobre como cada um pode fazer sua parte junto com toda a celebração de sua figura é simplesmente lindo, além de uma aula de civilidade. Impossível não se comover.

Há quem diga que a história da humanidade é cíclica. Concorde ou discorde, esse paradigma parece também servir para os super-heróis: no que hoje parece um prenúncio para os tempos nebulosos que estavam por vir, a DC aproximou o Superman de sua abordagem mais clássica no último ano, fazendo-o ser, mais uma vez, o maior de todos. Agora foi a vez da Marvel de trazer seu principal escoteiro a suas origens, sendo o grande exemplo de heroísmo e cidadania em seu universo, e agora dizendo algo que há muito precisava ser dito, especialmente após os nefastos eventos recentes envolvendo extremistas, sejam eles na ficção ou na vida real. E embora Mark Waid tenha escrito que ninguém deve usar gibis como base moral no posfácio da edição, talvez este seja ao menos um bom ponto de partida, com seu Capitão América (apesar de ainda muito no começo) sendo aquele que merecemos e precisamos no momento.

"Bem-vindo de volta", como disse a garota ao fim da revista. E obrigado, Mark Waid e Chris Samnee, por serem capazes de trazer alguma luz a uma época tão sombria.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

BALANÇO MUSICAL - Outubro de 2017


Olá! Seja bem-vindo ao meu projeto Balanço Musical, uma coluna mensal na qual falo sobre música, o que escutei no mês que se passou, o porquê das escolhas, o que me influenciou nesses dias, e publico uma playlist com uma faixa referente a cada dia do período. O objetivo não é nada além de escrever um pouco mais sobre música no blog, apresentar algumas coisas diferentes e dar às pessoas a oportunidade de conhecer novos artistas e canções. As postagens são publicadas sempre no primeiro dia útil de cada mês, o que pode ou não coincidir com o dia 1º.

Fiquei impressionado com o resultado final de outubro: foi um mês em que ouvi música de forma despretensiosa e sem grandes exageros, mas que (talvez justamente devido a isso) se encerrou figurando no segundo lugar do ranking de scrobbles do meu last.fm, com 851 execuções, duas a mais que em agosto. 222 artistas e 488 faixas diferentes passaram pelos meus ouvidos durante os últimos 31 dias, período este embalado por velhos conhecidos, gratas descobertas e alguns lançamentos essenciais.

Praticamente iniciado com a triste notícia da morte de Tom Petty (e por isso Running Down a Dream), o mês teve um grande predomínio de The Wings, The Beatles e Paul McCartney (muito graças a seu show no último dia 15 e toda a preparação que tive para ficar afiado quanto ao possível setlist) e das trilhas sonoras de Blade Runner e sua recente sequência, Blade Runner 2049. Mas também foi quando tive contato com três dos melhores lançamentos de 2017: As You Were do ex-Oasis Liam Gallagher, Amber Galactic do The Night Flight Orchestra, e The Sin and The Sentence do Trivium. Entra nessa equação ainda o recente EP do Mastodon, Cold Dark Place, tão bom quanto (ou talvez até melhor que) o último registro completo de inéditas do quarteto.

Cabe destaque também para a presença de Blind Guardian e Oasis na lista, com duas músicas que se encontravam fora do catálogo do Spotify há tempos, bem como para as pontuadas inclusões de The Spirit Carries On do Dream Theater, Sympathy For The Devil dos Rolling Stones, Grandmaster Jam Session da trilha sonora de Thor: Ragnarok, e Halloween do Helloween em datas específicas (as duas primeiras sendo, respectivamente, o aniversário de Metropolis Pt. 2: Scenes From a Memory e o lançamento da segunda temporada de Stranger Things - estava em uma playlist da série -, enquanto as últimas são autoexplicativas). E ainda houve espaço para alguns velhos nomes do Balanço Musical, como Stone Sour, Iced Earth e Tears For Fears, bem como para algumas faixas que apareceram em meu Descobertas da Semana, muito embora eu já as conhecesse.

Confira a playlist de outubro de 2017:

domingo, 29 de outubro de 2017

Resenha de UM parágrafo sobre "THOR: RAGNAROK!"


No centenário de Jack Kirby, a Marvel Studios lança uma das produções que mais faz uso de sua identidade visual ímpar. Thor: Ragnarok é uma epopeia espaço-mitológica cheia de personalidade, seja em sua bela e colorida fotografia, em suas cenas de ação estilizadas ou no senso de humor característico do diretor Taika Waititi, que traz a tona o melhor dos atores, especialmente de Chris Hemsworth. Isso não ofusca, porém, os momentos mais dramáticos e épicos que, aliados à trilha sonora de Mark Mothersbaugh (líder do clássico grupo DEVO), transformam o longa naquilo em que ele se propôs desde o início: uma grande aventura repleta de escapismo, sendo provavelmente o filme de super-herói mais divertido do ano.

TRAILER:

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

"Os Novos Mutantes", ou como a Fox está (de novo) revitalizando o gênero de super-heróis


Há pouco mais de 17 anos, um dos mais importantes filmes de super-heróis começava a chegar às salas de cinema de todo mundo: X-Men: O Filme. Lançado na segunda metade de 2000, o longa marcava o início de uma nova era para um gênero que vinha combalido após ser acometido com repetidas tentativas falhas de adaptações, como Superman III (1983), Supergirl (1984), Superman IV: Em Busca da Paz (1987), Batman Eternamente (1995) e Batman & Robin (1997), e isso apenas citando as grandes produções hollywoodianas. A primeira aventura dos mutantes da Marvel sob a batuta da Fox e a direção de Bryan Singer mostrou que era possível trabalhar com personagens dos quadrinhos de uma forma mais madura, sóbria (ainda que isso os tenha custado as cores de seus uniformes) e ainda assim acessível, lidando com temas pertinentes e se afastando do mero escapismo. Apesar de não ter envelhecido tão bem quanto o esperado, é injusto não reconhecer sua influência para o que veio em seguida (Homem-Aranha do Sam Raimi, Batman do Christopher Nolan e todo o Universo Cinematográfico Marvel).

Após a boa recepção com esse primeiro X-Men e sua sequência, X-Men 2, o estúdio falhou em replicar sua fórmula de sucesso com outros heróis, sendo responsável pelas esquecíveis adaptações do Demolidor, Elektra, Quarteto Fantástico e Motoqueiro Fantasma. Mesmo sua franquia de maior sucesso acabou saindo fora de controle, com X-Men 3: O Confronto Final tendo dividido os fãs e o spin-off X-Men Origens: Wolverine sendo considerado abaixo do esperado. Foi só através de X-Men: Primeira Classe que a Fox conseguiu se reencontrar, tendo lançado, na sequência, o bom Wolverine: Imortal e o ótimo X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (embora tenham cometido o tenebroso Quarteto Fantástico de 2015 pouco depois).

Esse período de estabilidade foi essencial para que a produtora pudesse tomar coragem para investir em um projeto da forma que ele deveria ser: Deadpool (muito, claro, graças à insistência de Ryan Reynolds e da reação dos fãs após tomarem conhecimento do curta-teste da produção). Um dos grandes sucessos de crítica e público, o longa em muito se beneficiou de se afastar do filme padrão de super-herói (apesar de ainda manter alguns dos clichês do gênero) e abraçar sua vocação como uma comédia adulta, fazendo bom uso de sua classificação para maiores de 16 anos e apresentando uma boa dose de violência, palavrões e piadas sujas. E essa adaptação, por sua vez, fomentou o caminho para um dos filmes mais aclamados de 2017: Logan, que também foi feito para o público adulto, abraça a violência e o linguajar hostil, mas que é, em sua essência, um grandioso faroeste moderno, novamente fugindo do básico e passando ainda por temas como legado, família e paternidade.

Seguindo sua própria tendência, a Fox prepara para o próximo ano o lançamento de Os Novos Mutantes, derivado dos X-Men focado em estudantes do Instituto Xavier que não tiveram espaço na equipe principal. A aposta, dessa vez, é investir no terror, resgatando alguns elementos menos explorados das primeiras HQs do grupo e se aprofundando neles, deixando, novamente, os ares super-heroicos de lado. Com uma prévia bastante promissora, pode ser a prova cabal da revitalização de um gênero que, para muitos, já começava a dar sinais de desgaste caso dê certo, e aponte a direção a ser seguida em adaptações futuras: a de mesclar outros estilos a suas histórias e aproveitar ao máximo o potencial de seus personagens. Curioso, porém, isso vir dos mesmos que deram o pontapé inicial a toda uma tendência em 2000, e que agora se vem com a oportunidade fazer história mais uma vez.

Você pode conferir o trailer de Os Novos Mutantes abaixo:

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

"A Poesia de BLADE RUNNER 2049" (traduzido do "Birth. Movies. Death.")

"Às vezes, para amar alguém, você precisa se tornar um estranho."

Aviso: esse texto contém diversos spoilers de Blade Runner 2049.

"...você não pode refutar a existência de experiências conscientes provando que elas são apenas aparências disfarçando a realidade oculta porque, se tratando de consciência, a existência da aparência é a realidade." - John Searle, The Construction of Social Reality

"Mas no caso / Da minha fonte branca, o que ela substituiu / Perceptivelmente era algo que, eu achei, / Só poderia ser compreendido por seja lá quem residisse / No estranho mundo onde eu era mero devaneio." - Vladimir Nabokov, Fogo Pálido



"...um nada escuro como sangue começou a girar / Um sistema de células interligadas dentro de / Células interligadas dentro de células interligadas / Dentro de um tronco. E morbidamente distinta / Contrastando com a escuridão, uma alta fonte branca funcionava." Estes trechos do teste de parâmetro pós-traumático de Blade Runner 2049 foram tirados da obra Fogo Pálido, do autor Vladimir Nabokov. No livro, o poeta fictício John Shade vê uma fonte branca e alta durante uma experiência de quase morte - a "presença [da imagem] sempre iria / Consolar [a ele] formidavelmente." Posteriormente, Shade leria, em uma revista, a respeito de uma mulher que quase morreu, visitou "o Lugar Atrás do Véu" e também viu uma "fonte branca e alta" por lá. O protagonista encontra essa mulher para compartilhar sua visão com ela, porém descobre que tudo não passou de um erro de digitação - não era uma "fonte", mas sim uma "montanha" que ela visualizou. Entretanto, nada muda com essa informação: a imagem de uma fonte branca e alta tinha significado não por conta de algum sentido objetivo, não porque era prova empírica de vida após a morte, mas devido à importância que Shade atribuiu a ela. O acadêmico fictício Dr. Charles Kinbote, que faz anotações no poema de John Shade, escreve: "Todo nós somos, de certo modo, poetas."

E Blade Runner 2049, do diretor Denis Villeneuve, é um poema. O longa é um neo-noir sobre o mistério do ser, empatia, conexão, como definimos o que é real, independente de isso importar ou não. E também é a história de amor entre um replicante e uma mulher digital. O roteirista Hampton Fancher explicou que "[K] é um bloco de notas. Ele segue as regras. Ele é uma máquina, de certo modo. Mas a ideia era essa: um bloco de notas que se torna um poema através de suas experiências e suas provações e amor. E o mesmo acontece com a mulher digital." Enquanto aposentava um replicante de modelo antigo, o blade runner K, interpretado por Ryan Gosling, descobre o esqueleto de uma replicante que pariu uma criança: um milagre. Sua superior, a Tenente Joshi (Robin Wright), ordena que ele encontre e mate essa criança. Mas o mistério se complica quando o próprio K começa a achar que pode ser esse milagroso filho de Rachael (Sean Young) e Rick Deckard (Harrison Ford). Ele encontra Deckard vivendo nas ruínas de um cassino, esperando encontrar respostas para suas questões, e conhece seu cachorro, que tem peculiar apreço por uísque. "Ele é real?", pergunta o policial, e o ex-blade runner responde: "Não sei. Pergunte a ele." Uma piada, mas também um paradigma que traz luz a Blade Runner 2049.

Ao contrário da ambiguidade da identidade de Deckard, K sabe que é um replicante. As pessoas que habitam seu mundo são sombras. O DPLA, a corporação de Niander Wallace e a rebelião dos replicantes são três forças desumanizadoras em conflito: burocracia, capitalismo, guerra. A Tenente Joshi acredita em uma barreira entre a humanidade e os replicantes, e a preservação da ordem a qualquer custo. Ela quer a criança milagrosa morta, apagada. A rebelião dos replicantes deseja a criança viva, mas Freysa, interpretada por Hiam Abbass, quer que Deckard seja morto, preservando assim sua identidade. E o "industrialista" Niander Wallace (Jared Leto) quer esse filho para dissecá-lo e descobrir o segredo de Tyrell para a criação de replicantes capazes de reproduzir. Ele inveja a capacidade natural das mulheres de criar. Ele é um Dr. Frankenstein sem visão figurada ou literal. Mais do que um cientista ou um visionário, ele é um capitalista objetificando seres vivos, um colonizador que deseja que os humanos conquistem o espaço com escravos replicantes. Wallace estripa uma replicante recém-criada por ela ser incapaz de gestar. "Um pasto seco. Espaço vazio entre as estrelas", ele explica, reduzindo seu "anjo" a sua função reprodutiva.

O mundo de Blade Runner 2049 é assombrado pelas intenções de Niander Wallace, pela desumanização, pelos fantasmas de mulheres digitais. É um lugar onde um orfanato se encontra no lixão da cidade, com suas crianças reduzidas a escravos. Também é um inferno distópico para as mulheres, mas que prevê um futuro pertencente a elas. A Dra. Ana Stelline (Carla Juri), a criança milagrosa, é uma mulher, uma revelação que subverte as expectativas da história - e de gênero. E o milagre da personagem não está apenas nos detalhes de seu nascimento, mas também em sua empatia. Em seu laboratório, ela vive em uma redoma de vidro, fabricando memórias para replicantes, criando verdadeiro deleite para sua espécie, sendo cada memória um ato de amor, uma forma de arte. É ilegal implantar memórias reais, mas Stelline faz isso mesmo assim, compartilhando suas próprias lembranças felizes com eles. Replicantes vivem vidas tão duras, como a garota explica para K, mas ao menos ela pode dar a eles boas memórias.

A Dra. Stelline talvez seja a única personagem ímpar de Blade Runner 2049. Ninguém brilha como o hipnotizante Roy Batty de Rutger Hauer, e nem deveria. Batty era o herói byroniano do Blade Runner original, tal qual Satanás no poema Paraíso Perdido - e, ao salvar a vida de Rick Deckard, ele se torna uma figura como a de Cristo. Mas K é como o Joseph K de Franz Kafka (no romance O Processo), caminhando pela alienação, desorientação, ansiedade e banalidade de um universo absurdo, burocrático e sufocante. K é um replicante desenvolvido para obedecer, "feliz em limpar merda porque nunca viu um milagre", mas que muda de "algo" para "alguém" quando passa a acreditar que ele é o milagre. K começa a querer ter um nome, uma mãe, e espera que tenha sido concebido ao invés de criado, pois talvez assim ele tenha uma alma. Joshi então diz: "Você vem se dando bem sem uma."

O roteirista Michael Green explica que Blade Runner 2049 trata da "aspiração dos personagens em atingir algo maior". Assim como John Shade, ao descobrir que sua visão de quase morte não era compartilhada, K percebe que a lembrança do cavalinho de madeira não pertence a ele afinal. Isso significa que ele não é o filho de Rachael, que ele não é um milagre e, no fim, não é especial, mas isso não importa. No momento em que o personagem pensa que é algo a mais e deseja ser algo a mais, ele se torna algo a mais. Sua percepção é a realidade. E isso acaba reprogramando-o.

A respeito da companheira digital Joi (Ana de Armas), Green diz: "já que somos definidos pelo que amamos, o que [K] amava precisava de uma história também." Para o mundo, o protagonista é apenas um "pele branca." Para Joi, porém, ele é um poema. Ela chama seu DNA de "o alfabeto de você." Ela diz a ele: "Eu sempre soube que você era especial." Se os replicantes são considerados espécies secundárias, essas mulheres digitais são terciárias, talvez até mais rebaixadas. A profissional do sexo Mariette (Mackenzie Davis) diz a ela: "Eu estive dentro de você. Não há muito mais ali quanto você imagina."

O comentário de Mariette reflete o desdém que o mundo tem por inteligências artificiais como Joi, mas também revela que, tal qual K, ela acreditar ser mais. Alguns podem duvidar de sua senciência, mas ela ama o fato de ter ganho o emanador, o presente que a permite se deslocar para além do apartamento. Ela sente o prazer de ver gotas de chuva em sua pele digital. É possível perceber que ela fica verdadeiramente maravilhada ao olhar para fora da janela do carro de K, observando a cidade e os céus pela primeira vez, uma reação que não é relacionada a seu parceiro. Contratar Mariette para que eles pudessem ter um momento de intimidade foi sua ideia. "Eu quero ser real para você", ela diz. E ele responde: "Você é real para mim." E ela arrisca tudo por ele ao pedir que a delete do painel de controle do apartamento, de modo que ninguém consiga usar sua memórias para encontrá-lo. Ela existirá apenas no emanador, e se algo acontecer a ele, conforme K explica, ela desaparecerá para sempre. "Sim, como uma garota de verdade", responde. A morte de Joi funciona como uma espécie de teste de Rorschach ou até mesmo um Voight-Kampff para a audiência, testando nossa resposta sobre ela ser um ser com sentimentos, se sentiremos empatia, pesar. Assim como no paradigma do cachorro de Deckard, se Joi perceber que ela é, de fato, "uma garota de verdade", que ela possui um "eu", que ama K, que seu sofrimento, seu espanto e seu amor são reais para si, então ela é um ser real com consciência, tal real quanto um replicante, um cão ou um humano.

O amor de K por Joi faz um paralelo com o de Deckard por Rachael. Luv (Sylvia Hoeks), a replicante capanga de Niander Wallace, chama Rachael de "insignificante", mas Deckard discorda. Quando Wallace oferece a ele uma replicante clone de sua amada em troca de seu filho, o ex-blade runner recusa a oferta. Ela não é a mesma coisa. "Eu sei o que é real", ele diz ao industrialista. Ela era especial, marcante, insubstituível porque Deckard a amava. K sente a mesma falta de conexão na cena seguinte: ele encontra uma propaganda gigante de outra Joi. Ela se parece com Joi, chama-o de "um belo Joe", assim como Joi fez, mas não é a mesma coisa para ele também. Nesse momento, talvez K tenha questionado se sua Joi de fato o amou em algum momento. Mas talvez isso não importe, já que o amor que ele sentiu foi real. Essa Joi não era a mesma que a sua Joi. E é nesse momento que K decide ir atrás de Deckard - não para matá-lo, como Freysa havia ordenado, mas para ajudá-lo a conhecer sua filha.

Freysa diz ao protagonista: "Morrer pela causa certa é a coisa mais humana que podemos fazer." Para ela, a "causa certa" é a guerra contra a humanidade. Para K e Joi, porém, a causa certa é o amor. Joi põe sua existência em risco e morre tentando proteger K. Ele, por sua vez, morre por amor, mas não um que ele sinta - é pelo amor de um pai e uma filha, praticamente estranhos para ele. Ele sabe que não é o escolhido, mas ajuda Deckard a conhecer Stelline mesmo assim. Como um suave eco da cena da morte de Roy Batty, ele morre sozinho, mas sem um monólogo ou a atenção dos espectadores. Apenas o prazer de sentir a neve em sua pele uma última vez. No laboratório, neve digital cai dentro da redoma de Stelline, e seu fascínio com essa falsa experiência é tão real quanto o de K. E, apesar de não ser especial da mesma maneira que a filha milagrosa, suas ações altruístas e sua experiência da neve compartilhada com ela tornam esse momento sacrossanto.

Em sua busca por Deckard, K se viu nas ruínas de uma cidade sufocada por uma névoa amarela radioativa. Uma abelha pousa em sua mão. Ele segue em frente e encontra um apiário, e deixa as abelhas cobrirem sua mão. Elas são um reflexo dos replicantes, o conceito de mente coletiva. Mas também representam esperança, conexão, "células interligadas". Uma abelha é um ser tão pequeno, aparentemente insignificante, mas com um enorme propósito: sustentar vida. "Você sonha em estar interligado?", pergunta o teste de parâmetro pós-traumático para K. Essa frase, essencialmente, questiona tanto se ele sonha em ser independente, quanto se ele sonha em sentir-se conectado com outros. No início de Blade Runner 2049, quando o protagonista está literalmente dormindo no volante, e nem considera o replicante de modelo antigo Sapper Moon como de sua própria espécie, ele passa no teste de parâmetro. Até final do longa, K rejeita a ideia de Niander Wallace de replicantes como meros "produtos", rejeita o comprometimento de Freysa com uma guerra entre as espécies, rejeita a noção de Joshi de que há uma "barreira" entre os seres. "Nós estamos apenas procurando pelo que é real", diz a Tenente a ele. E o que é real para K é o amor.

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Este texto é uma tradução integral do original em inglês, escrito por Priscilla Page e publicado no Birth. Movies. Death. Você pode conferi-lo aqui: http://birthmoviesdeath.com/2017/10/14/the-poetry-of-blade-runner-2049

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

"Star Wars: Os Últimos Jedi" e o trailer mais enganador dos últimos tempos (+ teorias!)


A internet parou durante a noite da última segunda-feira, 09/10, quando, após uma longa espera, foi lançado o segundo (e provavelmente último) trailer de Star Wars: Os Últimos Jedi. A prévia foi assistida tantas vezes que se tornou a 5ª mais vista em 24 horas no YouTube, tendo o vídeo sido conferido por mais de 120 milhões de pessoas nesse período de tempo. Toda essa comoção não foi a toa: com belo visual e trilha sonora digna dos mais grandiosos momentos da saga, o clipe apresentou ao público os Porgs, teve momentos épicos como o discurso de Poe Dameron e o confronto entre Finn e Capitã Phasma, e ainda deixou algumas coisas sugeridas sobre o filme, como uma possível morte de Leia por Kylo Ren ou até mesmo uma ida de Rey para o Lado Sombrio, momento que o encerrou de forma dramática.

Seria uma pena, porém, se quase nada disso viesse a ser parte da verdadeira trama do longa, com esse trailer não passando de uma tentativa de enganar o público.

Sim, é verdade. Seguindo a política da Lucasfilm de revelar o mínimo possível sobre a história de seus filmes e o esforço hercúleo do diretor Rian Johnson de tentar manter tudo em segredo, o mais recente vídeo de divulgação do próximo Star Wars contou também com uma edição boa o suficiente para unir diversos cortes diferentes e transformá-los em cenas convincentes, feitas justamente para os fãs surtarem com algumas das possibilidades mostradas por ele. Mas uma análise um pouco mais atenciosa e aprofundada deixa claro que nem tudo é o que parece ser e muito do mostrado não se dará na sequência que pudemos conferir.

Antes de mais nada, veja abaixo o trailer, caso você não tenha sido uma das mais de 120 milhões de pessoas que o conferiu em seu primeiro dia online (o que é muito improvável):



Com o trailer assistido, fica muito mais fácil visualizar o que foi dito anteriormente, e é nas seguintes cenas que fica mais claro o jogo de cortes feito na edição:

- A sequência de abertura do trailer: com diversas imagens de Kylo Ren e falas de Snoke sobre alguém de poder de poder bruto e incontrolável, tudo indica que ele está de fato se referindo a seu aprendiz no Lado Sombrio. Porém, há uma grande possibilidade de ele estar falando com Rey nesse momento, especialmente levando em consideração momentos seguintes da prévia, como o dito por Luke, também sobre um poder bruto, e a tortura da heroína pelo Líder Supremo da Primeira Ordem;

- A fala de Luke Skywalker após a demonstração da Força de Rey: OK, embora eu tenha usado essa cena para justificar o item anterior, há algo de estranho com ela. Enquanto o Jedi fala sobre seu medo da Força bruta, é possível perceber que ele está em um local diferente, que possui no chão um círculo com um símbolo. Isso levanta a hipótese de que ele talvez esteja de fato conversando com a Rey, mas não no exato momento seguinte à exibição dos poderes da garota;

- Kylo Ren x Leia: a cena que deixou muitos temerosos pela morte da Princesa mais querida das Galáxias está longe de ser o que as pessoas imaginaram, e isso porque 1) a nave em que Kylo Ren adentra com seu TIE não é a mesma em que Leia se encontra na imagem seguinte, e 2) é fisicamente impossível atingir a parte do cruzador em que o vilão travou sua mira pelo mesmo lugar que entrou, além de o ângulo também não ser o mesmo mostrado pelo visor de seu caça. É provável que o personagem vá atrás da agora General da Resistência, mas, mesmo com o falecimento de Carrie Fisher no último ano, é difícil acreditar na morte da heroína, ainda mais com Mark Hamill declarando recentemente que sua história só será encerrada no Episódio IX;

- Kylo Ren estende a mão para Rey: a mais perceptível de todas as edições, fica claro ao se observar o momento final do trailer que a cena se passa em dois momentos diferentes. Olhando com atenção o ambiente ao fundo dos personagens, é possível ver que Rey encontra-se em uma caverna (e provavelmente está conversando com Luke), enquanto Kylo Ren está em algum local cercado por chamas ou lava. Permanece a dúvida para quem ele está estendendo sua mão, porém.

A apresentação de novo material também foi suficiente para levantar novas suposições e teorias, algumas não tão evidentes no trailer. Confira elas a seguir:

- Haverá uma ruptura na relação de Kylo Ren e Snoke?: não é de hoje que os fãs especulam que o líder dos Cavaleiros de Ren não vá se tornar o vilão que imaginávamos que ele fosse ser, algo que ficou muito claro em O Despertar da Força com todo o esforço do personagem em manter-se no Lado Sombrio e não sucumbir ao Lado Luminoso da Força, uma grande quebra de paradigmas em toda essa relação. Com as sugestões do trailer de que Snoke irá atrás de Rey, ao ponto de torturá-la para que ela se torne sua aliada, e a não-morte de Leia, não é difícil imaginar que Kylo Ren deixe de ser um discípulo do Líder Supremo em algum momento do longa, talvez até passando a atuar com a Resistência.

- Há um espião dentro da Resistência?: logo nos primeiros momentos do trailer, é possível ver uma cena aérea em que Kylo Ren marcha, seguido de um batalhão de Stormtroopers, em um local que muito se assemelha a uma determinada área da Ilha do planeta Ahch-to, onde Luke Skywalker se encontra. E, conforme visto no Episódio VII, apenas os membros da Resistência tiveram acesso ao mapa contendo o paradeiro do Jedi perdido. Ou seja, alguém passou essa informação para a Primeira Ordem. O que especula-se no momento é que o espião seja ninguém menos que Poe Dameron, e muito por conta de sua posição no último poster divulgado, aparecendo "no lado dos malvados":


Por mais besta que essa suposição pareça ser, ela iria de encontro com essa possibilidade de alguém estar vazando informações da organização de Leia para seus inimigos. Além disso, nunca soubemos exatamente o que aconteceu durante o interrogatório de Dameron por Kylo Ren. E se ele estiver agindo sob influência do personagem? Seria uma alternativa interessante para demonstrar que um dos maiores heróis da Resistência, dono até mesmo de seu próprio título nos quadrinhos, não era um traidor durante todo esse tempo.

- Sério mesmo que teremos mais uma Estrela da Morte?: é, você não leu errado. Esse não é um rumor recente; tudo começou na última Force Friday, realizada no começo de setembro e que apresentou os primeiros brinquedos e colecionáveis relacionados a Os Últimos Jedi. Na caixa do TIE Silencer de Kylo Ren, porém, podemos claramente ver uma Estrela da Morte ao fundo:


Até aí tudo bem, poderia ser um simples erro, um fundo genérico relacionado à saga ou reaproveitamento de material promocional de Rogue One: Uma História Star Wars. Mas há algo de estranho nas cenas de batalha espacial no novo trailer. Reparem nesses prints tirados respectivamente dos tempos 1min39seg e 1min44seg:



Há algo ao fundo dessas imagens (confirmado pela inversão de cores que fiz), com formato esférico e uma textura que se assemelha à da arma de destruição em massa mais poderosa da Galáxia. Talvez eu esteja vendo coisas? Não descarto essa possibilidade. Mas se isso forem resquícios de uma Estrela da Morte removida digitalmente, meu Deus... Chega dessa ideia, por favor. Três vezes já foram mais do que suficiente.

Cada vez mais perguntas cercam a trama de Star Wars: Os Últimos Jedi e, apesar de elas não terem resposta no momento, Luke Skywalker já nos deu uma enorme dica nesse último trailer: "Isso não vai acontecer como você imagina". Enquanto isso, só resta aguardar até o dia 14 de dezembro.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

[RESENHA] "Blade Runner 2049" (2017)


O que é existir? O que nos define como humanos? O que nos diferencia e nos faz especial comparado aos demais seres vivos com quem compartilhamos o mundo? O que é real, se há de fato um real? Essas são algumas das perguntas fundamentais que tentamos desvendar desde os primórdios, através das ciências, artes e religiões. Essa incessante busca por respostas é sempre acompanhada pelo levantamento de novos questionamentos ao longo do tempo, e um dos mais recentes contribuidores, dentre tantos outros, é Philip K. Dick, autor de livros de ficção científica que desenvolveu histórias cercadas do fantástico, do tecnológico e do que parecia além de seu tempo, mas que se mostravam atemporais e mantiveram-se relevantes por suas reflexões acerca da humanidade, suas questões sobre o âmago do ser e as provocações acerca dos caminhos pelos quais rumamos.

Uma de suas principais obras foi adaptada para os cinemas em Blade Runner, de 1982. Com direção de Ridley Scott e roteiro de Hampton Fancher e David Peoples, o longa mostrava a caçada do ex-policial Rick Deckard (Harrison Ford) a quatro replicantes, robôs orgânicos com formas humanas e inteligência e força sobre-humanas que são proibidos na Terra, os quais buscavam estender suas vidas para além dos quatro anos que lhes foram programados. A trama neo-noir, porém, é apenas o fio condutor em um filme contemplativo, cadenciado, que trata sobre a vida, a existência, sobre a perda da humanidade para os avanços da sociedade em que vivemos, amores improváveis, a luta pela sobrevivência, o quão reais são nossas memórias e, é claro, se androides sonham com ovelhas elétricas. Crítico e reflexivo, com visual esplendoroso e uma trilha sonora que beira o indescritível, acabou não fazendo sucesso entre crítica e público à época de seu lançamento, mas foi revisitado ao longo dos anos, recebeu novas versões para se adequar a visão de seu diretor (sendo a definitiva o Final Cut de 2007) e é hoje um dos maiores clássicos cult dos últimos 50 anos, com importância imensurável para a ficção científica, ao ponto de ser um dos grandes responsáveis pela criação do subgênero cyberpunk.

Seguir um filme como esse não é uma tarefa fácil: é necessário ter algo para se mostrar, que seja relevante como continuidade da história, impactante visualmente e que acrescente à discussão do que já foi mostrado anteriormente. Mas após 35 anos, aconteceu. Blade Runner 2049 é uma obra que serve tanto de forma independente quanto como sequência à adaptação de 1982 (muito embora seja bem melhor aproveitado por aqueles que já o conhecem), cumprindo com competência quaisquer dos papeis incumbidos a ele e vivendo à altura do estabelecido pelo original. Desta vez dirigido por Denis Villeneuve, mas com produção de Ridley Scott e o retorno de Hampton Fancher ao roteiro, juntamente de Michael Green, o longa tem êxito por entender sua posição, saber que não dá para superar seu antecessor, e por isso apresentar algo novo, próprio, com a identidade de seu diretor, mas que respeita tudo o que foi feito antes e trata de expandir seus temas, dar uma progressão natural a sua identidade visual e apresentar novas questões e críticas, ainda mais pertinentes para a época em que vivemos.

A história, que, como o próprio título indica, se passa 30 anos após o primeiro Blade Runner, é focada em K (interpretado por Ryan Gosling), um membro da força policial de Los Angeles que descobre um grande segredo ligado a Deckard e vai em sua busca. Tal segredo também é do interesse do industrialista Niander Wallace (Jared Leto), produtor de replicantes (agora permitidos no planeta) que coloca Luv (Silvia Hoeks) nessa procura. Tal como no clássico, porém, a trama é apenas o pano de fundo em um filme despreocupado com sua duração e que segue um ritmo próprio para tratar sobre empatia, a necessidade de se sentir único e especial, uma existência limitada ao que praticamos ou nos mandam fazer, ser mais humano do que os próprios seres humanos, a manipulação de nossas próprias memórias, o desenvolvimento de sentimentos por máquinas e inteligências artificiais, a importância de ser reconhecido pela sociedade e os custos do progresso, bem como seus reflexos para o mundo e sua população. Talvez até mais que no original, a preocupação maior do filme é apresentar e discutir seus questionamentos, dando tempo suficiente, tanto aos personagens quanto aos espectadores, para divagarem e refletirem sobre eles, ao mesmo tempo que conduz a narrativa de forma orgânica.

O tom de 2049 também é definido por sua estética, apresentando grande fidelidade ao longa de 1982 ao mesmo tempo que sabe tirar proveito dos avanços tecnológicos que se deram desde aquela época, ainda expandindo e avançando todo o universo apresentando anteriormente. A cidade está ainda mais suja, poluída visualmente, segregada, opressora, claustrofóbica e sem sinal de luz solar, recheada de construções faraônicas e megalomaníacas. Impressionam também o lixão de San Diego e os restos abandonados da Las Vegas futurista, ainda mais colossal do que Los Angeles. O visual ainda é marcado pelo jogo de luzes e filtros que fazem de cada ambientação única, bem como a construção das cenas, que respeitam os padrões do original enquanto tem um estilo muito próprio, mérito total de Villeneuve e do diretor de fotografia Roger Deakins. E, por fim, é valido o destaque para toda a equipe de efeitos especiais, seja pelo desenvolvimento dos gigantescos e detalhados cenários de forma prática ou por toda a manipulação digital realizada, em especial naquela cena, capaz de embasbacar qualquer um tamanho seu realismo.

O impacto de Blade Runner 2049 não seria o mesmo sem suas atuações, porém. Fica claro que cada um dos atores e atrizes ali presentes deram o máximo de si para conseguir dar vida a seus personagens e transmitir todo o peso de suas existências de modo a refletir nas temáticas da obra. Os destaques óbvios ficam para Jared Leto e Harrison Ford, com o primeiro interpretando seu Niander Wallace de forma aterradora, obsessiva, beirando o desumano e o psicótico; enquanto o segundo retorna a Deckard com todas suas falhas e virtudes, transparecendo mais do que nunca suas fragilidades em mais uma grande performance de sua carreira de renome. Não fica muito atrás, porém, a atuação de Ana de Armas como Joi, repleta de carisma e empatia em um irônico contraste com suas condições de existência. Mesmo coadjuvantes como Robin Wright, Dave Bautista e Mackenzie Davis merecem ser citados por seus desempenhos. E quanto a Ryan Gosling, fica claro que a escolha do ator para o papel principal foi mais que adequada, superando suas limitações e mostrando-se bastante expressivo, inclusive no comovente desfecho, no qual ele é essencial.

Talvez o único ponto que deixou um pouco a desejar seja a parte musical. Não que a trilha sonora composta por Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch seja ruim, pelo contrário: funcionando como um catalizador para a tonalidade do filme, ela o conduz de forma densa, grave e até mesmo trágica. Entretanto, mesmo com composições marcantes, a falta de ao menos um tema impactante é sentida, especialmente se pensarmos no Blade Runner clássico e seu Main Titles, Love Theme, Blade Runner Blues, Rachael's Song e End Titles. Ainda assim, tem o mérito de em momento algum copiar o que o grego Vangelis fez anteriormente, respeitando seu trabalho e incorporando alguns de seus elementos, mas mantendo uma identidade própria.

Definir Blade Runner 2049, seja como longa individual ou continuação de um dos principais clássicos da ficção científica, é uma tarefa ingrata. Os esforços aplicados por todos os envolvidos na produção faz dele um resultado singular, com estilo e assinatura, ao mesmo tempo que possui toda uma conexão com o material original. Seu maior mérito, porém, foi expandir os temas e questionamentos do primeiro filme, dando a eles uma interpretação de seu diretor sem perder a relação com o estabelecido antes. Complexo e estonteante, deverá, tal qual as obras que tratam das perguntas fundamentais da vida, ser revisitado muitas vezes antes de sua plena compreensão. Mesmo assim, sua principal mensagem é mais do que clara e relevante para atualidade, sobre algo que muito nos falta e que, se continuarmos assim, nos fará viver em uma sociedade tão sórdida quanto a apresentada.

TRAILER:

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Prepare-se para "Blade Runner 2049" com esses três curtas


Faltam apenas alguns dias para um dos mais aguardados filmes de 2017 chegar aos cinemas de todo o mundo, com a estreia brasileira agendada para 05 de outubro. Tendo sido exibido para a imprensa com antecedência, Blade Runner 2049 já desponta um dos longas mais aclamados do ano, sendo tido como a sequência ideal para o clássico cult de 1982 e uma obra magnífica por si só. Com toda essa repercussão, a produção já está sendo cotada para o próximo Oscar, ao mesmo tempo que deixa milhares de fãs ansiosos para finalmente conferi-la.

Pensando em toda essa expectativa e nos 30 anos que separam a história do primeiro Blade Runner do vindouro lançamento, o diretor Denis Villeneuve convidou alguns outros artistas do ramo para produzirem três curta-metragens que servem como prelúdio para seu filme, estabelecendo uma ligação entre as tramas, respondendo questões até então nebulosas e situando o espectador no meio disso tudo. O primeiro deles, 2036: Nexus Dawn, lançado no último 30 de agosto, mostra Niander Wallace, o personagem de Jared Leto, mostrando a um grupo de pessoas (que aparentemente são políticos) sua mais nova linha de replicantes e toda sua capacidade:



O segundo deles, 2048: Nowhere to Run, foi lançado em 16 de setembro e nos apresenta ao replicante Sapper Morton, interpretado por Dave Bautista e que vive às margens da lei nas sórdidas ruas da Los Angeles do futuro:



Por fim, o terceiro deles, divulgado na última quinta-feira, 28 de setembro, é Black Out 2022, um Anime dirigido pelo criador de Cowboy Bebop e Samurai Champloo, Shinichiro Watanabe. Possivelmente o mais importante dos três, o vídeo faz uma conexão muito próxima com o primeiro Blade Runner ao mesmo tempo que traz uma luz sobre eventos citados nos clipes anteriores, além de apresentar uma ambientação digna do longa original:



Sente-se mais preparado para essa quinta-feira? E se você nunca assistiu Blade Runner, pare tudo o que está fazendo, vá ver um dos melhores filmes já feitos na história e fique pronto para testemunhar sua sequência, a qual tudo indica que também é uma das melhores de todos os tempos.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

BALANÇO MUSICAL - Setembro de 2017


Olá! Seja bem-vindo ao meu projeto Balanço Musical, uma coluna mensal na qual falo sobre música, o que escutei no mês que se passou, o porquê das escolhas, o que me influenciou nesses dias, e publico uma playlist com uma faixa referente a cada dia do período. O objetivo não é nada além de escrever um pouco mais sobre música no blog, apresentar algumas coisas diferentes e dar às pessoas a oportunidade de conhecer novos artistas e canções. As postagens são publicadas sempre no primeiro dia útil de cada mês, o que pode ou não coincidir com o dia 1º.

Setembro seguiu o embalo de agosto e começou comigo ouvindo muita música, ao ponto que bati meu recorde de faixas executadas em uma semana no meu last.fm logo em seus primeiros 7 dias (344 canções, antes eram 293). Depois disso, porém, diminui meu ritmo e acabei trocando o Spotify pelo reprodutor de Podcasts por um tempo. Ainda assim, nenhum dia passou em branco e o mês terminou com um número mais do que satisfatório de reproduções.

É claro que setembro só poderia ser iniciado com uma música: a clássica September, do Earth, Wind & Fire (e sim, eu precisava fazer isso). Os dias que vieram em seguida tiveram uma predominante influência das trilhas sonoras de Atômica e Bingo: O Rei das Manhãs, além de manter a presença das canções de Em Ritmo de Fuga. De igual importância foram algumas das apresentações do último Rock In Rio, cujos artistas também aqui marcaram presença. Também não dá para deixar de notar a presença de Saturday Night's Alright (For Fighting) do Elton John, uma das principais faixas do recente Kingsman: O Círculo Dourado, fechando o período.

Dos lançamentos do mês, os mais vitais foram Concrete and Gold do Foo Fighters, Wonderful Wonderful do Killers e o autointitulado do Prophets of Rage, álbuns inteiramente diferentes, mas ainda assim muito interessantes. Ainda desse ano, vale novamente o destaque para o Defying Gravity do sempre excelente Mr. Big. O mesmo pode ser dito sobre os mais antigos, mas ainda assim brilhantes, El Camiño do Black Keys e Lust For Life do Iggy Pop. E o que dizer de Simple Minds, Thin Lizzy, Machine Head, Pink Floyd, Iced Earth, Black Sabbath e Iron Maiden? Já são figurinhas carimbadas em minhas playlists e também na minha vida, sempre marcando presença, ainda que de formas inesperadas.

Confira abaixo a playlist de setembro de 2017:

domingo, 1 de outubro de 2017

Resenha de UM parágrafo sobre "KINGSMAN: O CÍRCULO DOURADO"!


Sequência de uma das maiores surpresas de 2014, Kingsman: O Círculo Dourado diverte com suas mirabolantes e frenéticas cenas de ação, junto a uma trilha sonora recheada de grandes hits e um estrelado elenco que entrega performances carismáticas. Apesar de a trama seguir a estrutura básica do original, também traz algumas adições interessantes à mitologia dos agentes, trabalha bem as relações entre os personagens e ainda encontra espaço para fazer algumas críticas pertinentes a temas relevantes e ao presidente de uma certa potência global. E, claro, tem Sir Elton John em uma participação mais que especial e hilariante. Pode não ser melhor que seu antecessor, mas está muito longe de ser a tragédia reportada por aí, novamente tendo sucesso em ser uma grande paródia e homenagem aos filmes de espionagem ao mesmo tempo que sabe não se levar a sério.

TRAILER: