segunda-feira, 16 de outubro de 2017

"Star Wars: Os Últimos Jedi" e o trailer mais enganador dos últimos tempos (+ teorias!)


A internet parou durante a noite da última segunda-feira, 09/10, quando, após uma longa espera, foi lançado o segundo (e provavelmente último) trailer de Star Wars: Os Últimos Jedi. A prévia foi assistida tantas vezes que se tornou a 5ª mais vista em 24 horas no YouTube, tendo o vídeo sido conferido por mais de 120 milhões de pessoas nesse período de tempo. Toda essa comoção não foi a toa: com belo visual e trilha sonora digna dos mais grandiosos momentos da saga, o clipe apresentou ao público os Porgs, teve momentos épicos como o discurso de Poe Dameron e o confronto entre Finn e Capitã Phasma, e ainda deixou algumas coisas sugeridas sobre o filme, como uma possível morte de Leia por Kylo Ren ou até mesmo uma ida de Rey para o Lado Sombrio, momento que o encerrou de forma dramática.

Seria uma pena, porém, se quase nada disso viesse a ser parte da verdadeira trama do longa, com esse trailer não passando de uma tentativa de enganar o público.

Sim, é verdade. Seguindo a política da Lucasfilm de revelar o mínimo possível sobre a história de seus filmes e o esforço hercúleo do diretor Rian Johnson de tentar manter tudo em segredo, o mais recente vídeo de divulgação do próximo Star Wars contou também com uma edição boa o suficiente para unir diversos cortes diferentes e transformá-los em cenas convincentes, feitas justamente para os fãs surtarem com algumas das possibilidades mostradas por ele. Mas uma análise um pouco mais atenciosa e aprofundada deixa claro que nem tudo é o que parece ser e muito do mostrado não se dará na sequência que pudemos conferir.

Antes de mais nada, veja abaixo o trailer, caso você não tenha sido uma das mais de 120 milhões de pessoas que o conferiu em seu primeiro dia online (o que é muito improvável):



Com o trailer assistido, fica muito mais fácil visualizar o que foi dito anteriormente, e é nas seguintes cenas que fica mais claro o jogo de cortes feito na edição:

- A sequência de abertura do trailer: com diversas imagens de Kylo Ren e falas de Snoke sobre alguém de poder de poder bruto e incontrolável, tudo indica que ele está de fato se referindo a seu aprendiz no Lado Sombrio. Porém, há uma grande possibilidade de ele estar falando com Rey nesse momento, especialmente levando em consideração momentos seguintes da prévia, como o dito por Luke, também sobre um poder bruto, e a tortura da heroína pelo Líder Supremo da Primeira Ordem;

- A fala de Luke Skywalker após a demonstração da Força de Rey: OK, embora eu tenha usado essa cena para justificar o item anterior, há algo de estranho com ela. Enquanto o Jedi fala sobre seu medo da Força bruta, é possível perceber que ele está em um local diferente, que possui no chão um círculo com um símbolo. Isso levanta a hipótese de que ele talvez esteja de fato conversando com a Rey, mas não no exato momento seguinte à exibição dos poderes da garota;

- Kylo Ren x Leia: a cena que deixou muitos temerosos pela morte da Princesa mais querida das Galáxias está longe de ser o que as pessoas imaginaram, e isso porque 1) a nave em que Kylo Ren adentra com seu TIE não é a mesma em que Leia se encontra na imagem seguinte, e 2) é fisicamente impossível atingir a parte do cruzador em que o vilão travou sua mira pelo mesmo lugar que entrou, além de o ângulo também não ser o mesmo mostrado pelo visor de seu caça. É provável que o personagem vá atrás da agora General da Resistência, mas, mesmo com o falecimento de Carrie Fisher no último ano, é difícil acreditar na morte da heroína, ainda mais com Mark Hamill declarando recentemente que sua história só será encerrada no Episódio IX;

- Kylo Ren estende a mão para Rey: a mais perceptível de todas as edições, fica claro ao se observar o momento final do trailer que a cena se passa em dois momentos diferentes. Olhando com atenção o ambiente ao fundo dos personagens, é possível ver que Rey encontra-se em uma caverna (e provavelmente está conversando com Luke), enquanto Kylo Ren está em algum local cercado por chamas ou lava. Permanece a dúvida para quem ele está estendendo sua mão, porém.

A apresentação de novo material também foi suficiente para levantar novas suposições e teorias, algumas não tão evidentes no trailer. Confira elas a seguir:

- Haverá uma ruptura na relação de Kylo Ren e Snoke?: não é de hoje que os fãs especulam que o líder dos Cavaleiros de Ren não vá se tornar o vilão que imaginávamos que ele fosse ser, algo que ficou muito claro em O Despertar da Força com todo o esforço do personagem em manter-se no Lado Sombrio e não sucumbir ao Lado Luminoso da Força, uma grande quebra de paradigmas em toda essa relação. Com as sugestões do trailer de que Snoke irá atrás de Rey, ao ponto de torturá-la para que ela se torne sua aliada, e a não-morte de Leia, não é difícil imaginar que Kylo Ren deixe de ser um discípulo do Líder Supremo em algum momento do longa, talvez até passando a atuar com a Resistência.

- Há um espião dentro da Resistência?: logo nos primeiros momentos do trailer, é possível ver uma cena aérea em que Kylo Ren marcha, seguido de um batalhão de Stormtroopers, em um local que muito se assemelha a uma determinada área da Ilha do planeta Ahch-to, onde Luke Skywalker se encontra. E, conforme visto no Episódio VII, apenas os membros da Resistência tiveram acesso ao mapa contendo o paradeiro do Jedi perdido. Ou seja, alguém passou essa informação para a Primeira Ordem. O que especula-se no momento é que o espião seja ninguém menos que Poe Dameron, e muito por conta de sua posição no último poster divulgado, aparecendo "no lado dos malvados":


Por mais besta que essa suposição pareça ser, ela iria de encontro com essa possibilidade de alguém estar vazando informações da organização de Leia para seus inimigos. Além disso, nunca soubemos exatamente o que aconteceu durante o interrogatório de Dameron por Kylo Ren. E se ele estiver agindo sob influência do personagem? Seria uma alternativa interessante para demonstrar que um dos maiores heróis da Resistência, dono até mesmo de seu próprio título nos quadrinhos, não era um traidor durante todo esse tempo.

- Sério mesmo que teremos mais uma Estrela da Morte?: é, você não leu errado. Esse não é um rumor recente; tudo começou na última Force Friday, realizada no começo de setembro e que apresentou os primeiros brinquedos e colecionáveis relacionados a Os Últimos Jedi. Na caixa do TIE Silencer de Kylo Ren, porém, podemos claramente ver uma Estrela da Morte ao fundo:


Até aí tudo bem, poderia ser um simples erro, um fundo genérico relacionado à saga ou reaproveitamento de material promocional de Rogue One: Uma História Star Wars. Mas há algo de estranho nas cenas de batalha espacial no novo trailer. Reparem nesses prints tirados respectivamente dos tempos 1min39seg e 1min44seg:



Há algo ao fundo dessas imagens (confirmado pela inversão de cores que fiz), com formato esférico e uma textura que se assemelha à da arma de destruição em massa mais poderosa da Galáxia. Talvez eu esteja vendo coisas? Não descarto essa possibilidade. Mas se isso forem resquícios de uma Estrela da Morte removida digitalmente, meu Deus... Chega dessa ideia, por favor. Três vezes já foram mais do que suficiente.

Cada vez mais perguntas cercam a trama de Star Wars: Os Últimos Jedi e, apesar de elas não terem resposta no momento, Luke Skywalker já nos deu uma enorme dica nesse último trailer: "Isso não vai acontecer como você imagina". Enquanto isso, só resta aguardar até o dia 14 de dezembro.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

[RESENHA] "Blade Runner 2049" (2017)


O que é existir? O que nos define como humanos? O que nos diferencia e nos faz especial comparado aos demais seres vivos com quem compartilhamos o mundo? O que é real, se há de fato um real? Essas são algumas das perguntas fundamentais que tentamos desvendar desde os primórdios, através das ciências, artes e religiões. Essa incessante busca por respostas é sempre acompanhada pelo levantamento de novos questionamentos ao longo do tempo, e um dos mais recentes contribuidores, dentre tantos outros, é Philip K. Dick, autor de livros de ficção científica que desenvolveu histórias cercadas do fantástico, do tecnológico e do que parecia além de seu tempo, mas que se mostravam atemporais e mantiveram-se relevantes por suas reflexões acerca da humanidade, suas questões sobre o âmago do ser e as provocações acerca dos caminhos pelos quais rumamos.

Uma de suas principais obras foi adaptada para os cinemas em Blade Runner, de 1982. Com direção de Ridley Scott e roteiro de Hampton Fancher e David Peoples, o longa mostrava a caçada do ex-policial Rick Deckard (Harrison Ford) a quatro replicantes, robôs orgânicos com formas humanas e inteligência e força sobre-humanas que são proibidos na Terra, os quais buscavam estender suas vidas para além dos quatro anos que lhes foram programados. A trama neo-noir, porém, é apenas o fio condutor em um filme contemplativo, cadenciado, que trata sobre a vida, a existência, sobre a perda da humanidade para os avanços da sociedade em que vivemos, amores improváveis, a luta pela sobrevivência, o quão reais são nossas memórias e, é claro, se androides sonham com ovelhas elétricas. Crítico e reflexivo, com visual esplendoroso e uma trilha sonora que beira o indescritível, acabou não fazendo sucesso entre crítica e público à época de seu lançamento, mas foi revisitado ao longo dos anos, recebeu novas versões para se adequar a visão de seu diretor (sendo a definitiva o Final Cut de 2007) e é hoje um dos maiores clássicos cult dos últimos 50 anos, com importância imensurável para a ficção científica, ao ponto de ser um dos grandes responsáveis pela criação do subgênero cyberpunk.

Seguir um filme como esse não é uma tarefa fácil: é necessário ter algo para se mostrar, que seja relevante como continuidade da história, impactante visualmente e que acrescente à discussão do que já foi mostrado anteriormente. Mas após 35 anos, aconteceu. Blade Runner 2049 é uma obra que serve tanto de forma independente quanto como sequência à adaptação de 1982 (muito embora seja bem melhor aproveitado por aqueles que já o conhecem), cumprindo com competência quaisquer dos papeis incumbidos a ele e vivendo à altura do estabelecido pelo original. Desta vez dirigido por Denis Villeneuve, mas com produção de Ridley Scott e o retorno de Hampton Fancher ao roteiro, juntamente de Michael Green, o longa tem êxito por entender sua posição, saber que não dá para superar seu antecessor, e por isso apresentar algo novo, próprio, com a identidade de seu diretor, mas que respeita tudo o que foi feito antes e trata de expandir seus temas, dar uma progressão natural a sua identidade visual e apresentar novas questões e críticas, ainda mais pertinentes para a época em que vivemos.

A história, que, como o próprio título indica, se passa 30 anos após o primeiro Blade Runner, é focada em K (interpretado por Ryan Gosling), um membro da força policial de Los Angeles que descobre um grande segredo ligado a Deckard e vai em sua busca. Tal segredo também é do interesse do industrialista Niander Wallace (Jared Leto), produtor de replicantes (agora permitidos no planeta) que coloca Luv (Silvia Hoeks) nessa procura. Tal como no clássico, porém, a trama é apenas o pano de fundo em um filme despreocupado com sua duração e que segue um ritmo próprio para tratar sobre empatia, a necessidade de se sentir único e especial, uma existência limitada ao que praticamos ou nos mandam fazer, ser mais humano do que os próprios seres humanos, a manipulação de nossas próprias memórias, o desenvolvimento de sentimentos por máquinas e inteligências artificiais, a importância de ser reconhecido pela sociedade e os custos do progresso, bem como seus reflexos para o mundo e sua população. Talvez até mais que no original, a preocupação maior do filme é apresentar e discutir seus questionamentos, dando tempo suficiente, tanto aos personagens quanto aos espectadores, para divagarem e refletirem sobre eles, ao mesmo tempo que conduz a narrativa de forma orgânica.

O tom de 2049 também é definido por sua estética, apresentando grande fidelidade ao longa de 1982 ao mesmo tempo que sabe tirar proveito dos avanços tecnológicos que se deram desde aquela época, ainda expandindo e avançando todo o universo apresentando anteriormente. A cidade está ainda mais suja, poluída visualmente, segregada, opressora, claustrofóbica e sem sinal de luz solar, recheada de construções faraônicas e megalomaníacas. Impressionam também o lixão de San Diego e os restos abandonados da Las Vegas futurista, ainda mais colossal do que Los Angeles. O visual ainda é marcado pelo jogo de luzes e filtros que fazem de cada ambientação única, bem como a construção das cenas, que respeitam os padrões do original enquanto tem um estilo muito próprio, mérito total de Villeneuve e do diretor de fotografia Roger Deakins. E, por fim, é valido o destaque para toda a equipe de efeitos especiais, seja pelo desenvolvimento dos gigantescos e detalhados cenários de forma prática ou por toda a manipulação digital realizada, em especial naquela cena, capaz de embasbacar qualquer um tamanho seu realismo.

O impacto de Blade Runner 2049 não seria o mesmo sem suas atuações, porém. Fica claro que cada um dos atores e atrizes ali presentes deram o máximo de si para conseguir dar vida a seus personagens e transmitir todo o peso de suas existências de modo a refletir nas temáticas da obra. Os destaques óbvios ficam para Jared Leto e Harrison Ford, com o primeiro interpretando seu Niander Wallace de forma aterradora, obsessiva, beirando o desumano e o psicótico; enquanto o segundo retorna a Deckard com todas suas falhas e virtudes, transparecendo mais do que nunca suas fragilidades em mais uma grande performance de sua carreira de renome. Não fica muito atrás, porém, a atuação de Ana de Armas como Joi, repleta de carisma e empatia em um irônico contraste com suas condições de existência. Mesmo coadjuvantes como Robin Wright, Dave Bautista e Mackenzie Davis merecem ser citados por seus desempenhos. E quanto a Ryan Gosling, fica claro que a escolha do ator para o papel principal foi mais que adequada, superando suas limitações e mostrando-se bastante expressivo, inclusive no comovente desfecho, no qual ele é essencial.

Talvez o único ponto que deixou um pouco a desejar seja a parte musical. Não que a trilha sonora composta por Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch seja ruim, pelo contrário: funcionando como um catalizador para a tonalidade do filme, ela o conduz de forma densa, grave e até mesmo trágica. Entretanto, mesmo com composições marcantes, a falta de ao menos um tema impactante é sentida, especialmente se pensarmos no Blade Runner clássico e seu Main Titles, Love Theme, Blade Runner Blues, Rachael's Song e End Titles. Ainda assim, tem o mérito de em momento algum copiar o que o grego Vangelis fez anteriormente, respeitando seu trabalho e incorporando alguns de seus elementos, mas mantendo uma identidade própria.

Definir Blade Runner 2049, seja como longa individual ou continuação de um dos principais clássicos da ficção científica, é uma tarefa ingrata. Os esforços aplicados por todos os envolvidos na produção faz dele um resultado singular, com estilo e assinatura, ao mesmo tempo que possui toda uma conexão com o material original. Seu maior mérito, porém, foi expandir os temas e questionamentos do primeiro filme, dando a eles uma interpretação de seu diretor sem perder a relação com o estabelecido antes. Complexo e estonteante, deverá, tal qual as obras que tratam das perguntas fundamentais da vida, ser revisitado muitas vezes antes de sua plena compreensão. Mesmo assim, sua principal mensagem é mais do que clara e relevante para atualidade, sobre algo que muito nos falta e que, se continuarmos assim, nos fará viver em uma sociedade tão sórdida quanto a apresentada.

TRAILER:

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Prepare-se para "Blade Runner 2049" com esses três curtas


Faltam apenas alguns dias para um dos mais aguardados filmes de 2017 chegar aos cinemas de todo o mundo, com a estreia brasileira agendada para 05 de outubro. Tendo sido exibido para a imprensa com antecedência, Blade Runner 2049 já desponta um dos longas mais aclamados do ano, sendo tido como a sequência ideal para o clássico cult de 1982 e uma obra magnífica por si só. Com toda essa repercussão, a produção já está sendo cotada para o próximo Oscar, ao mesmo tempo que deixa milhares de fãs ansiosos para finalmente conferi-la.

Pensando em toda essa expectativa e nos 30 anos que separam a história do primeiro Blade Runner do vindouro lançamento, o diretor Denis Villeneuve convidou alguns outros artistas do ramo para produzirem três curta-metragens que servem como prelúdio para seu filme, estabelecendo uma ligação entre as tramas, respondendo questões até então nebulosas e situando o espectador no meio disso tudo. O primeiro deles, 2036: Nexus Dawn, lançado no último 30 de agosto, mostra Niander Wallace, o personagem de Jared Leto, mostrando a um grupo de pessoas (que aparentemente são políticos) sua mais nova linha de replicantes e toda sua capacidade:



O segundo deles, 2048: Nowhere to Run, foi lançado em 16 de setembro e nos apresenta ao replicante Sapper Morton, interpretado por Dave Bautista e que vive às margens da lei nas sórdidas ruas da Los Angeles do futuro:



Por fim, o terceiro deles, divulgado na última quinta-feira, 28 de setembro, é Black Out 2022, um Anime dirigido pelo criador de Cowboy Bebop e Samurai Champloo, Shinichiro Watanabe. Possivelmente o mais importante dos três, o vídeo faz uma conexão muito próxima com o primeiro Blade Runner ao mesmo tempo que traz uma luz sobre eventos citados nos clipes anteriores, além de apresentar uma ambientação digna do longa original:



Sente-se mais preparado para essa quinta-feira? E se você nunca assistiu Blade Runner, pare tudo o que está fazendo, vá ver um dos melhores filmes já feitos na história e fique pronto para testemunhar sua sequência, a qual tudo indica que também é uma das melhores de todos os tempos.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

BALANÇO MUSICAL - Setembro de 2017


Olá! Seja bem-vindo ao meu projeto Balanço Musical, uma coluna mensal na qual falo sobre música, o que escutei no mês que se passou, o porquê das escolhas, o que me influenciou nesses dias, e publico uma playlist com uma faixa referente a cada dia do período. O objetivo não é nada além de escrever um pouco mais sobre música no blog, apresentar algumas coisas diferentes e dar às pessoas a oportunidade de conhecer novos artistas e canções. As postagens são publicadas sempre no primeiro dia útil de cada mês, o que pode ou não coincidir com o dia 1º.

Setembro seguiu o embalo de agosto e começou comigo ouvindo muita música, ao ponto que bati meu recorde de faixas executadas em uma semana no meu last.fm logo em seus primeiros 7 dias (344 canções, antes eram 293). Depois disso, porém, diminui meu ritmo e acabei trocando o Spotify pelo reprodutor de Podcasts por um tempo. Ainda assim, nenhum dia passou em branco e o mês terminou com um número mais do que satisfatório de reproduções.

É claro que setembro só poderia ser iniciado com uma música: a clássica September, do Earth, Wind & Fire (e sim, eu precisava fazer isso). Os dias que vieram em seguida tiveram uma predominante influência das trilhas sonoras de Atômica e Bingo: O Rei das Manhãs, além de manter a presença das canções de Em Ritmo de Fuga. De igual importância foram algumas das apresentações do último Rock In Rio, cujos artistas também aqui marcaram presença. Também não dá para deixar de notar a presença de Saturday Night's Alright (For Fighting) do Elton John, uma das principais faixas do recente Kingsman: O Círculo Dourado, fechando o período.

Dos lançamentos do mês, os mais vitais foram Concrete and Gold do Foo Fighters, Wonderful Wonderful do Killers e o autointitulado do Prophets of Rage, álbuns inteiramente diferentes, mas ainda assim muito interessantes. Ainda desse ano, vale novamente o destaque para o Defying Gravity do sempre excelente Mr. Big. O mesmo pode ser dito sobre os mais antigos, mas ainda assim brilhantes, El Camiño do Black Keys e Lust For Life do Iggy Pop. E o que dizer de Simple Minds, Thin Lizzy, Machine Head, Pink Floyd, Iced Earth, Black Sabbath e Iron Maiden? Já são figurinhas carimbadas em minhas playlists e também na minha vida, sempre marcando presença, ainda que de formas inesperadas.

Confira abaixo a playlist de setembro de 2017:

domingo, 1 de outubro de 2017

Resenha de UM parágrafo sobre "KINGSMAN: O CÍRCULO DOURADO"!


Sequência de uma das maiores surpresas de 2014, Kingsman: O Círculo Dourado diverte com suas mirabolantes e frenéticas cenas de ação, junto a uma trilha sonora recheada de grandes hits e um estrelado elenco que entrega performances carismáticas. Apesar de a trama seguir a estrutura básica do original, também traz algumas adições interessantes à mitologia dos agentes, trabalha bem as relações entre os personagens e ainda encontra espaço para fazer algumas críticas pertinentes a temas relevantes e ao presidente de uma certa potência global. E, claro, tem Sir Elton John em uma participação mais que especial e hilariante. Pode não ser melhor que seu antecessor, mas está muito longe de ser a tragédia reportada por aí, novamente tendo sucesso em ser uma grande paródia e homenagem aos filmes de espionagem ao mesmo tempo que sabe não se levar a sério.

TRAILER:

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

"Batman: A Máscara do Fantasma" voltou à Netflix e você precisa assisti-lo


Batman é um dos personagens mais conhecidos dos quadrinhos e já foi objeto de várias transposições para outras mídias, seja cinema, televisão ou video-games. Uma das mais famosas e celebradas é Batman - A Série Animada, desenvolvida por Bruce Timm e Eric Radomski ao lado de nomes como Paul Dini, Kevin Nowlan, Dan Riba, Boyd Kirkland, entre outros. Com sua narrativa madura e roteiros bem trabalhos, a animação, com estilo inspirado no Superman de Max Fleischer dos anos 1940, revolucionou toda a industria na época e até hoje é referência para muitos (inclusive para este que vos escreve), sendo considerada a melhor adaptação do personagem para além das páginas das HQs.

O sucesso do desenho acabou gerando alguns longas animados ao longo dos anos de sua duração. Um deles, o primeiro na linha de lançamentos, que em breve será lançado em Blu-Ray e acaba de voltar ao catálogo da Netflix após um longo período, é Batman: A Máscara do Fantasma, tido por muitos como um dos melhores filmes protagonizados pelo Morcego em todos os tempos (e, para alguns, O melhor). E você deveria dar uma chance a ele, goste ou não de animações, pois a obra certamente vive a altura de sua fama.

Carregada de todo o clima noir que marcou A Série Animada, a história nos mostra o herói tendo que investigar algumas mortes que vem sendo causadas pelo indivíduo que se intitula O Fantasma, um vilão inédito criado exclusivamente para o longa, ao mesmo tempo que deve lidar com uma figura importante de seu passado, o resto do crime em Gotham e, claro, o sempre imprevisível Coringa. A trama detetivesca se dá entre o desenvolvimento de eventos do presente intercalados com flashbacks que apresentam a origem do personagem, desenvolvida de tal modo que não deixa a dever em nada a outras de suas consagradas gêneses, como Batman: Ano Um ou Batman Begins.

O roteiro é pautado por um enredo intrigante, avançando conforme Batman desenvolve sua investigação e sendo marcado por algumas viradas surpreendentes que só prendem ainda mais o espectador. Ao mesmo tempo, dá espaço para o desenvolvimento de seus personagens de forma competente, de modo que não apenas o protagonista, mas também seus coadjuvantes e antagonistas, ganham novas camadas que os tornam mais cativantes e, ao mesmo tempo, falhos. Muito disso ocorre nas sequências situadas no passado, cirurgicamente realizadas para dar a profundidade ideal ao filme, sem esquecer que o público almejado é o de crianças e adultos.

Outras das principais características da histórica adaptação televisiva também dão as caras aqui, como a animação de qualidade ímpar, a trilha sonora de Shirley Walker e, claro, as vozes. Kevin Conroy, Mark Hamill e os demais membros do elenco fazem, como de praxe, um trabalho além do comum em A Máscara do Fantasma, entregando toda a intensidade exigida para dar vida a seus personagens e sendo um dos mais fortes pontos de toda a experiência (a risada do Coringa de Hamill sempre me dará arrepios de tão insana). Cabe a ressalva, porém, de que a versão dublada em português pouco deixa a desejar também, contando com alguns grandes nomes como Márcio Seixas e Isaac Bardavid.

É engraçado pensar na época em que Batman - A Série Animada era exibida e que Batman: A Máscara do Fantasma foi lançado, pois quase ao mesmo tempo vieram também Batman Eternamente e Batman e Robin, dois dos filmes já estrelados pelo Homem-Morcego mais execrados por crítica e público, que foram por um caminho totalmente diferente do que deveria ser seguido e estava logo ali, na cara dos executivos da Warner, sendo um dos maiores sucessos daqueles dias. Perto deles, A Máscara do Fantasma se sobressai e muito. Mas mesmo hoje, após o estrondoso sucesso da trilogia de Christopher Nolan, esse longa animado continua relevante, tendo sua qualidade sobrevivido ao teste dos anos, batendo de frente com as adaptações live-action e superando a maior parte (se não todos).

E se eu não consegui te convencer, tenho certeza que o vídeo abaixo vai (mas cuidado, contém SPOILERS):

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Tem vezes que é melhor não escrever nada

Ele aprova.

Quem escreve com uma certa regularidade já passou por um dos infames bloqueios criativos, quando as ideias, a organização e até mesmo a vontade de escrever abandonam o corpo, saem para um happy hour e te deixam a esmo, tentando espremer qualquer coisa que se assemelhe com um texto, mas sem sucesso. É uma das situações mais frustrantes do mundo da escrita, que deixam qualquer um sentindo-se impotente, infértil. E o pior de tudo: não dá para fazer nada além de esperar por alguma inspiração, algo que simplesmente não tem tempo certo.

Mas e quando você até tem uma ideia e um foco, porém os acha insuficientes?

No sábado retrasado (02/09), fui ao cinema ver Bingo: O Rei das Manhãs. Adorei o filme, muito divertido, bem realizado, ótima trilha sonora e com uma mensagem bacana. E, como de praxe, queria escrever algo sobre ele para postar aqui. Mas, diferente de Atômica, que assisti no mesmo dia e publiquei um texto sobre, eu não consegui desenvolver nada de bom. Não queria fazer um resenha pois, apesar de ser o mais apropriado, acho que venho postando resenhas demais ultimamente. E também não quis usar as de um parágrafo, já que esse formato estou deixando exclusivamente para os longas de super-herói.

Minha ideia era escrever um texto falando sobre algumas das principais características de Bingo: o retrato dos excessos do protagonista, o foco em seu relacionamento com o filho, o retrato fiel e a estilização dos anos 1980 no Brasil. Mas seria chover no molhado. Todos esses pontos já foram analisados (e de forma muito melhor do que eu seria capaz, devo dizer) nos principais portais sobre cinema e cultura pop do país. Do que adiantaria publicar algo que não teria nada a acrescentar, que não fosse além do que já foi dito? Seria uma perda de tempo, tanto para mim quanto para você, leitor.

Então eu decidi que seria melhor deixar passar, não tentar escrever nada muito aprofundado sobre o filme. E acho que foi a escolha mais acertada mesmo, já que não estava confortável com o plano. Precisamos escolher quais batalhas iremos lutar, e esse certamente não era o caso aqui. É triste reconhecer que suas ideias não eram tão boas ou originais, mas ainda é melhor do que ter ciência disso e mesmo assim tentar executá-las, apresentando um resultado bem abaixo do esperado. E em um mundo como o nosso, cada vez mais imediatista e repleto de pessoas com opiniões prontas sobre todos os assuntos possíveis, talvez esse até seja um exercício saudável.

Fora que toda essa situação acabou me fazendo criar este texto. É, realmente não me arrependo.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

A beleza da violência em "Atômica"


Todos sabemos que a violência, embora infelizmente seja parte de nosso cotidiano, é repugnante na vida real. O cinema, entretanto, consegue transformá-la em entretenimento e até mesmo em arte. A lista de filmes que conseguem essa proeza é considerável, tendo sido comandados por alguns mestres como Quentin Tarantino, Martin Scorsese, Brian De Palma, Francis Ford Coppola, James Cameron, Sergio Leone, entre outros. Uma das mais recentes adições a esse rol é Atômica (Atomic Blonde no original), dirigido por David Leitch, que também co-dirigiu o primeiro John Wick, sendo ainda produtor dessa franquia que já é figura carimbada do gênero de ação.

No longa estrelado pela sempre excelente Charlize Theron, Lorraine Broughton, uma agente do MI6, é enviada a Berlim em pleno 1989, nos dias que antecederam a queda do Muro que dividia a cidade em suas partes oriental e ocidental, para investigar a morte de um espião conhecido e recuperar das mãos de um renegado da KGB uma lista contendo o nome e as operações de todos os agentes secretos em atividade, encontrando pelo caminho os personagens de James McAvoy, Sofia Boutella e John Goodman.

A sinopse, por si só, já dá espaço para a porradaria rolar solta. E ela de fato acontece, mas o filme consegue ir além e utilizar de seus principais elementos para criar uma experiência ímpar. A fotografia acinzentada (bem condizente com a época e a cidade em que se passa), que dá destaque à luz e aos neons em momentos-chave, somada a trilha sonora recheada de hits dos anos 1980 faz com que as cenas de ação beirem o pop, em um show de movimentos e imparável frenesi que não deixa tempo para respiro.

Lutas corpo a corpo são recorrentes em Atômica, e a meticulosa coreografia faz com que elas sejam fluídas e naturais, seja em momentos de precisos cortes da montagem ou no plano-sequência de um dos melhores momentos do longa, com direito até a uma visível fadiga dos combatente em tela que beira a aflição. Tiroteios também se sobressaem pelo dinamismo que são retratados, não poupando sangue a cada disparo certeiro dado e manchando chão, paredes e até mesmo a câmera em determinada hora.

O roteiro pode não ser o ponto mais forte do filme (apesar das reviravoltas dignas das boas tramas de espionagem), mas ele se garante pelo carisma de seus protagonistas, sua ação estilizada e o uso da violência de forma artística, dando permissão para que Lorraine aja da forma que lhe melhor convém para garantir sua sobrevivência, fazendo uso das armas básicas ou dos objetos menos convencionais encontrados no cenário. O uso combinado do filtro, das cores e da música durante os confrontos fazem de Atômica uma experiência especial, dando ao longa uma personalidade tão forte quanto a de sua personagem principal, o suficiente para diferenciá-lo do resto do gênero.

Confira uma cena de Atômica e entenda do que estou falando:

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

BALANÇO MUSICAL - Agosto de 2017


Olá! Seja bem-vindo ao meu projeto Balanço Musical, uma coluna mensal na qual falo sobre música, o que escutei no mês que se passou, o porquê das escolhas, o que me influenciou nesses dias, e publico uma playlist com uma faixa referente a cada dia do período. O objetivo não é nada além de escrever um pouco mais sobre música no blog, apresentar algumas coisas diferentes e dar às pessoas a oportunidade de conhecer novos artistas e canções. As postagens são publicadas sempre no primeiro dia útil de cada mês, o que pode ou não coincidir com o dia 1º.

Se julho foi marcado pela inconsistência, em agosto as coisas voltaram aos trilhos, tendo eu ouvido uma quantidade considerável de músicas quase todos os dias (apenas deles teve um número de faixas abaixo de 10), com o mês roubando o posto de junho como segundo com maior número de audições (a primeira posição segue sendo de maio). Uma evolução interessante, mas que também me faz pensar na inconstância de meu hábito de ouvir música, já que durante o ano vim obtendo números que se distanciam em centenas em relação a um período e outro.

Agosto tende a ser um dos meses mais longos e chatos do ano, e dessa vez não foi diferente, especialmente para mim, que esteve de férias plenas entre o fim de julho e o início desse mês e teve que retomar todas as atividades com uma violência sem precedentes. Então sim, a imagem de Kim Pine fingindo dar um tiro em sua própria cabeça, tirada de Scott Pilgrim Contra o Universo (volume 5 da série), se aplica bem a toda essa situação. Felizmente existe música no mundo, para embalar nossas vidas e tornar o cotidiano mais leve e prazeroso (ou no mínimo tolerável).

Esse mês foi marcado por uma boa variedade de artistas e canções, muito graças à trilha sonora de Em Ritmo de Fuga, que cresceu em mim e tornou-se parte quase diária de minhas audições. Também foram essenciais alguns lançamentos dos últimos dias e de julho, como os álbuns The Rise of Chaos do Accept, Villains do Queens of the Stone Age, A Deeper Understanding do The War on Drugs, Hydrograd do Stone Sour e Everything Now do Arcade Fire; ou singles como The Sin and The Sentence do Trivium, Collide do Black Country Communion (que vai retomar as atividades, amém), England Lost do Mick Jagger, e The Sky is a Neighborhood do Foo Fighters. Também foi a hora de ouvir o mais recente trabalho do Adrenaline Mob, We The People, ficar encantado com a trilha sonora de Planeta dos Macacos: A Guerra e manter-se viciado em Babymetal (elas mandam muito bem, oras!).

Para manter o equilíbrio entre o velho e o novo, é possível ainda ver uma forte influência de registros mais antigos em agosto, seja através de clássicos absolutos como os do Depeche Mode, Iced Earth, Judas Priest, Freddie Mercury, Led Zeppelin, Manic Street Preachers e Iggy Pop; seja por marcantes álbuns mais recentes, como os excelentes Whatever People Say I Am, That's What I'm Not do Arctic Monkeys ou The Hunter do Mastodon, que marcaram minha adolescência como poucos conseguiram. 

No fim, o saldo do mês foi mais que positivo, seja pela quantidade ou pela qualidade das músicas que ouvi. E é bom tirar algo de bom após um agosto como esse.

Confira a playlist de agosto de 2017:

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

[RESENHA] Mister Miracle #1 (2017)


Darkseid is.

O que dizer dessa que é provavelmente a melhor edição #1 do ano?

Como parte da comemoração do centenário de Jack Kirby, a DC decidiu realizar várias homenagens através de edições únicas ou minisséries, concedendo a diversos escritores e artistas a chance de brincar com algumas das principais criações do Rei. A dupla Tom King e Mitch Gerads, conhecida pela autoral e semibiográfica Xerife da Babilônia e por recorrentes colaborações na mensal do Batman, ficou responsável por Mister Miracle, título dividido em 12 partes e que sacudiu a indústria, a crítica especializada e os fãs com o lançamento de seu primeiro capítulo no último 9 de agosto.

Darkseid is.

O roteirista Tom King, grande estrela da indústria no momento, tornou-se conhecido por sua abordagem de temas humanos e atuais quando se tratando de personagens tão fantásticos. Aqui não é diferente: de maneira visceral e até agressiva, o escritor retrata um dos principais problemas crônicos do mundo moderno: a depressão. É possível sentir toda a angústia, o desconforto, a sensação de incapacidade do protagonista diante de tudo o que ele vive, ao mesmo tempo que aqueles ao seu redor não sabem como lidar com a situação. Também é possível dizer que são mostrados o abandono parental e a rejeição familiar, ainda que em menor escala, mas que torna-se explícito nos momentos em que Orion e o Pai Celestial entram em cena.

King também é conhecido por saber combinar esse enfoque a roteiros intrigantes com narrativas fluidas, e mais uma vez não decepciona. A história pré-estabelecida por essa primeira edição é concisa e já repleta de eventos importantes, trazendo um enredo inteligentemente construído e que planta dúvidas no leitor. Afinal, o que está acontecendo com o Senhor Milagre? O que é verdade no que ele está vivendo? Aliás, está ele vivendo? Estaria ele finalmente preso em uma armadilha à prova de escapes? São esses os grandes alicerces a serem desenvolvidos para os 11 números restantes.

Darkseid is.

A arte de Gerads só colabora com a construção da revista, graças a seu diferente estilo que flerta com o caricato, o experimental e o realista, sabendo portar-se tanto de forma viva e grandiosa quanto fria e intimista sempre que necessário. Sua retratação dos personagens, que chuta para longe exageros anatômicos e dá a eles formas mais humanas, é fundamental para aproximar ainda mais o leitor da naturalidade com que o roteiro trata de seus principais temas. E convenhamos: um tom mais super-heroico simplesmente não se encaixaria com a proposta. Vale ainda o destaque para o capista Nick Derrington, que faz do gibi uma belíssima experiência visual antes mesmo de ele ser aberto.

A melhor (talvez até a principal) das homenagens a Jack Kirby, Mister Miracle consegue com sua edição #1 algo que o grande criador sempre procurou fazer com seus personagens: refletir o estado da humanidade no momento. Esse início, de roteiro inteligente e arte mais do que adequada, estabeleceu a base para uma história de grande potencial, e com um Rei escrevendo outro Rei (sacou? Ha!), é seguro dizer que o futuro dessa minissérie tem tudo para ser brilhante.


Confira abaixo quatro página de Mister Miracle #1:




segunda-feira, 28 de agosto de 2017

GÊNIOS DA NONA ARTE - #1: Jack Kirby


Bem-vindos ao meu mais novo projeto: o GÊNIOS DA NONA ARTE! Nessa coluna sem periodicidade definida, pretendo falar sobre alguns dos grandes nomes da história dos quadrinhos e seus trabalhos, mas deixando de lado o tom biográfico e mostrando o porquê de sua importância, bem como o que mais me agrada. E, além de roteiristas e desenhistas, também comentarei sobre arte-finalistas, coloristas e até mesmo editores! Dando início a esse trabalho, o homenageado da vez é Jack Kirby, lenda absoluta da indústria que completaria 100 anos na data de hoje.

Muitos foram os criadores que estiveram por trás das HQs desde seus primórdios. Enquanto uns passaram despercebidos, outros vieram, inventaram seus próprios personagens, estabeleceram seus conceitos, contaram suas histórias, deixaram suas marcas, independente da posição que ocupavam. Alguns receberam maior destaque que outros, é verdade, por terem criados propriedades que são relevantes até hoje, desenvolvido tramas que mudaram paradigmas, revolucionado a forma de fazer arte, seja através de traços ultrarrealistas, cinematográficos ou até mesmo intimistas. Mas a lista é enorme, e mesmo hoje segue crescendo.

Acima de todos eles, porém, há Jack Kirby, uma das mentes mais prolíficas de todo o século XX. que concebeu universos de cabo a rabo, trouxe a vida personagens que foram do fantástico ao milagroso, revirou o mundo dos quadrinhos com ideias além do comum, foi da Terra ao espaço e teve sucesso em todas as suas expedições. Seja sozinho ou ao lado de seus mais frequentes colaboradores, foi um dos homens que mais contribuiu para a cultura pop desde a década de 1940, com suas criações tomando conta não apenas dos quadrinhos, mas se espalhando por toda a mídia e ganhando forma na TV, em livros e, principalmente, no cinema.

Kirby, ao lado de Joe Simon, cocriou o Capitão América em 1941, e é o autor da icônica capa da edição #1 da revista, em que o herói dá um soco na cara de Adolf Hitler. Isso, por si só, já seria o suficiente para colocar seu nome entre os maiores do ramo. Mas essa não foi a única colaboração da dupla, que perdurou por anos a fio e ainda rendeu frutos como o Caçador, a Legião Jovem, os Boys Commandos, revitalizou o recém-criado Sandman e ainda se aventurou com histórias voltadas a jovens adultos durante os anos 1950, quando os gibis super-heroicos perderam a popularidade devido ao pós-Guerra.

A lendária capa da edição #1 de "Capitão América", por Joe Simon e Jack Kirby.

Mas foi ao lado de Stan Lee que Jack Kirby desenvolveu seus maiores sucessos. O lançamento de Quarteto Fantástico em 1961 deu o pontapé inicial ao que hoje conhecemos como Universo Marvel e sendo o catalisador para o nascimento de personagens como Thor, Hulk, Homem de Ferro, Homem-Formiga, os X-Men, os Inumanos, Pantera Negra, Surfista Prateado, Galactus, Doutor Destino, Magneto, entre vários outros (e muita gente pode não saber, mas Kirby, embora não creditado, foi fundamental para a criação do Homem-Aranha). A proposta de criar heróis mais próximos da realidade e que pudessem representar o maior número de indivíduos teve impacto imediato na indústria, e o artista, embora não receba todo o reconhecimento que mereça, foi muito responsável por isso tudo, tendo cuidado da identidade visual dos gibis e concebido muitos dos conceitos fundamentais de suas criações, algo que fica claro se refletirmos sobre a maneira que se dava o famigerado Marvel Way.

Após um desentendimento com Lee, justamente por não lhe darem os devidos créditos e exposição como artista envolvido, Jack Kirby deixou a Marvel e passou a ser parte da DC em 1970, onde ele desenvolveu aquele que muitos consideram seu maior trabalho: O Quarto Mundo, tomando como base a mitologia judaico-cristã ao lado da fantasia e da crença de vida inteligente alienígena e criando o universo que permeou as revistas dos Novos Deuses, Senhor Milagre, O Povo da Eternidade e Jimmy Olsen, com histórias protagonizadas por Orion, Pai Celestial, Darkseid, Metron, os próprios Senhor Milagre e Povo do Amanhã, Grande Barda, Oberon, Vovó Bondade, Forrageador, entre outros personagens muito ricos e repletos de ideias interessantes. Também idealizou OMAC, Kamandi e o Demônio Etrigan, de modo que todos esses personagens permeiam até hoje os quadrinhos da editora, prova de que sua passagem, além de prolífica, mudou alguns rumos dentro da casa de Superman, Batman e Mulher-Maravilha.

Desentendimentos também foram parte de seu tempo na Editora das Lendas, e em 1975 acabou retornando para a Marvel (após algumas concessões de Stan Lee), criando Os Eternos, sucessores espirituais do Quarto Mundo, título no qual criou o conceito dos Celestiais, fundamental para o Universo Cósmico da Casa das Ideias. Deu vida ainda a personagens como o Homem-Máquina, colaborou com Lee uma última vez em uma história do Surfista Prateado tida como a primeira Graphic Novel da editora e, ainda insatisfeito com o tratamento que vinha recebendo, foi trabalhar com projetos para a televisão e publicou quadrinhos por outros selos, desenvolvendo mais suas ideias cósmicas com o passar dos anos.

Jack Kirby faleceu em 1994, aos 76 anos, por insuficiência cardíaca. Mas o legado deixado por ele é inestimável, não apenas por suas colaborações, seus personagens e suas histórias, mas também por seu estilo e sua criatividade, incomparáveis dentro do meio. Sua arte rica e detalhada, aliada às cores fortes e até mesmo psicodélicas usadas, foram um marco à época e até hoje servem como inspiração para os mais variados artistas, estejam eles inseridos na indústria ou não. E simplesmente não há como não ficar maravilhado com seu trabalho. Como exemplo, basta observar a imagem abaixo, uma splash-page tirada de Os Eternos:


Ou então esta belíssima arte do Surfista Prateado:


Ler uma história escrita ou que teve a colaboração de Jack Kirby também segue sendo uma experiência mágica. Aventuras recheadas de emoção e bombardeadas de ideias e conceitos a cada página fazem com que seu trabalho continue como referência aos fãs e roteiristas. Edições de Quarteto Fantástico, Novos Deuses ou Senhor Milagre continuam tendo o mesmo valor que tinham na época de suas publicações, graças à criatividade indomável do gênio por trás delas. Um dos relatos que mais gosto a respeito da imaginação de Kirby foi publicado nas edições #1 de seus trabalhos para a DC, escrito por Marv Wolfman sobre o dia que ele e Len Wein foram se encontrar com "O Rei" para discutir sobre um personagem criado por eles e, ao fim do encontro, ele já sabia mais sobre esse herói do que a própria dupla de criadores:


E não são poucos aqueles dentro da indústria que se declaram admiradores de Jack Kirby. Na verdade, é difícil achar alguém que não seja, tanto por seus admiráveis trabalhos quanto por sua personalidade, descrita como adorável por aqueles que tiveram a chance de conhecê-lo. Inúmeras foram as homenagens feitas a ele ao longo dos anos, mas a minha favorita está em Quarteto Fantástico #511, por Mark Waid e Mike Wieringo (para situar: Reed Richards foi tocado em seu rosto pelo Doutor Destino enquanto este usava magia, o Coisa estava morto e os demais integrantes do Quarteto foram atrás dele, mas para voltarem à Terra teriam que se encontrar com "Deus"):







É difícil resumir a importância de Jack Kirby em tão poucas palavras. Mais difícil ainda passar a dimensão completa da qualidade de seus trabalhos. Mas uma vastidão de ideias e conceitos como os que ele desenvolveu em mais de 50 anos de carreira dedicados aos quadrinhos e outras mídias beiram o impossível de serem explorados de forma detalhada em um simples texto como este. O fato é que suas criações resistiram ao teste do tempo, seguiram relevantes durante as décadas e hoje estão mais em voga do que nunca, sendo os pilares dos universos da Marvel e da DC, tanto nos quadrinhos quanto nos filmes, séries, animações e demais meios. E dessa forma, através de todo seu legado, Kirby ainda vive, no imaginário popular e no coração dos fãs e admiradores.

Feliz centenário, Jack "The King" Kirby, onde quer que esteja.

Jack Kirby posa com a esquete original do Senhor Milagre, por volta de 1970. Segundo as histórias, Scott Free e Grande Barda eram os apelidos dele e de sua esposa, de modo que os personagens, também casados nas tramas do Quarto Mundo, eram os avatares super-heroicos do casal.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

[RESENHA] The Wild Storm #6 - "Chapter Six" (2017)


Em primeiro lugar, um pedido de desculpas: essa edição foi lançada em julho. Sim, além de ter passado a informação errada na última postagem, eu acabei demorando um mês para escrever sobre esse gibi, que me pegou de assalto ao sair antes do que o esperado. Dito isso, foi uma das mais gratas surpresas que The Wild Storm poderia me proporcionar, sendo este sexto capítulo o melhor número desde o eletrizante (em todos os sentidos) #3, e provavelmente de toda a publicação até o momento.

A trama teve alguns avanços fundamentais para seus principais jogadores até o momento, seja pela descoberta da verdadeira natureza de Jacob Marlowe e seu time de WildC.A.T.s pela Engenheira, pela escolha violenta de Henry Bendix ao posicionar no confronto contra as agências rivais, ou pela frenética sequência de ação protagonizada por Michael Cray na abertura da revista, orquestrada por Warren Ellis e Jon Davis-Hunt como poucas equipes criativas conseguem hoje em dia, dando mais um importante passo em direção à HQ solo do personagem, anunciada oficialmente e que será uma minissérie em 12 edições, tendo início em outubro desse ano.

Com 6 edições até o momento, The Wild Storm apresentou seus personagens fundamentais, conceitos e intrigas em uma trama cadenciada e meticulosamente desenvolvida, que caminha cada vez mais em direção a um conflito de proporções globais. Mais gente ainda deve se envolver nessa complexa história em números futuros (como já está prevista a aparição de Jackie King, versão dessa realidade de Jackson King, importante membro da velha StormWatch), mas por enquanto já é o suficiente para fazer desta uma das publicações mais interessantes do ano.

Confira as cinco páginas iniciais de The Wild Storm #6:





segunda-feira, 21 de agosto de 2017

"Os Defensores", ou como a Marvel perdeu a mão com suas séries


Após cerca de 4 anos de planejamento e 5 temporadas distribuídas entre 4 séries solo, chegou à Netflix Os Defensores, a mais nova empreitada da Marvel no serviço de streaming que reúne os personagens Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro, bem como a maior parte de seus elencos de apoio, para enfrentar a grande ameaça do Tentáculo, encabeçada por Alexandra, personagem de Sigourney Weaver tida como uma das principais novidades do programa. A proposta de juntar esse grupo de heróis urbanos, de temática mais adulta, parecia promissora, especialmente com o envolvimento de um talentoso elenco e uma produção experiente. Mas o resultado passou longe de atingir seu completo potencial.

O que é possível conferir nesse primeiro ano é um produto inconsistente, iniciado por um episódio fraco, desnecessário e sem identidade, e que passeia por uma verdadeira montanha-russa em sua sequência, variando entre bons momentos e outros mal desenvolvidos ou apenas ridículos. São frequentes as cenas em que fica clara a química entre os personagens, mas resoluções como "vamos descobrir isso aqui porque sim!" ou "vamos reunir todos esses coadjuvantes nessa salinha para que eles possam interagir entre si" também são constantes, muitas vezes dentro de um mesmo capítulo. Mesmo a escrita dos protagonistas passa por oscilações, mudando suas formas de pensar e agir apenas para dar andamento à trama. A exceção se aplica a Danny Rand, que se comporta como um babaca petulante e imbecil na maior parte do tempo, com falas escritas que parecem escritas por uma criança de 5 anos. Quem diz que ele é "o Punho de Ferro mais burro que já existiu" durante a série tem total razão (e não é só uma vez).

As cenas de ação geralmente são as partes mais divertidas dos capítulos, mas mesmo elas deixam a desejar um pouco: além de não conseguirem sempre manter o nível, afastaram-se muito da crueza e naturalidade que haviam se tornado marca registrada de Demolidor e Jessica Jones, sendo claramente coreografadas e cheia de piruetas, apesar de ainda terem seus momentos. O ponto mais alto das lutas está no episódio final, mas mesmo ali ainda falta alguma coisa, algum tipo de combinação entre os personagens (no melhor estilo dos "combos" mostrados nos filmes dos Vingadores), além dos problemas já citados.

Falando no desfecho de Defensores, ele traz um encerramento satisfatório para o show, finalizando o arco do Tentáculo de forma decente. Só que, ao mesmo tempo, seus minutos finais deixam uma coisa bem clara: tudo isso não passou de uma forma de fazer ligação para as novas temporadas das séries solo dos personagens (o final do Demolidor, em especial, deixa a casa arrumada para uma adaptação de A Queda de Murdock). Fica escancarado ao fim dos 8 episódios também o quão desperdiçada foi a presença de Sigourney Weaver, atriz marcada na história do cinema pelos longas de Alien e que foi escaladas para interpretar uma personagem com zero carisma, zero ameaça e zero impacto na trama, estando ali apenas porque a organização precisava de uma "líder" (coisa que ela está longe de ser).

Problemas em séries da Marvel na Netflix não são recentes, porém. Seus dois lançamentos anteriores, Luke Cage e Punho de Ferro, foram alvos de críticas à época, o primeiro pela lentidão em seu andamento e sua indecisão temática, enquanto o segundo foi execrado por seu fraco roteiro, trama clichê, más atuações e péssima direção, especialmente para as cenas de ação (alguns deles acabaram sendo transmitidos para Defensores). Mesmo Jessica Jones e Demolidor (especialmente em sua 2ª temporada) não passaram incólumes, mas nada que possa ser comparado com os seriados irmãos.

Não dá para entender o porquê disso estar acontecendo, especialmente se pensarmos que o início de tudo foi o brilhante primeiro ano de Demolidor, que nos presenteou com personagens carismáticos, cenas memoráveis e um dos melhores vilões de todo o universo Marvel. Algo se perdeu no caminho: talvez o rumo, o orçamento, a motivação de criar conteúdo de qualidade ou apenas a sanidade (ou o que restava dela) de Jeph Loeb e Ike Perlmutter, mas o fato é que as séries da editora estão cada vez mais distantes do que era esperado, e Os Defensores se tornou a mais nova vítima dessa onda. Só resta torcer para que Justiceiro e as vindouras temporadas dos shows já existentes corrijam esse triste rumo trilhado pelos personagens da Casa das Ideias na Netflix.

Provavelmente a melhor coisa de "Os Defensores" foi esse belíssimo pôster feito pelo Joe Quesada.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

"Game of Thrones" - Ganhe com o espetáculo ou morra com as falhas


Seja você fã ou não, é impossível não reconhecer a importância de Game of Thrones para a cultura pop atual: um fenômeno mundial, a série se tornou um grande evento que mobiliza milhões de pessoas ao redor do mundo e as coloca na frente da televisão às 22h (ou seja lá qual o horário de transmissão nos demais países do mundo). Cada episódio virou um espetáculo, oferecendo os melhores efeitos especiais que o mundo televisivo já viu, equilibrando uma complicada trama política com criativos elementos fantásticos, e sendo sedutora para um amplo público, seja aquele seu primo adolescente chato, seu amigo nerd hardcore ou a sua mãe (ou até mesmo a sua avó).

Mas há algo de errado com ela.

Desde o início, o programa se destacava por seu primoroso roteiro, a riqueza nos detalhes e a construção de seus personagens. Muito de seu sucesso se deve a isso: sem a brilhante trama, os diálogos arrebatadores e todas as reviravoltas que só este complicado jogo dos tronos foi capaz de nos oferecer, jamais teria sido possível angariar tamanha audiência, por melhor que fosse a computação gráfica ou por mais carismáticos que fossem os personagens. A adaptação dos livros para a TV funcionou muito bem e, mesmo após ultrapassar o ponto em que George R. R. Martin parou sua escrita, o show continuou seguindo o caminho do sucesso, tendo elevado seu próprio nível com a excelente 6ª temporada. Alguns leves deslizes aconteceram, como o treinamento de Arya Stark com os Homens Sem Rosto ou alguns episódios do início da 5ª temporada, especialmente no que diz respeito a Dorne e as Serpentes de Areia. Nada, porém, que comprometesse a qualidade geral.

A atual temporada, 7ª, vem vivendo de uma constante bipolaridade, porém. Ela nos ofereceu até agora alguns momentos memoráveis, é verdade, mas também vem mostrando algumas inconsistências, uma falta de substância e até mesmo diálogos abaixo da média. Para cada monólogo de Olenna Tyrell, há uma incoerente conversa entre Daenerys e Jon Snow sobre os Outros serem um mito ou não (sendo que ela sobrevive ao fogo e tem três dragões, que até pouco tempo eram considerados extintos). Para cada ataque à tropas Lannister como em The Spoils of War, há um Euron Greyjoy saindo ileso após ser ferido por uma das Serpentes de Areia, conhecidas por usarem veneno na lâminas de suas armas. E para cada vez que personagens se teleportam para os pontos mais extremos do mapa de Westeros, há uma Arya demorando cerca de três episódios para percorrer um caminho entre lugares bem mais próximos entre si.

Erros de principiante vem sendo cometidos com as amarras cronológicas ou espaciais. Nem mesmo os grandes momentos escapam ilesos: Como Cersei pediu apenas 15 dias para arrumar a casa para o banqueiro de Westeros? Só de tempo de viagem até os locais já se passaria boa parte disso. Por que Daenerys queimou todos os suprimentos do exército Lannister, sendo que Jon Snow disse pouco tempo antes que todo o estoque de comida seria necessário durante a guerra contra os Outros (e, nesse caso, seria muito mais inteligente da parte dela tomá-los para si)? E Olenna disse que os soldados Tyrell nunca foram grandes lutadores, mas não foram eles quem salvaram a pele de Tyrion e Joffrey nos eventos de Blackwater? Fora a insistência de Daenerys em solicitar que Jon Snow se ajoelhasse a ela, algo irritante e que até mesmo vai contra ao crescimento que a personagem teve nas temporadas anteriores.

Não me entenda mal: eu adoro a série, assisto-a desde a primeira temporada e vi um dos melhores programas da história da televisão sendo construído. Mas é por isso mesmo que acho a crítica válida: não dá para ignorar os pontos mais fortes de tudo o que foi feito durante mais de 6 anos e deixar a qualidade cair justo na reta final. Talvez seja a falta dos livros de George R. R. Martin como base (muito embora ele seja consultor dos roteiristas) ou a necessidade de encerrar o show até o episódio 6 da 8ª temporada (decisão tomada pela própria HBO e que vem se mostrando cada vez menos acertada), mas o fato é que as coisas estão tornando-se mais aceleradas, menos desenvolvidas e se alinhando para um fim pela pura necessidade de ele acontecer. Temos que ser honestos e encarar o que está diante de nossos olhos: Game of Thrones não é mais a mesma.

O espetáculo continua lá, porém, e nisso a série continua incomparável: efeitos especiais cada vez melhores e mais realistas, batalhas de proporções épicas, situações de urgência envolvendo os personagens favoritos do público, a aguardada confirmação de teorias dos fãs e todo seu retrospecto ainda fazem de Game of Thrones um dos melhores e mais divertidos entretenimentos de toda a TV na atualidade. Mas será que só isso é o suficiente? Essa é uma questão que apenas o espectador pode achar a resposta para si.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

A Mulher-Maravilha do "Universo DC: Renascimento" é o ponto de partida perfeito para qualquer leitor

A arte matadora de Nicola Scott e Romulo Fajardo Jr. em "Mulher-Maravilha" #12.

"Algo está ocorrendo... Em minha memória... A história se altera constantemente". São com essas exatas palavras que se inicia o one-shot Mulher-Maravilha: Renascimento, que serviu como base para todas as histórias da mais recente fase da principal super-heroína dos quadrinhos. Como é possível observar, a Princesa de Themyscira está confusa, um reflexo das inúmeras reformulações que a personagem sofreu nos últimos anos. Diana não sabe mais exatamente quem é, não consegue mais se comunicar com os deuses e também não encontra o caminho para seu lar. Ela, mais do que nunca, precisa de ajuda.

E houve quem estivesse disposto a ajudá-la: o premiado escritor Greg Rucka, auxiliado pelos artistas Liam Sharp, Nicola Scott e Bilquis Evely, com as cores de Laura Martin e Romulo Fajardo Jr., assumiu a missão de resgatar a Amazona, relembrando o mundo de suas raízes e redefinindo a personagem de uma maneira moderna, trazendo de volta seus principais conceitos em uma roupagem adequada e condizente com o mundo em que vivemos. Tudo isso envolvido em uma inteligente e complexa trama, e acompanhado de estonteantes traços. O resultado final, como não poderia deixar de ser, é uma obra-prima de narrativa e arte, consolidando esta como uma das melhores e mais consistentes fases da história da personagem.

Parte da iniciativa Universo DC: Renascimento, Rucka se aproveitou do formato quinzenal do relançamento do título para intercalar seus roteiros, com as edições de numeração ímpar fazendo parte de arcos se passando no presente, enquanto as de número par integram arcos que exploram o passado da heroína, indo desde sua repaginada origem até acontecimentos que antecedem por pouco o que vem ocorrendo na história irmã. Essa diferença também permitiu a variação das equipes artísticas: enquanto Liam Sharp e Laura Martin cuidaram das revistas ímpares, Nicola Scott e posteriormente Bilquis Evely, sempre acompanhadas de Romulo Fajardo Jr., ficaram encarregadas dos desenhos e das cores das pares.

Essa passagem, que se encerrou no último 28/06, ao todo contou com quatro desses arcos: As Mentiras, Ano Um, A Verdade e Godwatch. Pequenos fragmentos de uma trama que, no fim, conectou todos os seus eventos e mostrou-se algo muito maior. Muito de seu êxito se deve pela escrita inteligente do roteirista, que soube fazer uso de suas histórias intercaladas e desenvolveu seus mistérios de forma coerente, aproximando passado do futuro e abusando do conceito de ação e reação, demonstrando que nenhum dos eventos que vinham se desenvolvendo eram a toa. Isso permite com que a narrativa funcione das mais variadas formas possíveis, seja na ordem de lançamento das edições, na numeração dos encadernados ou até mesmo na sequência cronológica estabelecida para os acontecimentos.

A capa de "Mulher-Maravilha" #16, que iniciou "Godwatch", por Bilquis Evely e Romulo Fajardo Jr.

Vivendo essas aventuras estão alguns dos mais famosos personagens que compõem a mitologia da Princesa Amazona. Além da personagem-título, retornam Steve Trevor, Etta Candy, Barbara Ann Minerva/Mulher-Leopardo, e também outros antagonistas como Ares, Phobos e Deimos, Doutora Veneno e Doutora Cyber. Rucka também aproveita para resgatar algumas de suas criações para a DC, como Ferdinand, Veronica Cale (que surgiram em sua primeira passagem pela revista, entre 2003 e 2006) e Sasha Bourdeaux (que teve origem em seu tempo escrevendo Detective Comics). Todos eles receberam novas roupagens, mais adequadas para a atualidade e que servem aos propósitos da história. Nenhum deles é mero coadjuvante, porém, de modo que possuem suas próprias personalidades, múltiplas facetas e bem desenvolvidas motivações para seus papéis, sendo tão protagonistas de toda essa história quanto a própria Diana.

Isso não significa, porém, que ela tenha sido jogada para escanteio. Não, a Mulher-Maravilha ainda é a grande estrela de sua própria HQ, em uma de suas representações mais humanas, bondosas e inspiradoras. A personagem retornou às suas origens de uma forma revitalizada e condizente com a modernidade, sendo a embaixadora da paz e do amor no mundo dos homens, mas atualizando alguns de seus principais temas (ela agora é bissexual, por exemplo, e a revista trata sua vida amorosa de forma bem natural). A filha de Hippolyta também recebe diferentes tratamentos conforme o tempo da história: em Ano Um e Godwatch, ela é mostrada de forma muito ingênua e jovial, ainda pouco conhecendo das mazelas de nossa sociedade, enquanto em As Mentiras e A Verdade a vemos vem mais confiante e endurecida pelos anos, mas sem perder seu inerente brilho.

Apesar de grande parte do mérito do quadrinho estar em sua escrita, é injusto deixar de citar a arte como uma das grandes razões de seu sucesso. As equipes artísticas que aqui trabalharam são provavelmente as melhores e mais talentosas de todo o Universo DC: Renascimento, com traços fora de série que criaram algumas das mais belas páginas e capas da história da Princesa Amazona. E cada um dos desenhistas possui suas particularidades: Nicola Scott soube criar desenhos vibrantes e repletos de movimento e vida, justamente o que a origem de Diana precisava; Liam Sharp fez alguns dos painéis mais criativos e detalhados do título, sendo incomparável ao trabalhar com ambientes; e a brasileira Bilquis Evely trouxe uma bem vinda serenidade para a história, com uma pegada suave e bela, ao mesmo tempo que muito distinta, e que caiu como uma luva para a narrativa de Godwatch.

A união de todos esses esforços culminou na edição #25, Perfeito, que amarrou todos os quatro arcos da publicação e concluiu a trama de forma honesta, bonita e que deixou o terreno preparado para quem viesse a seguir. A sutileza de Rucka ao finalizar sua passagem é exemplar, não deixando pontas soltas e dando um desfecho digno para os personagens, especialmente para Diana e Steve Trevor, após tudo o que eles passaram nas 24 edições anteriores. Vale a pena também conferir a edição anual, que conta, entre outras, a história do primeiro encontro entre a Trindade da DC, com alguns momentos impagáveis do Batman (por mais incrível que isso pareça).

Quem cuida atualmente da HQ é Shea Fontana com arte de Mirka Andolfo, e em breve os consagrados James Robinson e Carlo Pagulayan assumirão o título. Mas independente do que vier pela frente, essas 25 edições iniciais são indispensáveis para qualquer um que pretenda ler Mulher-Maravilha, sejam leitores veteranos ou iniciantes que querem conhecer mais sobre a personagem. A passagem de Greg Rucka e seu time artístico rendeu não apenas uma das melhores histórias de todo o Universo DC: Renascimento, mas um verdadeiro clássico moderno, que servirá de referência para todos os futuros envolvidos com o quadrinho, tal qual foi a fase de George Pérez. E dado que sua qualidade e a admiração dos fãs perduram até hoje, maior elogio não pode existir.

A capa de "Mulher-Maravilha" #1, por Liam Sharp e Laura Martin.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

[RESENHA] "Planeta dos Macacos - A Guerra" (2017)


Em uma era em que reboots, remakes, blockbusters genéricos e filmes de super-heróis dominam as produções de Hollywood, temos o caso de Planeta dos Macacos, franquia quase quinquagenária que já se mostrava desgastada, mas que ganhou um novo sopro de vida quando resolveram abordar aquela mitologia por uma ótica, mostrando o início de tudo com Planeta dos Macacos - A Origem em 2011. Três anos depois, o diretor Matt Reeves elevou a saga de César e sua civilização de macacos a um novo patamar em Planeta dos Macacos - O Confronto, abordando temas como discursos de ódio e medo em meio de cenas de ação catárticas, com direito a primatas em cima de cavalos e portando metralhadoras, abrindo portas para um desfecho no mínimo memorável para a trilogia.

Com essa responsabilidade, chegou aos cinemas Planeta dos Macacos - A Guerra, novamente comandado por Reeves, fechando a jornada de César e pavimentando o caminho até o clássico de 1968. Mas, embora tenha A Guerra em seu título, o filme vai muito além do conflito entre macacos e humanos, sendo uma história de vingança, intolerância, sobrevivência, a perda da bondade e o sacrifício por algo maior. Isso tudo, claro, sem deixar de lado símios com armas de fogo, explosões e visuais embasbacantes, em uma execução primorosa que balanceia o artístico com o comercial como pouco visto antes.

O trajeto do personagem principal nesse capítulo final é tortuoso, sofrido e repleto de difíceis escolhas, especialmente quando se deixa consumir por ódio tamanho que o faz ser atormentado em boa parte do tempo pelo fantasma de Koba, macaco que se mostrou ser a personificação do mal no longa anterior. Mesmo acompanhado e aconselhado por seus amigos Maurice, Luca e Rocket, que acabam encontrando o divertido Bad Ape e uma garota humana pelo caminho, suas decisões, motivadas por seus sentimentos e que beiram o egoísmo, acabam colocando o grupo de primatas sob sua proteção em perigo, por mais que, em teoria, tenham sido tomadas para protegê-los. Torna ainda mais dura essa caminhada a trilha sonora de Michael Giacchino, densa, pesada, como cada consequência das atitudes do líder.

A bem construída trama tem seu ápice nos diálogos, por mais inusitado que isso pareça. Mas são nesses momentos que humanos e macacos brilham, mostrando que, apesar das claras diferenças, eles são muito mais parecidos do que podem imaginar. Andy Serkis e Woody Harrelson são um destaque a parte, com ambos sendo a força motriz do filme, transmitindo raiva e loucura a cada vez que entram em tela, especialmente quando contracenam juntos, gerando algumas das mais memoráveis cenas de toda a trilogia. Seus personagens interagem através de uma interessante dinâmica, que mistura ódio e respeito mútuo, fazendo do confronto algo além da mera sobrevivência e tornando-o pessoal, por mais que o Coronel insista em dizer o contrário.

Apesar do foco voltado para os macacos, no fim o longa diz muito sobre nós como espécie, por nossa insistência em conflitos, nossa intolerância e nossa falta de união mesmo nos momentos mais difíceis: se continuarmos assim, vamos (e talvez até mereçamos) ser todos extintos. E é isso, junto a outras questões tão humanas, mesmo se tratando de animais, que faz com que Planeta dos Macacos - A Guerra seja tão especial, um encerramento em alto nível de uma das melhores trilogias que agraciou o cinema nos últimos anos.

TRAILER: