segunda-feira, 16 de abril de 2018

[RESENHA] "Um Lugar Silencioso" (2018)


O cinema se tornou algo barulhento. Os grandes blockbusters são feitos de tiros, explosões, motor de veículos roncando e tudo mais o que as equipes de efeitos e mixagem de som forem capazes de criar ou capturar com precisão. O público paga cada vez mais caro por salas com o melhor equipamento sonoro disponível, para desfrutar de sua experiência com o mais alto grau de precisão. O que um dia já foi uma arte sequencial quieta, cujas falas eram mostradas em quadros estáticos e escritos após as cenas e as únicas marcações audíveis eram das músicas que compunham as trilhas, hoje é dominado por diálogos, discursos, gritos, ruídos, estrondos e composições que variam entre contidas e escandalosas. Não que tenhamos que voltar a fazer longas à moda antiga, pelo contrário: esta foi uma das alterações que mais favoreceu o meio, e temos que fazer o melhor uso possível dela. Mas é inegável que, em comparação ao passado, este é um dos pontos que mais mudou.

Um Lugar Silencioso (A Quiet Place no original) vai na contramão disso tudo e mostra que não é preciso exagerar nos efeitos audíveis para se colocar uma produção nas telas atualmente. Não que ele seja um filme mudo em pleno 2018, mas a ausência sonora calculada como principal mote da história transforma uma sala de cinema em um local quieto e, aproveitando-se da potência das caixas de som atuais, faz com que cada sussurro vire uma fala inteligível, cada corriqueiro barulho se torne um estampido e cada estouro seja como o bradar dos deuses do Olimpo.

A trama retrata a família Abbott tentando sobreviver em um mundo que foi devastado por monstros implacáveis e resistentes que são atraídos pelo som, e o segredo para manter-se vivo, como não poderia deixar de ser, é não fazer barulho. A atmosfera de tensão criada pelo diretor John Krasinski (conhecido por seu papel como Jim Halpert na versão estadunidense da série The Office) denuncia a urgência da situação vivida por aquelas pessoas de não poderem emitir um ruído sequer, algo impensável para os padrões de vida atuais, ao ponto de envolver o espectador na jornada do grupo e mantê-lo o mais quieto possível. E ele o faz por mais de 90 minutos.

A ausência sonora também permite a Krasinski brincar e experimentar com recursos visuais menos convencionais. Quando, por exemplo, as cenas são abordadas do ponto de vista da filha mais velha dos Abbott, que é surda, o som some por completo e o enfoque vai todo para a experiência sensorial do que é visível para a garota, uma experiência ao mesmo tempo sensível e agonizante. Também entra na equação da criatividade o uso da linguagem de sinais pela família para se comunicar, uma forma efetiva e silenciosa que é justificada pela condição especial auditiva da citada garota.

Em um mundo tão quieto, cada gesto físico é crucial para transmitir um sentimento ou pensamento, e é nesse ponto que o elenco mais se destaca. A atriz Emily Blunt, principal foco de Um Lugar Silencioso, deixa transparecer todo seu talento em uma atuação de muitas expressões, olhares e poucas palavras, fazendo com que a situação vivida por ela e sua família até pareça normal para a audiência (afinal, aquilo virou o normal para o grupo). O mesmo pode ser dito sobre os demais atores, John Krasinski (sim, ele também atua em seu filme) e os mirins Millicent Simmonds e Noah Jupe, que representam de forma natural a normalidade de suas vidas cotidianas em contraste com a intensidade e o absurdo do mundo que os cerca.

Fora a intensidade e a criatividade empregadas na confecção do longa, seu principal trunfo está na história que conta. Concebido como um terror por Bryan Woods e Scott Beck, o roteiro escrito por John Krasinski em parceria com a dupla deixa um pouco de lado os elementos do gênero em prol do suspense, do senso de urgência e do drama familiar. Em meio a sustos e desespero, há uma uma definida trama sobre perda, amor e a responsabilidade dos pais para com seus filhos, temas estes transmitidos com sensibilidade em especial por Krasinski e Emily Blunt, talvez por serem casados na vida real e conhecerem as preocupações na constituição de uma família, talvez pelo profissionalismo e qualidade de ambos os atores.

Dizem que as melhores obras de horror são aquelas que mais revelam sobre a natureza humana. Se isso é de fato verdade, Um Lugar Silencioso ganhou seu lugar nesse seleto rol. A abordagem de uma história sobre família em meio ao um mundo devastado, aliado ao clima tenso e a inventividade na ausência de recursos sonoros fazem do longa uma experiência como poucas no cinema e mais uma forte adição ao movimento de novo fôlego ao gênero de terror nas telas. Só não esqueça de respirar enquanto assiste ao filme, mas faça-o silenciosamente.

TRAILER:


quinta-feira, 12 de abril de 2018

[RESENHA] "Jogador Nº 1" (2018)


Não é de hoje que a cultura pop tem se pautado pela nostalgia. Há alguns anos que a indústria do entretenimento tem resgatado algumas de suas principais propriedades de sucesso em um passado não muito longínquo e as reformulando ou repaginando para apresentar a um novo público. O retorno de sucesso de franquias como Star Wars ou Jurassic Park/World não me deixa mentir. O movimento é atrelado principalmente às décadas de 1970 e 1980, vistas por muitos como o auge da produção cultural da sociedade (a veracidade ou não dessa crença é assunto para outro texto), de onde são tiradas estéticas, músicas e até mesmo referências a obras consagradas do período. Isso tudo fica escancarado se olharmos para filmes como Thor: Ragnarok, os dois Guardiões da Galáxia ou para a série fenômeno da Netflix Stranger Things, apenas para citar alguns exemplos. Goste ou não, há uma espécie de retroalimentação, quase uma autofagia, conduzindo o cinema e a televisão, e embora isso pareça legal e divertido em primeiro momento, pode vir a ser muito prejudicial em um futuro próximo, minando a criatividade e realizando produções que acham possível se sustentar por aquilo que é raso, superficial e que deveria ser das menores preocupações do público.

Culminando disso tudo, temos Jogador Nº 1. O best-seller do autor Ernest Cline foi escrito antes de tudo isso se iniciar, com lançamento em 2011. Nele, o escritor colocou tudo o que cresceu amando, referenciando a filmes, séries, games, quadrinhos, livros e música (especialmente Rush, com um trecho inteiro dedicado à faixa 2112). Cline nasceu em 1972, tendo vivido sua infância durante os anos 1970 e a juventude durante a década 1980, ou seja, a maior parte das referências que aparecem na obra são destes períodos. Talvez estejamos diante do marco zero de todo esse movimento nostálgico que afetou a cultura pop atual (mas, novamente, isso é assuntou para outra postagem). O fato é que, devido ao potencial do material dentro de toda essa onda, o livro ganhou uma adaptação para o cinema, que chegou às salas de exibição brasileiras no último 29 de março e com lançamento mundial no dia seguinte.

A transposição entre mídias neste caso era um movimento arriscado, pois a chance do conteúdo se perder em um emaranhado de referências visuais era enorme. O homem certo encabeçou o projeto, no entanto: Steven Spielberg, auxiliado pelo roteiro de Zak Penn e do próprio Ernest Cline, soube equilibrar a balança e ir além do superficial, entregando um filme que, mais que uma homenagem aos clássicos da década de 1980, é uma aventura pura, que entretém, tem coração e faz jus aos grandes longas da época, encontrando espaço até mesmo para pontuar uma ou outra crítica, seja à desigualdade social ou à ultradependência tecnológica.

A trama se passa no ano de 2045 e apresenta o planeta em um triste cenário de crescimento demográfico descontrolado, no qual as pessoas desistiram de resolver os problemas e, para escaparem da realidade, conectam-se à OASIS, uma enorme simulação que mistura a ficção e a fantasia com a percepção humana através do uso de equipamentos de realidade virtual, cujo criador James Halliday (Mark Rylance) veio a falecer deixando um último desafio aos usuários: aquele que encontrasse primeiro três chaves escondidas naquele mundo herdaria sua criação, sua empresa e sua fortuna. É nesse cenário que encontramos Wade Watts (Tye Sheridan), jovem que vive na cidade de Columbus, Ohio (uma das de maior população naquele momento), junto de sua tia no que parece uma versão mais avançada das favelas que conhecemos. Dentro da OASIS, ele é conhecido como Parzival e é um dos principais caçadores dos itens deixados por Halliday. Sua busca logo cruza os caminhos de outros jogadores, como Aech (Lena Waithe), Art3mis (Olivia Cooke), Daito (Win Morisaki) e Sho (Phillip Zhao), ao mesmo tempo que tem que lidar com os contratados da IOI e o CEO da empresa, Nolan Sorrento (Ben Mendelsohn), todos com o mesmo objetivo.

A aventura vivida por Wade e seus aliados segue a estrutura básica da jornada do herói, muito embora a grande conquista do grupo, no fim, esteja na relação desenvolvida por eles, seja dentro ou fora da OASIS. As situações que o grupo vivencia, seja na resolução dos desafios para encontrar as três chaves ou nos riscos que enfrentam no mundo real, acaba por uni-los e estabelecer laços duradouros, algo que fica claro durante os acontecimentos do desfecho. Muito disso chega a ser palpável através da química existente entre o quinteto, ainda que só os vejamos em suas versões virtuais na maior parte do tempo. O vilão vivido por Mendelsohn, ainda que dentro do cliché do "corporativista malvado", também convence e faz a história girar, mais uma vez dando oportunidade ao ator de demonstrar seu talento na tela.

Grande parte do apelo de Jogador Nº 1 reside, porém, no apelo visual. A projeção do mundo para 2045 é plausível dentro do universo do longa, com os avanços tecnológicos sofrendo uma estagnação após o advento da OASIS, não diferindo muito do que já temos acesso hoje. As "pilhas", um amontoado de trailers e contêineres empilhados que muito se assemelham às favelas brasileiras, também são uma realidade possível em um cenário de descontrolado crescimento populacional e aumento da disparidade de renda. Mas o grande destaque é, como não poderia deixar de ser, na OASIS. As cenas dentro da simulação são todas feitas através de computação gráfica, e todos os personagens foram criados através de um intenso processo de captura de movimentos, garantindo assim uma expressividade autêntica a eles. O desenvolvimento de todo esse universo próprio através de efeitos especiais também permite a Spielberg a ousar nas cenas de ação, que são dignas dos games de maior sucesso. E claro, por ser um mundo virtual, a customização dentro da OASIS abre a porta para um infinitude de referências, de um jeito que algumas vezes beira o impossível identificar todas. As que servem algum propósito à história, no entanto, provavelmente foram escolhidas a dedo e são o deleite do espectador.

A parte sonora do filme também colabora para a imersão na experiência, e o uso dos efeitos originais de muitas das propriedades que ali aparecem dão o ar de autenticidade necessário ao vivido dentro daquele imenso jogo digital. A trilha sonora, como esperado, é muito calcada em sucessos das décadas de 1970 e 1980, com direito a artistas como Van Halen, Joan Jett, Bee Gees, Tears For Fears, Blondie, Prince, Hall & Oates etc. As composições originais, por sua vez, ficaram ao encargo de Alan Silvestri, que traz a carga certa de aventura oitentista ao longa e ainda se permite usar trechos de outros famosos trabalhos de sua autoria, como é o caso do tema da trilogia De Volta Para o Futuro.

Jogador Nº 1 colocou Steven Spielberg novamente em contato com suas raízes e fazendo aquilo que sabe de melhor: uma aventura clássica, assim como várias daquelas que dirigiu ou produziu no auge de sua carreira durante os anos 1980. A repaginação da fórmula de sucesso acaba por agradar tanto a nova geração quanto os mais nostálgicos, sendo um produto que não tem medo ou vergonha de entreter do início ao fim. O festival de referências certamente colaboram para prender a atenção de uma determinada parcela mais saudosista do público, mas o longa não se resume a isso e entrega uma diversão honesta e até mais inteligente que o esperado. Entretanto, talvez seja a hora de Hollywood parar e pensar no caminho que suas produções estão tomando. Talvez dessem encontrar um novo rumo e deixar essa onda oitentista e de alusões ao passado de lado. Até porque, depois desse filme, é bem capaz que todas as combinações possíveis já tenham sido feitas.

TRAILER:

segunda-feira, 2 de abril de 2018

BALANÇO MUSICAL - Março de 2018


Olá! Seja bem-vindo ao meu projeto Balanço Musical, uma coluna mensal na qual falo sobre música, o que escutei no mês que se passou, o porquê das escolhas, o que me influenciou nesses dias, e publico uma playlist com uma faixa referente a cada dia do período. O objetivo não é nada além de escrever um pouco mais sobre música no blog, apresentar algumas coisas diferentes e dar às pessoas a oportunidade de conhecer novos artistas e canções. As postagens são publicadas sempre no primeiro dia útil de cada mês, o que pode ou não coincidir com o dia 1º .


Março costuma sempre ser um mês interessante: as descobertas do desafio musical feito em fevereiro costumam ecoar no que ouço durante o período, com algumas (sempre bem-vindas) adições. Pode fazer a comparação entre as playlists da segunda e terceira postagens do Balanço Musical no último ano: muitas das bandas são as mesmas. É um processo natural e todos tendem a passar por ele. Poxa, se eu conheci um artista diferente e gostei das músicas que escutei, por que eu não iria atrás de mais material do mesmo? É assim que se expande seu conhecimento musical.

Desta vez foi diferente, no entanto. Não totalmente: em comparação com o último mês, artistas como Blondie, Trivium e The Night Flight Orchestra permaneceram na seleção. Mas foram só eles. O resto da lista é composta pelas várias novidades que foram lançadas em fevereiro e março e que pude conferir no decorrer dos últimos dias, influências externas (sendo a principal o Lollapalooza) e, claro, músicas que tive vontade de ouvir aleatoriamente. E o resultado acabou sendo positivo, pois apenas um grupo apareceu mais de uma vez dentro da seleção (os ingleses do Shame), que é uma das mais variadas dentre todas que já fiz para o projeto.

Apesar de algumas adversidades, março acabou sendo, no geral, mais agradável que os meses anteriores, e isso acabou se refletindo tanto na tonalidade da playlist, que conta com bem menos músicas pesadas (seja em instrumental ou em letra) que o habitual, quanto nos números. Foi por pouco que não superei tanto meu recorde de reproduções em um único mês (1.026 em maio de 2017) quanto o de faixas executadas em um dia (94 em 1º de junho último). De acordo com meu last.fm, foram 1.018 músicas ouvidas no período, com 91 delas só no 30. Uma quantidade alta, algo que felizmente também se refletiu na qualidade.

Retornando após sua primeira aparição no post de janeiro estão as Recomendações do Mês, nas quais falarei de forma mais aprofundada sobre meus destaques pessoais. Irei apenas me aprofundar nos principais artistas de março, no entanto, devido a minha atual falta de tempo, e os álbuns e faixas serão apenas citados. Ainda assim, vale a pena checar o que vem a seguir.

ARTISTAS DO MÊS:

- Rush: o trio canadense é uma banda que eu sempre procuro escutar, às vezes mais, às vezes menos. Eles foram parte essencial do meu março, seja nos melhores ou nos mais difíceis momentos, o que de certa forma comprova sua versatilidade. Também acabou por combinar com o lançamento do filme Jogador Nº 1, cujo livro homônimo que o deu origem tem grande influências do grupo. Eu não tinha ideia deste fato até assistir ao longa e depois ir atrás de mais informações sobre a obra original, e foi uma coincidência muito grata.

- Blondie: a principal influência de fevereiro que teve continuidade neste mês. A banda liderada por Debbie Harry é incrível, viciante e conta com um repertório diversificado para nenhum fã de música botar defeito.

- My Chemical Romance: sempre tive um preconceito besta com o movimento Emo, mais por questões visuais do que pelo som em si, mas mesmo assim acabei me distanciando bastante de qualquer coisa relacionada, entrando em contato com uma outra música esporadicamente. Uma delas é Dead! do My Chemical Romance e, por gostar da faixa, acabei dando chance ao álbum The Black Parade. Não me arrependo, fiquei impressionado com a qualidade e certamente irei atrás dos outros trabalhos do grupo liderado por Gerard Way.

- Judas Priest: o lançamento de Firepower colocou os ingleses de volta no meu radar. A força e qualidade indiscutível do novo trabalho me fez ter vontade de revisitar alguns clássicos.

- Volbeat, Pearl Jam e The Killers: apesar de pouco em comum, as três bandas fizeram parte do último Lollapalooza e acabaram marcando parte importante do meu mês.

- Oasis: uma das bandas que mais marcou minha vida não precisa de justificativa para aparecer aqui. Mas o bom show de Liam Gallagher no Lollapalooza teve grande influência nesse processos.

ÁLBUNS DO MÊS:

- My Chemical Romance - The Black Parade

- Judas Priest - Firepower

- Shame - Songs of Praise

- Steven Wilson - To The Bone

MÚSICAS DO MÊS:

- Shame - Concrete

- Rush - The Garden

- Pet Shop Boys - West End Girls

- My Chemical Romance - Teenagers

- T-Rex - Get It On

Confira abaixo a playlist de março de 2018:

quarta-feira, 28 de março de 2018

O sucesso de "Pantera Negra" é a vitória da representatividade


Pantera Negra é um sucesso. Você já deve saber disso se acompanhou as notícias das últimas semanas. O mais novo filme da Marvel Studios vem quebrando diversos recordes de bilheteria, levando milhares de pessoas ao redor do mundo a encherem salas de cinema. Também é um dos principais destaques da história do agregador Rotten Tomatoes, sendo o longa com o maior número de críticas positivas até o momento. E essa recepção acalorada do público e da mídia especializada vem para silenciar um dos argumentos mais falaciosos que já apareceram em discussões sobre cultura pop nos últimos anos: que representatividade e diversidade não vendem.

É nítido o impacto da adaptação para a população negra ao redor do mundo. Através de notícias e postagens em redes sociais, é possível ver aqueles que assistiram ao filme abraçarem a cultura e o afrofuturismo da nação fictícia de Wakanda, seja através da saudação feita pelos personagens ou pelo lema "Wakanda Forever". E apesar de ainda não haver números absolutos de bilheteria, é possível estimar que o longa mobilizou mais pessoas negras que o usual. Segundo levantado durante o episódio do podcast Confins do Universo dedicado a Pantera Negra, cerca de 38% daqueles que compraram ingressos em pré-venda são negros, porcentual muito mais expressivo que a média para produções do gênero. Se tal número se manteve durante a venda normal, ou até mesmo aumentou, o objetivo de se comunicar com aqueles que representa em tela foi cumprido com louvor.

Ainda mais importante que isso tudo, porém, é ver o aspecto social que a obra trouxe a tona. Não foram poucas as campanhas visando a arrecadação de fundos para levar crianças ao cinema para verem Pantera Negra, seja nos Estados Unidos ou aqui mesmo no Brasil, com destaque às iniciativas do Load Comics, da Estéfany Rocha, da Vitória Sant'Anna Silva e do artista Rafael Albuquerque. Imagens de garotos e garotas se identificando com o que viram após saírem de uma sessão do longa também rodaram a internet, e histórias como a do jovem que resolveu voltar a estudar após assistir ao filme só mostram que estamos diante de um fenômeno não apenas cinematográfico, mas também cultural.

No último ano, Mulher-Maravilha abalou a indústria do cinema ao mostrar mostrar que um filme repleto de representatividade feminina poderia ser um sucesso de crítica e arrecadação. Em 2018, o bastão da representatividade foi passado com louvor para Pantera Negra, que segue marchando para se tornar um dos maiores longas de todos os tempos, seja através de sua bilheteria, sua recepção pela crítica ou o impacto cultural que sua apresentação da cultura africana nas telas proporcionou, além dos fantásticos personagens que introduziu ao Universo Cinematográfico Marvel. Motivos não faltam para que o povo negro ao redor do globo possa dizer "Wakanda Forever" com um sorriso no rosto.

quinta-feira, 1 de março de 2018

BALANÇO MUSICAL - Fevereiro de 2018


Olá! Seja bem-vindo ao meu projeto Balanço Musical, uma coluna mensal na qual falo sobre música, o que escutei no mês que se passou, o porquê das escolhas, o que me influenciou nesses dias, e publico uma playlist com uma faixa referente a cada dia do período. O objetivo não é nada além de escrever um pouco mais sobre música no blog, apresentar algumas coisas diferentes e dar às pessoas a oportunidade de conhecer novos artistas e canções. As postagens são publicadas sempre no primeiro dia útil de cada mês, o que pode ou não coincidir com o dia 1º .

Dando continuidade ao que tornei uma tradição pessoal nos últimos dois anos, fevereiro se tornou o mês em que eu cumpro o desafio de, a cada dia, ouvir um álbum que eu não conhecia antes. Musicalmente saudável e enriquecedor, é um período o qual reservo exclusivamente para descobrir novos artistas, conferir alguns clássicos que passaram despercebidos nesses anos e corrigir certas injustiças com alguns dos meus artistas favoritos. O resultado é sempre positivo e, das últimas vezes, acabou pautando boa parte do que escutei pelo resto do ano.

E como numa louca continuação de janeiro, fevereiro também foi um mês intenso. Muita coisa importante acontecendo ao mesmo tempo, muitas decisões a serem tomadas, muitas novidades, mudanças de rotina e, como não poderia deixar de ser, problemas, o que culminou em muito estresse (e nem mesmo o Carnaval foi suficiente para aliviar a sensação). Isso tudo só aumentou o valor do desafio, porém, como uma forma de espairecer, de distrair a cabeça de tudo o que é cercado pelo cotidiano e relaxar corpo e mente, ou seja, tornou ele terapêutico. Aliado às boas descobertas que fiz, acabou por ser ainda mais prazeroso que o usual.

No que diz respeito a números, fevereiro pode ser o mês mais curto de nosso calendário, mas acabou por ser um dos que mais ouvi música. Segundo meu last.fm, foram 941 faixas executadas nos últimos 28 dias, perdendo apenas para dezembro (982) e maio (1.026) do último ano. Fosse como os demais meses do ano, eu facilmente teria superado meu recorde caso houvesse mantido minha média diária de scrobbles (32). Muito disso é devido ao desafio, claro, mas também é um reflexo do quão complicado foi o período, já que tendo a escutar mais músicas quando preciso me concentrar ou descansar.

Assim como em 2017, a playlist de fevereiro é formada inteiramente por canções que fazem parte dos discos "inéditos para mim" que escutei. A diferença para as tentativas anteriores é que desta vez não repeti artistas, diversificando mais minhas escolhas e tornando muito mais vasta a gama de sonoridades. Outra novidade é que, em um ato de sandice de minha parte, achei que seria uma boa ideia escrever brevemente sobre cada um dos álbuns ouvidos. O resultado pode ser conferido logo a seguir.

- The Night Flight Orchestra - Internal Affairs: uma ótima estreia do grupo, já calcada no Hard Rock e AOR que pavimentaram o caminho para seu melhor e mais recente trabalho.

- Talking Heads - Talking Heads '77: um clássico absoluto, muito diversificado e repleto de experimentações.

- Blondie - Best of Blondie: sei que há quem seja contra coletâneas, mas esta é uma que merece atenção. Petardo atrás de petardo, o disco foi lançado durante o auge da banda e é uma ótima pedida para um primeiro contato.

- Killing Joke - Laugh? I Nearly Bought One!: outra compilação, mas com resultado abaixo da anterior. Queria conhecer mais do som do Killing Joke, mas infelizmente foram poucas as músicas que agradaram. Talvez seja mais recomendado conhecê-los direto por um álbum.

- Black Label Society - The Blessed Hellride: tido por muitos como o melhor trabalho do grupo encabeçado por Zakk Wylde, o trabalho mistura Metal e Southern Rock com êxito e é marcante até o último segundo.

- The Cranberries - Bury The Hatchet: um bom CD do Cranberries que tem suas escorregadas, mas entrega um resultado positivo e algumas canções contagiantes como Desperate Andy.

- Dan Auerbach - Waiting on a Song: enquanto o Black Keys segue com suas atividades suspensas, uma boa pedida é conferir este álbum do vocalista e guitarrista do grupo, que se afasta um pouco do blues, mas continua sabendo mesclar o Rock a uma sonoridade mais Pop como poucos.

- Trivium - Shogun: um brilhante trabalho do Trivium que equilibra com perfeição agressividade e melodia, dando uma aula de como se fazer um disco de Metal moderno.

- MGMT - Little Dark Age: lançado no último mês, o novo registro de inéditas do MGMT é divertido e viciante, ao mesmo tempo que foge de algumas convenções e se arrisca.

- Siouxsie and the Banshees - Peepshow: merece o título de sucessor do excelente Tinderbox, prosseguindo com a sonoridade pouco conveniente do grupo e ao mesmo tempo emplacando grandes canções.

- The Cult - Ceremony: segue a linha dos lançamentos anteriores do Cult, mas o estilo já começava a dar alguns sinais de fadiga. Uma audição muito agradável e recomendada, ainda assim.

- Camel - Mirage: eis uma banda de Rock Progressivo que merecia ter recebido mais destaque em sua época. A evolução das músicas dentro de suas longas durações é incrível. Prato cheio para os fãs do gênero.

- Living Colour - Shade: o mais recente trabalho do Living Colour acabou passando despercebido pelo meu radar no último ano, o que é uma pena, pois certamente teria entrado nas listas de melhores.

- Venom - Black Metal: nunca havia ouvido este clássico pois não o achava em uma qualidade sonora satisfatória pela internet. Felizmente veio esta versão remasterizada e finalmente pude conferir um grande disco que deixei passar em branco por anos.

- Frank Carter & The Rattlesnakes - Modern Ruin: o segundo trabalho do grupo surpreende por sua acessibilidade dentro do Hardcore (que aqui mais soa como Hard Rock). Este é um nome para se ficar de olho nos próximos anos.

- Joe Satriani - What Happens Next: o mais novo disco de Joe Satriani é não apenas um dos melhores de sua carreira, mas também um dos melhores do Rock Instrumental. Ponto.

- Kendrick Lamar - Black Panther The Album Music From And Inspired By: a trilha sonora do mais recente longa da Marvel Studios teve a curadoria de Kendrick Lamar, em colaboração a diversos outros artistas, e agradou até mesmo a mim, que não muito chegado em Rap. E isso quer dizer muito sobre sua qualidade.

- Temple Of The Dog - Temple Of The Dog: o único CD deste supergrupo do Grunge faz jus à sua fama, impressionando pela qualidade de suas composições.

- KISS - Creatures of the Night: provavelmente o disco do quarteto que mais flerta com o Metal, apresentando um KISS agressivo, pesado e técnico. Injustiçado à época, dá para dizer que hoje é um clássico cult.

- Bruce Springsteen - Devils and Dust: um belíssimo trabalho do "The Boss", que não tem medo de mostrar suas influências de Country e até mesmo Gospel mescladas a um Rock da melhor qualidade.

- The Verve - Urban Hymns: lembra muito Oasis, mas tem sua identidade própria, trazendo a tona um pouco do melhor que o Britpop tinha para oferecer.

- Machine Head - Through The Ashes of Empires: o Machine Head é uma das minhas bandas favoritas desde que os conheci, mas confesso que até hoje não ouvi toda a discografia dos caras. Este era um dos que me faltava escutar, e a experiência foi similar a de Catharsis, devido à transição entre o Nu Metal e a sonoridade que viria a marcar os três álbuns que sucederiam Through The Ashes of Empires.

- Alice Cooper - Billion Dollar Babies: outro clássico que deveria ser obrigatório, este álbum parece até uma coletânea, tamanha a qualidade das músicas.

- LCD Soundsystem - american dream: o álbum que faturou o primeiro lugar em muitas listas de melhores de 2017 tem uma inegável qualidade, mas acabou por não me agradar em uma primeira ouvida. Talvez eu o compreenda melhor caso dedique mais tempo a ele. Ou então é superestimado mesmo.

- The Cure - Disintegration: queria conhecer mais de The Cure ouvindo um disco completo deles e resolvi começar pelo dito melhor deles. Não foi a melhor das ideias, uma vez que a sonoridade apresentada é densa e repleta de experimentações. Pouco acessível, acredito que hajam opções melhores para se familiarizar o grupo além do óbvio.

- Pond - The Weather: um muito interessante registro que mistura o som oitentista ao Rock Progressivo com qualidade e deixa o ouvinte satisfeito com o resultado final.

- Zakk Wylde - Book of Shadows: provavelmente o meu favorito do mês, o primeiro CD solo mostra uma outra faceta do guitarrista, voltada para o Southern Rock e executada com um primor que pouco se vê.

- Tin Machine - Tin Machine: fechando fevereiro, o projeto de David Bowie voltado para o Hard Rock, do qual eu não tinha conhecimento até poucos dias atrás. A proposta é pouco convencional, mas o resultado é bem interessante, aliando a sonoridade típica do gênero a algumas experimentações que em muito lembram obras do vocalista como Aladdin Sane ou Station to Station.

Depois de todas estas análises, confira a playlist de fevereiro de 2018, que contém um representante para cada um dos álbuns vistos acima: