quarta-feira, 13 de setembro de 2017

"Batman: A Máscara do Fantasma" voltou à Netflix e você precisa assisti-lo


Batman é um dos personagens mais conhecidos dos quadrinhos e já foi objeto de várias transposições para outras mídias, seja cinema, televisão ou video-games. Uma das mais famosas e celebradas é Batman - A Série Animada, desenvolvida por Bruce Timm e Eric Radomski ao lado de nomes como Paul Dini, Kevin Nowlan, Dan Riba, Boyd Kirkland, entre outros. Com sua narrativa madura e roteiros bem trabalhos, a animação, com estilo inspirado no Superman de Max Fleischer dos anos 1940, revolucionou toda a industria na época e até hoje é referência para muitos (inclusive para este que vos escreve), sendo considerada a melhor adaptação do personagem para além das páginas das HQs.

O sucesso do desenho acabou gerando alguns longas animados ao longo dos anos de sua duração. Um deles, o primeiro na linha de lançamentos, que em breve será lançado em Blu-Ray e acaba de voltar ao catálogo da Netflix após um longo período, é Batman: A Máscara do Fantasma, tido por muitos como um dos melhores filmes protagonizados pelo Morcego em todos os tempos (e, para alguns, O melhor). E você deveria dar uma chance a ele, goste ou não de animações, pois a obra certamente vive a altura de sua fama.

Carregada de todo o clima noir que marcou A Série Animada, a história nos mostra o herói tendo que investigar algumas mortes que vem sendo causadas pelo indivíduo que se intitula O Fantasma, um vilão inédito criado exclusivamente para o longa, ao mesmo tempo que deve lidar com uma figura importante de seu passado, o resto do crime em Gotham e, claro, o sempre imprevisível Coringa. A trama detetivesca se dá entre o desenvolvimento de eventos do presente intercalados com flashbacks que apresentam a origem do personagem, desenvolvida de tal modo que não deixa a dever em nada a outras de suas consagradas gêneses, como Batman: Ano Um ou Batman Begins.

O roteiro é pautado por um enredo intrigante, avançando conforme Batman desenvolve sua investigação e sendo marcado por algumas viradas surpreendentes que só prendem ainda mais o espectador. Ao mesmo tempo, dá espaço para o desenvolvimento de seus personagens de forma competente, de modo que não apenas o protagonista, mas também seus coadjuvantes e antagonistas, ganham novas camadas que os tornam mais cativantes e, ao mesmo tempo, falhos. Muito disso ocorre nas sequências situadas no passado, cirurgicamente realizadas para dar a profundidade ideal ao filme, sem esquecer que o público almejado é o de crianças e adultos.

Outras das principais características da histórica adaptação televisiva também dão as caras aqui, como a animação de qualidade ímpar, a trilha sonora de Shirley Walker e, claro, as vozes. Kevin Conroy, Mark Hamill e os demais membros do elenco fazem, como de praxe, um trabalho além do comum em A Máscara do Fantasma, entregando toda a intensidade exigida para dar vida a seus personagens e sendo um dos mais fortes pontos de toda a experiência (a risada do Coringa de Hamill sempre me dará arrepios de tão insana). Cabe a ressalva, porém, de que a versão dublada em português pouco deixa a desejar também, contando com alguns grandes nomes como Márcio Seixas e Isaac Bardavid.

É engraçado pensar na época em que Batman - A Série Animada era exibida e que Batman: A Máscara do Fantasma foi lançado, pois quase ao mesmo tempo vieram também Batman Eternamente e Batman e Robin, dois dos filmes já estrelados pelo Homem-Morcego mais execrados por crítica e público, que foram por um caminho totalmente diferente do que deveria ser seguido e estava logo ali, na cara dos executivos da Warner, sendo um dos maiores sucessos daqueles dias. Perto deles, A Máscara do Fantasma se sobressai e muito. Mas mesmo hoje, após o estrondoso sucesso da trilogia de Christopher Nolan, esse longa animado continua relevante, tendo sua qualidade sobrevivido ao teste dos anos, batendo de frente com as adaptações live-action e superando a maior parte (se não todos).

E se eu não consegui te convencer, tenho certeza que o vídeo abaixo vai (mas cuidado, contém SPOILERS):

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Tem vezes que é melhor não escrever nada

Ele aprova.

Quem escreve com uma certa regularidade já passou por um dos infames bloqueios criativos, quando as ideias, a organização e até mesmo a vontade de escrever abandonam o corpo, saem para um happy hour e te deixam a esmo, tentando espremer qualquer coisa que se assemelhe com um texto, mas sem sucesso. É uma das situações mais frustrantes do mundo da escrita, que deixam qualquer um sentindo-se impotente, infértil. E o pior de tudo: não dá para fazer nada além de esperar por alguma inspiração, algo que simplesmente não tem tempo certo.

Mas e quando você até tem uma ideia e um foco, porém os acha insuficientes?

No sábado retrasado (02/09), fui ao cinema ver Bingo: O Rei das Manhãs. Adorei o filme, muito divertido, bem realizado, ótima trilha sonora e com uma mensagem bacana. E, como de praxe, queria escrever algo sobre ele para postar aqui. Mas, diferente de Atômica, que assisti no mesmo dia e publiquei um texto sobre, eu não consegui desenvolver nada de bom. Não queria fazer um resenha pois, apesar de ser o mais apropriado, acho que venho postando resenhas demais ultimamente. E também não quis usar as de um parágrafo, já que esse formato estou deixando exclusivamente para os longas de super-herói.

Minha ideia era escrever um texto falando sobre algumas das principais características de Bingo: o retrato dos excessos do protagonista, o foco em seu relacionamento com o filho, o retrato fiel e a estilização dos anos 1980 no Brasil. Mas seria chover no molhado. Todos esses pontos já foram analisados (e de forma muito melhor do que eu seria capaz, devo dizer) nos principais portais sobre cinema e cultura pop do país. Do que adiantaria publicar algo que não teria nada a acrescentar, que não fosse além do que já foi dito? Seria uma perda de tempo, tanto para mim quanto para você, leitor.

Então eu decidi que seria melhor deixar passar, não tentar escrever nada muito aprofundado sobre o filme. E acho que foi a escolha mais acertada mesmo, já que não estava confortável com o plano. Precisamos escolher quais batalhas iremos lutar, e esse certamente não era o caso aqui. É triste reconhecer que suas ideias não eram tão boas ou originais, mas ainda é melhor do que ter ciência disso e mesmo assim tentar executá-las, apresentando um resultado bem abaixo do esperado. E em um mundo como o nosso, cada vez mais imediatista e repleto de pessoas com opiniões prontas sobre todos os assuntos possíveis, talvez esse até seja um exercício saudável.

Fora que toda essa situação acabou me fazendo criar este texto. É, realmente não me arrependo.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

A beleza da violência em "Atômica"


Todos sabemos que a violência, embora infelizmente seja parte de nosso cotidiano, é repugnante na vida real. O cinema, entretanto, consegue transformá-la em entretenimento e até mesmo em arte. A lista de filmes que conseguem essa proeza é considerável, tendo sido comandados por alguns mestres como Quentin Tarantino, Martin Scorsese, Brian De Palma, Francis Ford Coppola, James Cameron, Sergio Leone, entre outros. Uma das mais recentes adições a esse rol é Atômica (Atomic Blonde no original), dirigido por David Leitch, que também co-dirigiu o primeiro John Wick, sendo ainda produtor dessa franquia que já é figura carimbada do gênero de ação.

No longa estrelado pela sempre excelente Charlize Theron, Lorraine Broughton, uma agente do MI6, é enviada a Berlim em pleno 1989, nos dias que antecederam a queda do Muro que dividia a cidade em suas partes oriental e ocidental, para investigar a morte de um espião conhecido e recuperar das mãos de um renegado da KGB uma lista contendo o nome e as operações de todos os agentes secretos em atividade, encontrando pelo caminho os personagens de James McAvoy, Sofia Boutella e John Goodman.

A sinopse, por si só, já dá espaço para a porradaria rolar solta. E ela de fato acontece, mas o filme consegue ir além e utilizar de seus principais elementos para criar uma experiência ímpar. A fotografia acinzentada (bem condizente com a época e a cidade em que se passa), que dá destaque à luz e aos neons em momentos-chave, somada a trilha sonora recheada de hits dos anos 1980 faz com que as cenas de ação beirem o pop, em um show de movimentos e imparável frenesi que não deixa tempo para respiro.

Lutas corpo a corpo são recorrentes em Atômica, e a meticulosa coreografia faz com que elas sejam fluídas e naturais, seja em momentos de precisos cortes da montagem ou no plano-sequência de um dos melhores momentos do longa, com direito até a uma visível fadiga dos combatente em tela que beira a aflição. Tiroteios também se sobressaem pelo dinamismo que são retratados, não poupando sangue a cada disparo certeiro dado e manchando chão, paredes e até mesmo a câmera em determinada hora.

O roteiro pode não ser o ponto mais forte do filme (apesar das reviravoltas dignas das boas tramas de espionagem), mas ele se garante pelo carisma de seus protagonistas, sua ação estilizada e o uso da violência de forma artística, dando permissão para que Lorraine aja da forma que lhe melhor convém para garantir sua sobrevivência, fazendo uso das armas básicas ou dos objetos menos convencionais encontrados no cenário. O uso combinado do filtro, das cores e da música durante os confrontos fazem de Atômica uma experiência especial, dando ao longa uma personalidade tão forte quanto a de sua personagem principal, o suficiente para diferenciá-lo do resto do gênero.

Confira uma cena de Atômica e entenda do que estou falando:

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

BALANÇO MUSICAL - Agosto de 2017


Olá! Seja bem-vindo ao meu projeto Balanço Musical, uma coluna mensal na qual falo sobre música, o que escutei no mês que se passou, o porquê das escolhas, o que me influenciou nesses dias, e publico uma playlist com uma faixa referente a cada dia do período. O objetivo não é nada além de escrever um pouco mais sobre música no blog, apresentar algumas coisas diferentes e dar às pessoas a oportunidade de conhecer novos artistas e canções. As postagens são publicadas sempre no primeiro dia útil de cada mês, o que pode ou não coincidir com o dia 1º.

Se julho foi marcado pela inconsistência, em agosto as coisas voltaram aos trilhos, tendo eu ouvido uma quantidade considerável de músicas quase todos os dias (apenas deles teve um número de faixas abaixo de 10), com o mês roubando o posto de junho como segundo com maior número de audições (a primeira posição segue sendo de maio). Uma evolução interessante, mas que também me faz pensar na inconstância de meu hábito de ouvir música, já que durante o ano vim obtendo números que se distanciam em centenas em relação a um período e outro.

Agosto tende a ser um dos meses mais longos e chatos do ano, e dessa vez não foi diferente, especialmente para mim, que esteve de férias plenas entre o fim de julho e o início desse mês e teve que retomar todas as atividades com uma violência sem precedentes. Então sim, a imagem de Kim Pine fingindo dar um tiro em sua própria cabeça, tirada de Scott Pilgrim Contra o Universo (volume 5 da série), se aplica bem a toda essa situação. Felizmente existe música no mundo, para embalar nossas vidas e tornar o cotidiano mais leve e prazeroso (ou no mínimo tolerável).

Esse mês foi marcado por uma boa variedade de artistas e canções, muito graças à trilha sonora de Em Ritmo de Fuga, que cresceu em mim e tornou-se parte quase diária de minhas audições. Também foram essenciais alguns lançamentos dos últimos dias e de julho, como os álbuns The Rise of Chaos do Accept, Villains do Queens of the Stone Age, A Deeper Understanding do The War on Drugs, Hydrograd do Stone Sour e Everything Now do Arcade Fire; ou singles como The Sin and The Sentence do Trivium, Collide do Black Country Communion (que vai retomar as atividades, amém), England Lost do Mick Jagger, e The Sky is a Neighborhood do Foo Fighters. Também foi a hora de ouvir o mais recente trabalho do Adrenaline Mob, We The People, ficar encantado com a trilha sonora de Planeta dos Macacos: A Guerra e manter-se viciado em Babymetal (elas mandam muito bem, oras!).

Para manter o equilíbrio entre o velho e o novo, é possível ainda ver uma forte influência de registros mais antigos em agosto, seja através de clássicos absolutos como os do Depeche Mode, Iced Earth, Judas Priest, Freddie Mercury, Led Zeppelin, Manic Street Preachers e Iggy Pop; seja por marcantes álbuns mais recentes, como os excelentes Whatever People Say I Am, That's What I'm Not do Arctic Monkeys ou The Hunter do Mastodon, que marcaram minha adolescência como poucos conseguiram. 

No fim, o saldo do mês foi mais que positivo, seja pela quantidade ou pela qualidade das músicas que ouvi. E é bom tirar algo de bom após um agosto como esse.

Confira a playlist de agosto de 2017:

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

[RESENHA] Mister Miracle #1 (2017)


Darkseid is.

O que dizer dessa que é provavelmente a melhor edição #1 do ano?

Como parte da comemoração do centenário de Jack Kirby, a DC decidiu realizar várias homenagens através de edições únicas ou minisséries, concedendo a diversos escritores e artistas a chance de brincar com algumas das principais criações do Rei. A dupla Tom King e Mitch Gerads, conhecida pela autoral e semibiográfica Xerife da Babilônia e por recorrentes colaborações na mensal do Batman, ficou responsável por Mister Miracle, título dividido em 12 partes e que sacudiu a indústria, a crítica especializada e os fãs com o lançamento de seu primeiro capítulo no último 9 de agosto.

Darkseid is.

O roteirista Tom King, grande estrela da indústria no momento, tornou-se conhecido por sua abordagem de temas humanos e atuais quando se tratando de personagens tão fantásticos. Aqui não é diferente: de maneira visceral e até agressiva, o escritor retrata um dos principais problemas crônicos do mundo moderno: a depressão. É possível sentir toda a angústia, o desconforto, a sensação de incapacidade do protagonista diante de tudo o que ele vive, ao mesmo tempo que aqueles ao seu redor não sabem como lidar com a situação. Também é possível dizer que são mostrados o abandono parental e a rejeição familiar, ainda que em menor escala, mas que torna-se explícito nos momentos em que Orion e o Pai Celestial entram em cena.

King também é conhecido por saber combinar esse enfoque a roteiros intrigantes com narrativas fluidas, e mais uma vez não decepciona. A história pré-estabelecida por essa primeira edição é concisa e já repleta de eventos importantes, trazendo um enredo inteligentemente construído e que planta dúvidas no leitor. Afinal, o que está acontecendo com o Senhor Milagre? O que é verdade no que ele está vivendo? Aliás, está ele vivendo? Estaria ele finalmente preso em uma armadilha à prova de escapes? São esses os grandes alicerces a serem desenvolvidos para os 11 números restantes.

Darkseid is.

A arte de Gerads só colabora com a construção da revista, graças a seu diferente estilo que flerta com o caricato, o experimental e o realista, sabendo portar-se tanto de forma viva e grandiosa quanto fria e intimista sempre que necessário. Sua retratação dos personagens, que chuta para longe exageros anatômicos e dá a eles formas mais humanas, é fundamental para aproximar ainda mais o leitor da naturalidade com que o roteiro trata de seus principais temas. E convenhamos: um tom mais super-heroico simplesmente não se encaixaria com a proposta. Vale ainda o destaque para o capista Nick Derrington, que faz do gibi uma belíssima experiência visual antes mesmo de ele ser aberto.

A melhor (talvez até a principal) das homenagens a Jack Kirby, Mister Miracle consegue com sua edição #1 algo que o grande criador sempre procurou fazer com seus personagens: refletir o estado da humanidade no momento. Esse início, de roteiro inteligente e arte mais do que adequada, estabeleceu a base para uma história de grande potencial, e com um Rei escrevendo outro Rei (sacou? Ha!), é seguro dizer que o futuro dessa minissérie tem tudo para ser brilhante.


Confira abaixo quatro página de Mister Miracle #1: